A SEXUALIDADE NA FILOSOFIA: DE DESCARTES A LEIBNIZ-V

(Pós Montaigne, silêncio, censura e alguma reflexão)

Nota: o título original era “De Descartes a Schopenhauer”, mas o material (muito rico, como verão) foi demais e me obrigará a novos textos. Para as obras de R. Descartes e B. Pascal, as edições de “OS PENSADORES” (Abril Cultural) foram absolutamente suficientes. Já para Leibniz, foram necessárias outras consultas: LIVRO II dos “NOVOS ENSAIOS”.

……………………….

R. DESCARTES E O “CORPO-BONECO INFLÁVEL”.

René Descartes (1596-1650) foi um homem do mundo! Teve uma filha que nunca abandonou de todo—considerada bastarda—e sua correspondência, com mulheres da nobreza, é plena de discreta e interessante sensualidade. Uma dessas correspondências, aliás, está ligada à sua súbita doença e morte na Suécia—onde foi a convite da Rainha Cristina—e cujo inverno não suportou. O principal de sua obra: a separação entre o que chamou “res cogitans” X “res extensa” (e o desprezo com que trata essa última, incluindo o corpo humano e toda a natureza) teve como consequência o que denomino “corpo-boneco inflável”. Chama a atenção sua pretensão em “explicar” as mais complexas reações corporais aos mais sublimes e subjetivos sentimentos, quando o saber apenas engatinhava na compreensão da nossa ANATOMIA bem concreta e palpável. Disso resultaram algumas afirmações totalmente disparatadas sobre os mecanismos do riso, da tristeza da admiração, etc.* A função cardíaca (suas câmaras, músculos e válvulas, descritos por Harvey) acabara de ser conhecida, mas Descartes se sentiu autorizado a raciocinar em função do movimento de fluidos e gases como sendo suficiente para descrever quase todos os possíveis mecanismos de nossas reações corporais. Muito significativamente, a função na qual esse fluxo e estancamento do sangue poderia explicar quase todo o mecanismo (local pelo menos): a EREÇÃO PENIANA, ficou de fora de seu raciocínio. Vejam “AS PAIXÕES DA ALMA”– Art. 102“…quando ao entendimento se representa um objeto de amor…conduzem-se os espíritos animais pelos nervos aos músculos situados em torno dos intestinos e do estômago…obrigando a alma a deter-se nesse pensamento…”. Há nisso uma total inversão; como se tudo se iniciasse no…entendimento. Mais adiante, Art. 107volta ao movimento do sangue nos intestinos e conclui: “…eis por que, desde a primeira paixão, esse mesmo movimento sempre acompanhou a paixão do amor…”. Pobre Descartes! Perdeu a oportunidade de usar o raciocínio exatamente para tentar explicar os mecanismos na função na qual aqueles fluxos são o maior determinante. Haveria algo tão repulsivo naquela expressão humana (a ereção peniana, à qual devemos a reprodução) que impedia sua verbalização? Falando dos sinais corporais observáveis no amor, faltou o mais importante-Art. 112: “Os principais desses signos são as ações dos olhos e do rosto, as mudanças da cor, os tremores, a languidez, os desmaio, os risos, as lágrimas, os gemidos e os suspiros”. Parece estar se restringindo às mulheres, como se ele mesmo fosse infenso às paixões. Mais do que isso, parece querer demonstrar que as conhecia muito bem! Como era pretencioso esse francês! Pobres homens “muito racionais”!  

……………………….

B. PASCAL: A TRAGÉDIA DO ATAQUE À SUA PRÓPRIA NATUREZA!

Blaise Pascal (1623-62)

Nietzsche escreveu certa vez que não perdoava ao cristianismo o mal que fizera a Pascal! Havia nisso uma identificação e antecipação trágicas. Afinal, e não por acaso, seus colegas na escola o chamavam “o pastorzinho” e sua última carta é assinada “O CRUCIFICADO”. Poucas mentes foram tão brilhantes desde a infância quanto a de B. Pascal e tudo com realizações e reconhecimento generalizados. Sua condenação a todo prazer e às conquistas, amorosas ou não, porém, paralisou suas investigações cujos lampejos a nós chegaram através de PENSAMENTOS rascunhados sem objetivo de publicação: “Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne…”. Segundo sua irmã (uma freira) ele teria morrido virgem: “Fora, até então, preservado…de todos os vícios da mocidade”. Quem pode asseverar afirmações de irmãos? Mas ele não consegue se livrar da presença de M. de Montaigne (1533-96), quase onipresente em suas citações, a quem chamou “lascivo”. Já Pascal, condenava todos os prazeres e apetites, inclusive à mesa, associando-os à expressão da sensualidade. Nem Freud fez tantas associações entre as diversas expressões da vida (especialmente seus prazeres) e a sensualidade, apenas que vistas como um mal. Todos os divertimentos deviam ser evitados; os mais temíveis deles seriam as comédias e as paixões associadas: “…pois as agita e faz brotar em nosso coração, principalmente a do amor casto e honesto”, por parecerem inocentes. Diante disso, cabe a pergunta: de onde veio sua importância na história da filosofia?! Não é pouca, apesar de tudo: 1- foi primeiro dirigir contra o poder de Descartes o mais certeiro de todos os ataques, quando o associou ao olhar grosseiro e pouco sutil para vida: o espírito da geometria. Em oposição estaria o espírito sutil ou de finura; 2- Quando defendeu a INTUIÇÃO em oposição à “razão” mutiladora de Descartes; 3- no seu ataque à necessidade de clareza a todo custo, “clareza” essa que levou Descartes mutilar seus objetos de estudo: “…para chegar ao conhecimento da verdade, o que tenho principalmente a fazer é tentar sair e me desembaraçar de todas as dúvidas em que mergulhei…” (Descartes, Meditação Quinta). Era a consequência natural da apologia do MÉTODO quase como OBJETIVO em si mesmo e não para o conhecimento do mundo. 

Por tudo isso, estava Pascal preparando o caminho pelo qual seguiram dois dos maiores pensadores da história: B. SPINOZA (1632-77) e G.W. LEIBNIZ (1644-1716). De Spinoza, e sobre esse tema mais específico, não me sinto autorizado a falar. Sua relativização do papel da Razão na determinação das condutas humana precisa sempre ser assinalada: “A RAZÃO É LUZ, MAS NÃO É FOGO” (citado por W. Durant em “História das Civilizações”), uma das mais belas sentenças já cunhadas. Ou seja: pode iluminar, mas não modifica nada. Se for humilde, muito pode ajudar, desde que não queira o protagonismo. Quem sabe não há aí uma inspiração em Montaigne que, quando acusado de contradições, dizia querer ser apenas o calor imprescindível para que a cera tomasse novas formas? Mas Spinoza foi bem adiante, mostrando a incapacidade da razão (especialmente nas educações coercitivas) para provocar mudanças importantes no comportamento: “Só uma afecção(um afeto) pode ter efeito sobre outros afetos (Ética)

……………………….

LEIBNIZ E OS 2 TIPOS DE AMOR: POR CONCUPISCÊNCIA X PELO BEM MÚTUO!

“E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/Olhando aquele inferno, vai abençoar/
O que não tem governo, nem nunca terá/O que não tem vergonha nem nunca terá/
O que não tem juízo”
C. Buarque “O QUE SERÁ”****

A Harmonia Universal de que tanto fala Leibniz está longe da caricatural “pasmaceira universal” atribuída a ele por Voltaire, seu maior difamador:

 “…aflições, que são temporariamente más, são boas quanto aos seus efeitos a longo prazo, uma vez que se constituem em atalhos para uma maior perfeição” (“Novos Ensaios”-II). Assim, os conflitos seriam absolutamente necessários e até bons para o crescimento. Nietzsche daria à ideia um ar mais poético: “Somente nos ambientes onde há espaço para conflitos pode haver harmonia”. (basta pensar nas “panelas de pressão” para desfazer o paradoxo). 

Ao falar do AMOR mais propriamente, Leibniz começa em grande estilo. Haveria “…duas espécies de amor: por concupiscência — desejo ou sentimento voltado ao que dá prazer, sem preocupação com o prazer do outro — e o amor pelo bem mútuo: bem estar em função do despertar prazer ou felicidade no outro… Discutível é se o primeiro “tipo” (por concupiscência) deveria ser chamado amor, mas essa distinção é um grande e firme passo adiante. 

A sentença que se segue parece um alerta de Leibniz contra os perigos do IDEALISMO de I. Kant** (e sua falsa “Razão Pura”), sempre à procura de um “bem supremo”, perdido nas nuvens e desprendido do prazer e interesse individuais. Complementa Leibniz: “se o prazer do outro não se refletisse em nós, não poderíamos nos interessar por ele visto ser impossível — diga-se o que se quiser — se desapegar do próprio bem”. Aprofundando o raciocínio e por óbvio: não sentir também esse prazer (pessoal e com o prazer do outro) implicaria privar o outro do prazer correspondente. Leibniz parece sentir profundamente a tendência alemã ao IDEALISMO esterilizante (daí o diga-se o que se quiser” até no futuro). E foi assim que aquele idealismo como que “aprisionou” a filosofia por séculos, até ser “dinamitada” por Nietzsche: “Não somos batráquios pensantes, máquinas de gélidas entranhas. Temos que parir nossos pensamentos de nossas dores, secreções, sangue…”. (A Gaia Ciência)

……………………….

LEIBNIZ: COMO LIDAR COM NOSSOS DESEJOS E APETITES

 “…a vontade e o desejo são comumente confundidos…a volição não pode subsistir sem o desejo…mas também sem o seu oposto…” (a resistência a ele).*** Eis o drama inerente à condição humana e à Razão: “A razão e a vontade nos conduzem à felicidade, ao passo que os desejos e os apetites só nos levam ao prazer”. (“Novos Ensaios”-II).

Longe de enveredar por conselhos diretos e de matiz moralista—afinal, tudo começaria pelo desejar—Leibniz coloca-se dentro do problema. Como quem conhecia bem as paixões, sugere meios e estratagemas para com elas lidar: “visto que tais inclinações, tendências e desejos contrários devem se encontrar já na alma (na sua ORIGEM), a razão não tem poder sobre elas…”. (no sentido de fazê-las simplesmente desaparecer).  Leibniz partia da sua própria formulação de que nada se introduz ou retira de nossas almas (não teriam “janelinhas”****). Sendo assim, a Razão só pode desenvolver meios de lidar com as paixões: “…dispor de outro meio; desviar o espírito para outra coisa. Essa seria a grande participação da Razão no processo, pois “…não lhes poderíamos resistir de forma totalmente livre e voluntária”. Assim: “…A alma pode suspender alguns desses desejos…considerá-los um após o outro, compará-los entre si. É nisso que consiste a liberdade e o que denominamos, ainda que impropriamente, livre arbítrio“. Como podem ver, há aqui um exercício que pode justificar a classificação do filósofo como RACIONALISTA. Mas se é assim: quanta humildade há nesse seu exercício da razão! E então, o pensador discute o que há de mais primário em nossas vidas: “…como lembrar-se de fazê-lo, quando for necessário? Este é o problema, sobretudo quando se está sob o domínio de uma forte paixão. É necessário, portanto, que o espírito esteja preparado de antemão e se encontre já disposto a passar de um pensamento para o outro, para não estacionar em um ponto escorregadio e perigoso…“. Passaram-se séculos e certas coisas não mudaram nos conflitos humanos. O mesmo método continua em uso, apesar de sua fragilidade: “…Convém recolher-se, elevar-se acima do tumulto das impressões …Conseguindo sustar o efeito dos nossos desejos e paixões (suspendendo a ação), podemos encontrar os meios de combatê-las, seja mediante…inclinações contrárias ou…nos ocupando com coisas de outra natureza”. O que mais impressiona em tudo isso é como o pensador se inclui nos dramas humanos. Foi mesmo a maior inspiração para toda a PSICOLOGIA que viria nos séculos seguintes. 

……………………….

*Art. 122-Do riso “O riso consiste em que o sangue, procedente da cavidade direita do coração …inflando de súbito e repetidas vezes os pulmões, faz com que o ar nele contido seja obrigado a sair com impetuosidade…”. Só rindo mesmo.

**Kant não expressa qualquer amor pelos seres humanos em geral. Tentar transformá-los em “outra coisa” para poder amar é expressão de desamor e descrença no seu futuro. Por isso, estou convencido de que todos os horrores cometidos pelos alemães (e europeus em geral, especialmente contra outros povos), são a outra “face da moeda” do idealista. Todo “reformador do mundo e dos homens” (inquisidores em geral) acaba por promover matanças generalizadas. 

***Quase 100 anos depois, Kant apresentou a mesma ideia sem citar sua origem, assim como fez com outras formulações de Leibniz. Trata-se de uma distinção da maior importância em PSICOPATOLOGIA.  

****Lembrar de Montaigne (ver texto anterior) e a existência de algo de imoral na nossa origem: que só visa as próprias necessidades e prazeres e cuja extirpação aniquilaria a própria vida; uma espécie de “ID” freudiano. Leibniz chega a conceito parecido, mas por caminhos diferentes: o PRINCÍPIO de que nossas almas são simplesmente assim!

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *