TENTANDO FUGIR DO LUTO? CUIDADO COM A MELANCOLIA!

(Sobre o Samba “PAGO PRÁ VER”: T. Geraes e N. Rufino que me inspirou uma “continuação”)  

Crédito da foto: Brasil de fato

NOTA: toda apreciação de um poema implica interpretação individual. Freud aplicou o recurso com frequência (e bons resultados), para ilustrar algumas de suas teses. O SOFRIMENTO e a REVOLTA de alguém, diante da perda de uma relação amorosa, poucas vezes foi expressa em versos tão belos e claros como no poema que discutirei! Clareza não é algo que se exija da poesia, mas fico com M. Bandeira: “Só não fui claro quando não consegui”. A primeira fase do processo (digamos assim) mental pela superação do sofrimento está ali tão bem expressada, que estimula uma cuidadosa teorização a respeito. Enviei a canção ao lado para Toninho Geraes e fui por ele muito encorajado a dar prosseguimento ao trabalho (letra com pequenas modificações).

PAGAVA PRÁ VER.…!
……
Pagava prá ver ela rogar a minha volta,
Transbordando de amor, a implorar o meu perdão. (Agora…)
Que ouço seus passos, Não consigo dobrar a aposta…
Lá se foi a revolta…Abriram-se as portas do meu coração
……..(abaixo: estrofe não gravada)
Quando o ruído muito estridente da campainha
Rompeu o leve véu que envolvia a escuridão
Bateu a certeza…estava mesa…era ela quem vinha
Certamente pensando que eu inda estava na sua mão

…………..
Fiquei paralisado, dentro da noite, tremendo de medo
E veio um clarão…Eu cravado chão…Já não há mais segredo!
O momento era aquele, nada mais tarde ou mesmo mais cedo,
Mas só me mexi com a batida suave da ponta dos dedos.
……………………
Troquei telefone…tentei outro nome…quase me desconheço.
Mudei quase tudo, quedei todo mudo, mas restou o endereço
“Namorei” a  janela…e à porta me bate mais um recomeço…
Fiquei por um fio, vacilei no vazio, mas valeu o preço. (E)
………….
O que restou de nós dois, resplandeceu novamente 
E vou me entregar com o mesmo ardor de antigamente! 
O que restou de nós dois,  refloresceu de repente 
E (a) vou abraçar com o mais puro amor de um adolescente! 

PAGO PRÁ VER! (T. Geraes e N. Rufino)
……
Pago pra ver você rogar a minha volta
Minha revolta tá na sua ingratidão
Quem deu amor, quem se entregou
Não merecia uma partida
Sem deixar explicação
Quando você chegou pra mim foi tanta jura
Tanta promessa desse amor jamais ter fim
Agora vejo, foi somente um desejo
Simplesmente um ensejo
Pra mais uma curtição
Enquanto eu
Que apostei todas as cartas
Nesse amor que me descarta
Só há dor, desilusão
Vou refazer minha vida
Mudar o meu telefone
Cicatrizar a ferida
Tirar o seu sobrenome
O que restou de nós dois
Vou apagar da lembrança
E não vou mais me entregar
Feito criança

…………  

Apreciando a obra dos dois poetas, de imediato pensamos no colapso de um sonho, mas é bom não se esquecer de que “Pagar prá ver” implica aposta, associada à quase certeza de que a amada  (no caso) haveria de voltar. Alguns dirão que o móvel principal seria VINGANÇA, mas penso haver ali algo mais profundo e determinante (com licença aos poetas): a certeza (inconsciente) de que tudo o que o casal vivera fora tão rico e intenso que ela haveria de voltar! Esse foi, aliás, o sentimento que me inspirou a tentar “dar continuidade” à situação (assim como o uso de quiálteras*). Há que assinalar: o personagem criado pelos poetas é muito mais verdadeiro e convincente do que o dessa “continuação”. Costumo ser “parasitado” por um excesso de racionalidade, o que diminui o alcance de tentativas poéticas. Não vejam, nas interpretações abaixo, qualquer crítica, apenas um esforço para compreender os processos muito humanos e até ilustrar a teoria. Vamos às estrofes: 


1- A revolta provoca uma incapacidade de pensar nas razões da amada. Esse tipo de amor não pode ser cobrado, mas é quase a regra, de início pelo menos. Os poetas deram voz a muitos que passaram por essas situações, daí a grandeza de sua obra. 
2- O personagem se debate no esforço de salvar sua autoestima, ainda que precise destruir tudo o que os 2 viveram. Não tinha condições de pensar: “onde eu fracassei?” Assim, apelou para: “ela não estava à altura da grandeza do meu amor…desde o início”. E como costumamos fazer esse esforço! Destruir um passado é muito perigoso.
3- Reforço da estrofe anterior.
4- “Decisões” sem consistência: a RAZÃO tentando se apoderar de um processo que tem suas próprias fases e tempos. Podem ser válidas como objetivo e determinação, mas exigem uma consciência quanto às dificuldades. Quando o LUTO é inevitável, artifícios para dele fugir só pioram as coisas. 

…………  

“PAGAVA PRÁ VER”, ESTROFES E CONCLUSÃO:
1- Lembrança da antiga “decisão”, abalada por uns passos que ele, como um animalzinho à espera da sua “dona”, reconheceu de imediato…Antecipação do que virá, por mais que tente resistir.
2- Ouvidos feridos por uma campainha impessoal…Apesar disso, baixou a certeza quanto a de quem se tratava…Não havia como fugir, mas a frágil resistência ainda tenta se organizar, procurando por uma velha revolta contra o poder da amada.
3- Consciência em um “lusco-fusco”; ele tremendo como em um TEPT, com seu típico congelamento…Súbito “clarão”, como uma revelação plena…resistência a se entregar. E então…o extremo da intimidade humana nas suas relações: “Mas só me mexi com a batida suave da ponta dos dedos”. Uma corda muito sensível fora nele tocada e a resistência se desmanchou. Esse contraste me deu a confiança de haver aqui poesia!
4- Uma espécie de rescaldo do “incêndio” que quase o consumiu…literalmente. Muitos contrastes e a “solução”.
5- Até aqui, o samba original foi uma inspiração. Nesse trecho, aproveitei a melodia ORIGINAL, em parceria informal (cuja oficialização muito me orgulharia). Mas…voltemos à CRIANÇA! Costumo ser uma espécie de “advogado do ausente”. Que mulher haveria de se satisfazer no amor com aquele tipo de entrega? Que tema espinhoso, não é mesmo!? O próprio T. Geraes sofreu dura incompreensão em relação à sua impressionante canção “MULHERES”…Tantas mentes estreitas emitindo julgamentos por aí…e tantos tolos ávidos por fazer coro com as “tendências do momento”!? Voltando ao poema, a superação do LUTO foi criativa; o “ritual de passagem” aconteceu o personagem está preparado para o que der e vier!

…………  

*O samba costuma pedir um compasso binário: 2/4, com um tempo forte (surdo) e outro “fraco”. Na canção original, no tempo “fraco” são cantadas 3 notas: “PA…GO…PRÁ…”; enquanto no tempo forte, apenas 1: “VER”. Com isso, o LIRISMO se impõe de imediato, disparando um estado especial que, em mim, inspirou o samba. cheio de quiálteras.

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