A SEXUALIDADE NA FILOSOFIA- KANT: UM ENORME SALTO…PARA TRÁS!-VI

(De como Kant capturou a mentalidade ocidental por mais de um século)

Forjou-a no curso de sua vida!

“A lei moral me revela uma vida independente da animalidade e também do mundo sensível…lei que não está limitada a esta vida…” (“Crítica da Razão Prática”, Kant)

“Toda virtude que se perde nas nuvens volta-se contra os seres humanos” (“Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche).

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Como foi possível que se tenha levado tão a sério a apologia de uma “Razão Pura”, ideia absurda e contraditória em sua origem? Uma sentença do poeta H. Heine (1796-1856) talvez forneça a senha para a compreensão de como aquela captura se deu: “O que é decapitar um rei (Robespierre) perto de decapitar DEUS?” (Kant)*. A conclusão natural e ERRADA costuma ser a de que “decapitar” Deus implicaria necessariamente libertação de nossas mentes! Certamente não! Talvez não fosse mais necessário um Deus para manter as mentes como que aprisionadas, desde que se fizesse um trabalho refinado de seu controle. Essa foi a grande tarefa a que Kant se dedicou, valendo-se, é claro, de discurso baseado em “pureza, virtude e perfeição”. Se o próprio Deus (tornado anacrônico a partir salto da ciência e do Iluminismo**) era uma criação da razão humana, quem sabe essa mesma razão não conseguiria desenvolver instrumentos mais refinados (disfarçados em “Ciência da Razão Pura”) de controle das mentes, especialmente contra nossas “animalidades”? A questão que pairou em meio aos pensadores—sem que disso se tenham dado conta—pode ter sido: “Não há mais Deus? Aprisionemos as mentes através do IDEAL!”. Havia que reunir todos os esforços contra a expressão da maior marca da “animalidade” em nós, a SEXUALIDADE! Quem pode duvidar? Irônico é que talvez fosse mais fácil se libertar de um Deus, no qual tinham sido projetados “ideais dos homens” (falsos por natureza), do que desses mesmos “ideais” a partir da própria razão, tornados parasitas devoradores da energia vital. A RAZÃO derrubou Deus…! Que a RAZÃO seja o novo Deus***! 

o amor sexual é destinado à conservação da espécie…Sem ter aquele fim como propósito, está a pessoa autorizada a dedicar o uso de suas capacidades sexuais ao mero prazer animal, sem agir contra um dever para consigo mesmo…cuja transgressão seria uma violação [Schändung]…da humanidade em sua pessoa? 

“Metafísica dos Costumes”: http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2017/09/Metafisica-dos-Costumes-Immanuel-Kant.pdf

Em verdade, o que Kant chama de “humanidade em nossa pessoa” é o OPOSTO do que chamamos humanidade; um ataque à condição HUMANA. É mesmo um mestre nas INVERSÕES!

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Conta-se que o povo de Könisberg acertava o relógio pela passagem de Kant, no mesmo caminho e à 15:30, com chuva, neve ou sol. Apenas o resultado de uma vida tornada MECANISMO! Há outros mecanismos que giram em igrejas e em hora exatas mas com muito mais beleza: Catedral de Munique. 

NARCISISMO (VAIDADE) E MEDO: INSTRUMENTOS DE CONTROLE

E quais os principais instrumentos, nesse processo contra as individualidades (a primeira a ser sacrificada)? Um misto de narcisismo e medo dos quais os pensadores que se seguiram foram vítimas (e algozes da sociedade), perdendo-se em apologias de ideais que se voltavam contra a vida:

1- Narcisismo e vaidade, pela necessidade de se sentirem uma referência a alcançar (em um mundo “muito ideal”) para gerações futuras. É fácil imaginar o efeito causado sobre a vaidade pela enunciação do assim chamado IMPERATIVO CATEGÓRICO: “Aja conforme a uma máxima que possa valer ao mesmo tempo como uma lei universal!”. Do fundo de sua obscuridade—quem sabe mediocridade?—qualquer um podia ser guindado ao sentimento do papel de “legislador universal”! O maior perigo, porém, era que se disparasse um MEDO de errar paralisante nas suas vidas. E há ainda que observar: por mais que KANT brigasse com os sentimentos, foi através desses sentimentos que capturou inúmeras mentes. Não há mesmo como escapar a Spinoza e seus afetos“A razão é luz, mas não é fogo”!

2- Medo pela intuição da tragédia pessoal que implicaria a ruptura com aqueles “ideais”; tragédia essa que foi tornada verdade através do destino pessoal de Nietzsche. Só uma fatalidade personificada em carne, ossos e alma, poderia implodir o IDEALISMO ALEMÃO inexoravelmente. Bem mais até do que DINAMITE, ele foi o “homem bomba” da filosofia moderna. Talvez essa seja a explicação para a assinatura da sua última carta, sugerindo o único paralelo possível com o seu próprio destino: “O CRUCIFICADO”. Sim: do ponto de vista do PENSAMENTO, há um antes e um depois de Nietzsche. E sequer havia mais um “PAI” a quem pudesse pedir: “AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE”!

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KANT TENTANDO AMPLIAR O ALCANCE E INDEPENDÊNCIA DA RAZÃO!

Se há um erro comum, cometido pelos que tentam seguir Kant, é julgar que ele teria delimitado o alcance da razão, somente pelo seu uso do conceito de “incognoscível”: algo subjacente (e determinante) aos fenômenos, mas inalcançável à razão. Trata-se de um conceito tão anterior; fundamento mesmo da METAFÍSICA, por definição: aquilo que está para além da física. Quase 100 anos antes, GW Leibniz escrevera seu “Discurso da METAFÍSICA”–em resposta ao “Discurso do Método”**** de Descartes, cujo geometrismo reduzia a natureza (o corpo humano, inclusive) à mera “res extensa”—demonstrando que, até nas equações para a transmissão de movimentoDescartes estava ERRADO. Havia, sim, algo inapreensível até mesmo nas relações entre os corpos físicos. O tal “Incognoscível” não passou de uma palavra sonora e pomposa. A confissão de Kant quanto ao seu incômodo com a delimitação do alcance da razão por Leibniz (através de PRINCÍPIOS) podemos ler nas palavras: “…os princípios…têm como resultado…não uma ampliação, mas uma restrição ao uso de nossa razão” (“Crítica da Razão Pura”). E aqui chegamos à “grande invenção/quimera” de Kant, uma “Ciência da Razão Pura”: …A crítica da Razão conduz necessariamente à ciência…(mas) somente da Razão mesma, isto é, dos problemas que surgem inteiramente do seu próprio meio e não lhe são propostos pela natureza das coisas”. Há que se perguntar pela isenção que pode ter a razão de alguém para julgar a si própria. Pobre Kant! Em sua fuga do mundo, exilou-se na sua própria…razão (que o abandonou no fim da vida). Até então, à exceção de Descartes, toda a investigação do papel da Razão (Montaigne, Pascal, Spinoza, Leibniz, como temos discutido aqui) apontava suas limitações e arrogância. Kant e o IDEALISMO ALEMÃO conseguiram inverter o sentido da investigação.

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KANT: A ARROGÂNCIA DA RAZÃO CONTRA SPINOZA (E A “TRANSFERÊNCIA”)!

Penso ter demonstrado a importância dos esforços de Pascal contra a arrogância dos cartesianos e sua apologia da racionalidade. Spinoza elevou-os a patamares inabaláveis. Seu método geométrico de exposição revela as influências sofridas (de Descartes, inclusive) e superadas. Assim, demonstrou ele que somente um afeto tem poder sobre outro afeto; quedando a razão inerme nessa relação.  Não foi outra, aliás, a intuição que levou S. Freud ao conceito de TRANSFERÊNCIA, a partir do fracasso terapêutico verificado com o mero “esclarecimento racional” de alguns conflitos de seus pacientes atendidos juntamente com J. Breuer. Não está claro se Freud tinha noção do papel revolucionário (à sua maneira) da obra de um outro judeu, cerca de 250 anos antes, mas o PRINCÍPIO por ele aplicado foi o mesmo: somente o revivenciar de situações traumáticas, implicando o reexperimentar de dores semelhantes às da época em que se deram, a partir de novas relações (terapêuticas, no caso, mas não somente) pode ajudar alguém a superar sérios conflitos interiores. Meros discursos e conselhos “muito racionais” são absolutamente inócuos, senão prejudiciais, uma vez que reforçam o sentimento de fracasso e incapacidade. Pois bem…toda a obra de Kant vai exatamente no sentido oposto. E o resultado? Moralismo, condenações e apologia da APATIA: “XVI-Para a virtude é necessariamente pressuposta a apatia” . Logo, e como de hábito, Kant promove uma inversão no sentido da palavra: Essa palavra ganhou má reputação, como se significasse insensibilidade…Foi tomada por fraqueza”. Que cada um julgue pelos resultados dessa luta consigo mesmo sobre suas mentes! O resultado acaba sendo mesmo fraqueza*****. 

Mas as coisas podiam piorar muito em termos contorcionismos nas definições: 

“Essa interpretação errônea (da fraqueza) pode ser evitada ao denominar-se apatia moral aquela ausência de afetos que deve ser distinguida da indiferença” (Metafísica dos Costumes).TRADUÇÃO: Kant tem por objetivo: a ausência de afetos (a expressão dos sentimentos, sua grande vítima), através do que chamou apatia moral, que não se deveria confundir com indiferença. Eis o “INFERNO DE KANT” para o qual arrastou o pensamento ocidental. Aquela obra, aliás, começa com uma curiosa e expressiva definição de pessoa: Pessoa é aquele sujeito cujas ações são suscetíveis de imputação. A personalidade moral é tão somente a liberdade de um ser racional submetido a leis morais” (“Metafísica dos Costumes”, IV- Conceitos Preliminares). O INFERNO passava a ser aqui mesmo! A “CRÍTICA DA RAZÃO PURA” (1781) só encontra seu objetivo na “METAFÍSICA DOS COSTUMES” (1784). Foi para ela um instrumento.

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ALGUMAS “MÁXIMAS” KANTIANAS CONDENANDO A SEXUALIDADE!

Kant foi um mestre na arte de transformar suas limitações e incapacidades em um VALOR a ser imposto a toda a humanidade. Havia algum talento nisso. Perverso, é verdade.

1- MASTURBAÇÃO (sem citar a palavra): que a excitação solitária e “…pela imaginação do objeto…de maneira contrária ao fim (reprodução) seja uma violação do dever para consigo mesmo…contrária à moralidade no mais alto grau“.

2- Sexo permitido apenas para reprodução: “a comunhão corporal  entre ambos os sexos, permitida no casamento, requer e exige muita fineza no convívio civilizado, a fim de cobri-la com um véu, quando se deve falar sobre isso…” (seria um “momento animal”: lirismo, ternura…estariam incluídos nessa “fineza”?).

3- Do sexo no casamento, sem intenção da reprodução: “…é permitido pretender aquele uso (mesmo no casamento) sem levar em consideração este fim? Fazer uso de suas capacidades sexuais durante a gravidez ou no caso de esterilidade da mulher…não é contrário…ao fim natural, assim como ocorre na luxúria antinatural?” (pergunta auto respondida). 

Há em tudo isso um matiz de diferença de gênero, o que é um contrassenso em uma obra sobre a MORAL. Em obra de juventude (“Do Belo e do Sublime“), Kant repete todos os preconceitos “afrancesados” sobre o que se espera de uma mulher. Leibniz, contrariamente, não fez qualquer diferença de gênero em suas considerações abordadas em texto anterior. 

…………….CONTINUA (SHOPENHAUER)……………………………….

*Em verdade, essa “inutilidade” de Deus já fora denunciada por S. Clarke como uma consequência da “Harmonia Universal” de Leibniz (“Correspondência”), segundo a qual Deus não precisaria ficar atuando no dia a dia como um “mau relojoeiro: dando corda e fazendo reparos”. Para Clarke, o mundo, sem um “Deus atuante” seria como um reinado sem rei. Em verdade, precisavam de Deus para projetar o despotismo da realeza e também de seu mentor, Newton!

**“A Terra só atingirá sua independência quando o céu for destruído!” Diderot (1713-84). Inventando outros céus”, Kant demonstrou que isso não era suficiente. 

***Em “Gaia Ciência”, Nietzsche diz ter a ciência eliminado todos os mitos! Como, porém, os humanos não vivem sem mitos, a própria ciência se tornou o MITO MODERNO. Basta ver suas “promessas quiméricas”… O paralelo aqui feito procede. 

****Em sua apologia do MÉTODO, Descartes e seus seguidores parecem ter se esquecido de que todos os métodos se desenvolveram e aplicam em função de algum FIM (o objeto de estudo). Agiram como se o mundo tivesse que caber nos seus…MÉTODOS. Resultado? Tomaram a CLAREZA como o critério para a verdade. Com isso mutilaram a vida, a arte, a poesia, a música; tudo o que envolve os sentimentos em geral. 

*****Discutindo a decadência grega, a partir da apologia da razão por Sócrates, afirma Nietzsche: “Quando uma sociedade ataca os instintos, entrou em decadência”.

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