TENTANDO FUGIR DO LUTO? CUIDADO COM A MELANCOLIA!
(Sobre o Samba “PAGO PRÁ VER”: T. Geraes e N. Rufino que me inspirou uma “continuação”)

NOTA: toda apreciação de um poema implica interpretação individual. Freud aplicou o recurso com frequência (e bons resultados), para ilustrar algumas de suas teses. O SOFRIMENTO e a REVOLTA de alguém, diante da perda de uma relação amorosa, poucas vezes foi expressa em versos tão belos e claros como no poema que discutirei! Clareza não é algo que se exija da poesia, mas fico com M. Bandeira: “Só não fui claro quando não consegui”. A primeira fase do processo (digamos assim) mental pela superação do sofrimento está ali tão bem expressada, que estimula uma cuidadosa teorização a respeito. Enviei a canção ao lado para Toninho Geraes e fui por ele muito encorajado a dar prosseguimento ao trabalho (letra com pequenas modificações).
…………
Apreciando a obra dos dois poetas, de imediato pensamos no colapso de um sonho, mas é bom não se esquecer de que “Pagar prá ver” implica aposta, associada à quase certeza de que a amada (no caso) haveria de voltar. Alguns dirão que o móvel principal seria VINGANÇA, mas penso haver ali algo mais profundo e determinante (com licença aos poetas): a certeza (inconsciente) de que tudo o que o casal vivera fora tão rico e intenso que ela haveria de voltar! Esse foi, aliás, o sentimento que me inspirou a tentar “dar continuidade” à situação (assim como o uso de quiálteras*). Há que assinalar: o personagem criado pelos poetas é muito mais verdadeiro e convincente do que o dessa “continuação”. Costumo ser “parasitado” por um excesso de racionalidade, o que diminui o alcance de tentativas poéticas. Não vejam, nas interpretações abaixo, qualquer crítica, apenas um esforço para compreender os processos muito humanos e até ilustrar a teoria. Vamos às estrofes:
1- A revolta provoca uma incapacidade de pensar nas razões da amada. Esse tipo de amor não pode ser cobrado, mas é quase a regra, de início pelo menos. Os poetas deram voz a muitos que passaram por essas situações, daí a grandeza de sua obra.
2- O personagem se debate no esforço de salvar sua autoestima, ainda que precise destruir tudo o que os 2 viveram. Não tinha condições de pensar: “onde eu fracassei?” Assim, apelou para: “ela não estava à altura da grandeza do meu amor…desde o início”. E como costumamos fazer esse esforço! Destruir um passado é muito perigoso.
3- Reforço da estrofe anterior.
4- “Decisões” sem consistência: a RAZÃO tentando se apoderar de um processo que tem suas próprias fases e tempos. Podem ser válidas como objetivo e determinação, mas exigem uma consciência quanto às dificuldades. Quando o LUTO é inevitável, artifícios para dele fugir só pioram as coisas.
…………
“PAGAVA PRÁ VER”, ESTROFES E CONCLUSÃO:
1- Lembrança da antiga “decisão”, abalada por uns passos que ele, como um animalzinho à espera da sua “dona”, reconheceu de imediato…Antecipação do que virá, por mais que tente resistir.
2- Ouvidos feridos por uma campainha impessoal…Apesar disso, baixou a certeza quanto a de quem se tratava…Não havia como fugir, mas a frágil resistência ainda tenta se organizar, procurando por uma velha revolta contra o poder da amada.
3- Consciência em um “lusco-fusco”; ele tremendo como em um TEPT, com seu típico congelamento…Súbito “clarão”, como uma revelação plena…resistência a se entregar. E então…o extremo da intimidade humana nas suas relações: “Mas só me mexi com a batida suave da ponta dos dedos”. Uma corda muito sensível fora nele tocada e a resistência se desmanchou. Esse contraste me deu a confiança de haver aqui poesia!
4- Uma espécie de rescaldo do “incêndio” que quase o consumiu…literalmente. Muitos contrastes e a “solução”.
5- Até aqui, o samba original foi uma inspiração. Nesse trecho, aproveitei a melodia ORIGINAL, em parceria informal (cuja oficialização muito me orgulharia). Mas…voltemos à CRIANÇA! Costumo ser uma espécie de “advogado do ausente”. Que mulher haveria de se satisfazer no amor com aquele tipo de entrega? Que tema espinhoso, não é mesmo!? O próprio T. Geraes sofreu dura incompreensão em relação à sua impressionante canção “MULHERES”…Tantas mentes estreitas emitindo julgamentos por aí…e tantos tolos ávidos por fazer coro com as “tendências do momento”!? Voltando ao poema, a superação do LUTO foi criativa; o “ritual de passagem” aconteceu o personagem está preparado para o que der e vier!
…………
*O samba costuma pedir um compasso binário: 2/4, com um tempo forte (surdo) e outro “fraco”. Na canção original, no tempo “fraco” são cantadas 3 notas: “PA…GO…PRÁ…”; enquanto no tempo forte, apenas 1: “VER”. Com isso, o LIRISMO se impõe de imediato, disparando um estado especial que, em mim, inspirou o samba. cheio de quiálteras.