FREUD: DAS LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS À LIVRE ASSOCIAÇÃO-III

(Tudo sempre se expressa, há que tentar decifrar!)

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NOTA: muitos estranharão a associação entre FREUD e LEIBNIZ. A explicação é simples e pode resolver um problema na história da filosofia: o silêncio que se fez em torno da obra deste último. Como verão, foi LEIBNIZ quem estabeleceu as bases para a investigação psicológica. Sob sua inspiração, W. Wundt (iniciador da PSICOLOGIA e mentor de Kraepelin) e seus seguidores foram essenciais para o grande salto realizado por S. Freud, especialmente a partir da obra que discutiremos. Todo esse meu esforço vem da impressão causada pela descoberta (não há outra palavra) da obra de LEIBNIZ, bem escondido que foi por Cartesianos, Newton (e seguidores) e vilipendiado por Voltaire. Nessa empreitada, contaram com a “ajuda inestimável” de I. Kant de cuja obra já fui admirador até constatar: tudo o que eu nela apreciava fora antecipado por Leibniz (sem reconhecimento e atribuição de autoria). O resto…é a fonte do IDEALISMO ALEMÃO do qual a filosofia ainda não se libertou de todo.

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Leibniz

“Agir voluntariamente implica não apenas as RAZÕES (origem externa), mas também as inclinações que surgem das paixões e de impressões anteriores (internas)...Um homem sempre age à sua maneira e toda ação é individual; não geral ou abstraída das circunstâncias…” GW LEIBNIZ, “Correspondence with S. Clarke” (Discípulo de Newton). 

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Em discussão com Leibniz sobre os motivos (e seus pesos) nas tomadas de decisão e ações em geral dos seres inteligentes, o discípulo de Newton fez uma afirmação um tanto leviana e irresponsável; bem representativa, aliás, do valor que os empiristas atribuíam às pessoas. Segundo Clarke, nossas ações poderiam ser determinadas por: “…motivos poderosos, outras vez por motivos fracos e outras vezes ainda em função de coisas absolutamente indiferentes”*. Seria o “dobre de finados” da PSICOLOGIA já no seu próprio nascedouro. A resposta de Leibniz resolveria o problema: “…Diante de coisas absolutamente indiferentes, não há fundamentos para as escolhas; eleições ou vontades, pois essas se fundamentam em razões e princípios. Uma mera vontade sem motivos é uma FICÇÃO; uma quimera contraditória, inconsistente com a definição de VONTADE”**. Talvez ele não conhecesse o “Tratado Político” de Spinoza que trata do mesmo tema, mas certamente ficaria muito orgulhoso de com ele compartilhar ideias e sentimentos (pois estão na base de tudo). : “…a maioria crê que os insensatos perturbam mais a ordem da natureza do que a seguem, concebendo os homens na natureza como um estado dentro de outro estado. Com efeito, proclamam que a mente humana não é produzida por causas naturais…A experiência, no entanto, ensina que possuir a mente sã não está em nosso poder…”  (referia-se à impotência Razão tão idealizada pelos cartesianos).

Freud

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O mais curioso é que a discussão Clarke-Leibniz era travada, inicialmente, em torno do poder de Deus: seria Ele um Ser caprichosoarbitrário e milagreiro, não respeitando as LEIS que Ele mesmo criou, como diziam os ingleses? Foi o que Leibniz, através do seu PRINCÍPIO da Razão Suficiente, demonstrou ser mais uma quimera: não há milagres, pois Deus não é um Ser caprichoso. Assim, nada aconteceria sem razões suficientes, não somente na física, mas também em relação às nossas condutas. Quando Leibniz (na citação inicial) fala nas peculiaridades de cada motivo para cada ser humano, segundo sua própria história, heranças, talentos e inclinações, está antecipando a possibilidade da investigação PSICOLÓGICA INDIVIDUAL. Investigação essa que seria iniciada por W. Wundt (sob sua inspiração) e levada a extremos por S. Freud dois séculos depois (ver no seguimento). É nessas últimas cartas que Leibniz—sempre cuidadoso, refinado e cordial em suas críticas—chega a se exasperar com a incompreensão sofrida. Morreria antes da carta chegar ao destinatário (1716), totalmente isolado, depois de desafiar o poder inglês que se estabelecera no mundo. Não o perdoaram por derrubar as principais teses de Newton e Descartes. Talvez pela primeira vez, franceses e ingleses se aliaram e abafaram a obra do alemão, com a contribuição de outro alemão: I. Kant.

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“LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS”: DECIFRANDO MOTIVOS DISFARÇADOS

Poucas vezes Freud foi tão direto e objetivo quanto nesse opúsculo de 1897, que parece um trabalho em evolução. Tudo vai se dando, como se Freud realizasse as conquistas teóricas no decurso da própria escrita. Não tem subdivisões e o estilo despojado impressiona. Inicia-se por observações muito agudas sobre o papel da memória: os registros dos primeiros anos seriam poucos, isolados, enigmáticos e de importância duvidosa, ganhando organização a partir dos 6 ou 7 anos. Desse ponto em diante, os registros reforçariam a crença (um tanto positivista) na relação, direta e obrigatória, entre a importância dos acontecimentos e a intensidade de seu registro: “…se estabelece uma relação constante entre a importância psíquica de um acontecimento e seu registro na memória…”. Tudo passaria a se dar “…como uma cadeia concatenada de eventos”. O abalo dessa crença, porém, vem logo adiante, só que ainda circunscrito aos “histéricos” que:  “…frequentemente apresentam uma amnésia total ou parcial para os eventos que provocaram a enfermidade” (mantida a importância dos mesmos). Essa semelhança entre a memória dos “histéricos” e as infantis, forneceria “…um valioso indício da íntima ligação entre o conteúdo psíquico das neuroses e nossa vida infantil”, outra constatação reafirmada. A associação entre a memória das crianças e a dos “neuróticos”, por um lado, e sua separação em relação à dos adultos “normais”, seria vencida no decorrer do trabalho. Os processos não seriam tão diferentes assim como ele mesmo demonstrará.

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DOIS PSICÓLOGOS QUE DERAM BASES PARA O SALTO FREUDIANO!

Freud Em todo esse trabalho, Freud apresenta um contraponto muito rico em relação às pesquisas de 2 psicólogos, os irmãos C. e V. Henri***, chegando a novos conceitos e à superação do matiz positivista: as lembranças encobridoras. Em verdade, tudo se passaria segundo um choque permanente entre tendências opostas em cada um de nós. Era um enorme salto adiante em relação às pesquisas que ele muito elogia. Com isso, Freud apresentou mais um novo conceito, o esquecimento ativo, ao afirmar que os “…elementos da experiência foram omitidos, em vez de esquecidos” , como teriam dito os irmãos HenriAdiante, Freud utiliza até o termo psicanálise (a verificar se pela primeira vez)“…Tenho conseguido…por meio do tratamento psicanalítico, descobrir as partes que faltam numa experiência infantil”. É verdade, que quando fala em “partes que faltam”, Freud demonstra não ter ainda se libertado plenamente da concretude positivista, parecendo até assustado com suas constatações: “…estamos diante de um fato diametralmente oposto a nossas expectativas e que fatalmente nos assombra…”. A ironia é que as bases do positivismo—que assolava a humanidade com sua apologia ao geometrismo de inspiração cartesiana— tenham sido já solapadas pelas artes plásticas com o CUBISMO, conquistando alguma unidade entre as “partes” dos humanos “quebrados” pela Rev. Industrial.

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EIS QUE SURGE A SEXUALIDADE INFANTIL, ANTECIPANDO TEORIA!

E surge de uma forma tão sutil que nem nos damos conta da importância da sentença que a anuncia. As lembranças infantis poderiam: “…seguir outros caminhos e sua aparente inocência encobrir sentidos insuspeitados”. Ele avisa não querer se limitar, nessa discussão “…a meras afirmações, mas explorar os mais instrutivos dos exemplos…”. Seus achados ganhariam mais importância ainda, pois tinham se dado com “…uma pessoa que era nada ou muito pouco neurótica”. Ou seja: seriam aplicáveis aos humanos em geral. Também aqui e na linguagem aplicada, Freud não consegue se libertar totalmente do moralismo da época. Falar em “aparente inocência” causa mal estar, para dizer o mínimo***. No seguimento surge uma enxurrada de lembranças/sonhos com associações de natureza sexual, todas muito pertinentes: o arrebatar flores de uma menina associado ao defloramento; a lembrança de exposições de arte e os traseiros femininos ocupando todo o interesse; o “quebrar o galho” de uma planta associado à masturbação (a expressão tem esse significado em alemão). E foram essas associações de natureza sexual que catapultaram FREUD ao topo da investigação psicológica no mundo, atirando para a sombra TODOS os que também pesquisavam em psicologia na época. Talvez a humanidade estivesse sequiosa por essa discussão. Será tema de outro texto.

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*Diz Leibniz em outro momento corrigindo Clarke que falara nos pesos de uma balança na tomada de decisão: “Não são os motivos que atuam na mente como os pesos na balança, mas sim a mente que atua em virtude dos motivos” (Quinta carta). Diria também: sofrendo uma ação por parte do que chamamos “motivos”, segundo a história de cada um.

**A aplicação do termo ‘CONATUS’ para substituir o clássico VONTADE em PSICOPATOLOGIA deriva dessa mentalidade. À maneira cartesiana—pois se refere à mera sobrevivência—como que “passam uma régua” eliminando discussões em torno do LIVRE ARBÍTRIO, dos limites à nossa liberdade de escolha e da DUALIDADE do Eu. Não se dão conta, mas estão nos nivelando aos répteis mais primitivos, pois os mamíferos e aves vão muito além do mero…“Conatus”.

***A relação da obra de Freud com os estudos da PSICOLOGIA que o antecederam não foi estudada suficientemente, tenho a impressão.

****A mesma tendência aparece na denominação “polimorfo perverso” também aplicada às crianças em obras posteriores. 

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2 Comentários

  1. Meus parabéns pela abordagem muito bem feita ao tema tão instigante para todos nós. Cabe à academia, com um olhar isento, dar a Cesar o que é de Cesar. O homem é o binômio corpo fisico e o espírito, este tem o sugnificado da força que tudo plasma. O tem abordado do livre-arbítrio que nos concede a plena liberdade de agir sob a égide da nosso pensanento que, no fundo, é o limiar de tudo que fazemos. Portanto, nao csbe qualquer sofisma.que é lugar comum,.a

    em pontar outrem pelos nossos eventuais fracassos nas empreitadas e obstáculos que a vida nos impõe, até para que possamos nos fortalecer. Para quem acredita, a nossa estada, nesse planete de dimensoes minúsculas, serve-nos como um escola. Cabe a nós procurar passar com distinçao e louvor, do ensino básico à mais alta graduaçao na escala da nossa evoluçao transcendental, que, na realidade e o qu tem o conceito da perenidade.

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