S. FREUD: UMA SEMIOLOGIA PARA O INCONSCIENTE!- I
(De Leibniz a Freud: o longo caminho até o “inconsciente dinâmico”)
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“o presente estado da alma (da mente)…é resultado do estado anterior e determina os estados que virão…deixando traços nos quaisuma mente penetrante seria capaz de reconhecer o passado e o futuro…”(GW Leibniz “Notas ao Dicionário de Bayle” in Philosophical Texts, OXFORD UNIVERSITY PRESS, 1998).
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Se há uma palavra que ninguém associa ao nome de Freud é “SEMIOLOGIA”. Diante dessa associação pensariam todos em seu passado de neurologista. É bom não esquecer: “semeîon”=sinais e logos=estudo. Ou seja, e por definição, uma semiologia está sempre na origem das ciências, especialmente na nossa área. Como, porém, ela não tem o “glamour” daquilo que gerou, deixaram-na apenas para “iniciantes”. Bom seria que conseguíssemos encontrar o espírito do “eterno iniciante” que eu estou sempre cultivando. Mas, como já disse em outro lugar: “As flores sequer se dão conta das raízes que as alimentam”. Mais do que isso, se pudessem pensar, “torceriam o nariz para aquele chumaço escuro, contorcido e sujo de terra” na sua própria base. É o que temos feito através dos tempos. Artigos sobre o tema sequer são aceitos para publicação em “revistas indexadas”. Eu mesmo tive um artigo, sobre o tema, rejeitado (em termos desrespeitosos) por “pares anônimos”. E era para publicação no JBP onde resolvia um problema teórico da psicopatologia desde a sua origem*! Quem visita, hoje, os assim chamados pelo próprio Freud, seus anos de “esplêndida solidão” (1895-1895)? Pois foi o período no qual desenvolveu essa SEMIOLOGIA em um trabalho solitário e exaustivo. Provavelmente sem o saber, levava às últimas consequências os PRINCÍPIOS estabelecidos por Leibniz, mas sob alguma influência de W. Wundt que nele se inspirou . De minha parte, e parafraseando a juventude, sigo tentando ser sempre “De Raiz”, em um mundo cada vez mais atraído pelo “espírito NUTELLA”, tão premiado pela G. Mídia e a fama rápida que produz. Em outros tempos, lia-se na porta das loterias: “Só vale quem tem!” (dinheiro)! Já no nosso caso, e atingindo também as UNIVERSIDADES, muita gente pensa e age segundo outro lema: “Só vale quem tem…a cara na telinha”. Resta a quem tem aversão à mídia que nos enquadra, sem que apercebamos, seguir em sua crítica solitária. Há 2 Psicologias: uma que promove a autonomia das pessoas a partir de um progressivo autoconhecimento e outra (estudada no “CAMBRIDGE College” e aplicada pela G. Mídia) que tenta nos tornar massa amorfa atropelando CULTURAS e individualidades através da globalização.
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UM LONGO CAMINHO ATÉ O INCONSCIENTE DINÂMICO!!

“..A alma (a mente) faz muitas coisas sem saber como, especialmente quando as faz por meio de percepções confusas e inclinações (apetições) inconscientes…” (GW Leibniz, idem).
Desde a obra de Leibniz( que uma quase “Irmandade Kantiana” tudo fez para esconder), alguns pensadores abordaram o inconsciente. Os mais consequentes foram:
1- A. Schopenhauer, cuja obra principal partia do princípio de que somos movidos por forças da natureza delas fazendo apenas representações conscientes: “O Mundo como Vontade e Representação”**. Curioso é que Schopenhauer tenha poupado Kant e o absurdo na origem do conceito de “RAZÃO PURA”. Talvez temesse ser expulso da “Irmandade”. Mas é Nietzsche quem melhor fala de como tomamos decisões: “Intervêm motivos que desconhecemos ou conhecemos muito mal…a “luta dos motivos”, completamente invisível e inconsciente… sei o que faço, mas não o motivo que venceu…talvez não estejamos acostumados a considerar fenômenos inconscientes” (AURORA, F. Nietzsche, Aforisma 129 “A pretensa luta entre motivos”)
2- F. Nietzsche, cuja obra é toda ela marcada pelo ataque ao “Império da Razão”—que limitou o alcance da filosofia desde Platão (a exceção é M. de Montaigne)—e pelo resgate da ideia de que somos movidos por necessidades inconscientes: ; e ainda que os sentimentos estão na base de toda a “cadeia de atividade mental”: “Não somos batráquios pensantes; máquinas de gélidas entranhas. Devemos parir nossos pensamentos de forma dolorosa; dar-lhes maternalmente tudo o que temos de sangue, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade” (“A Gaia Ciência”, Prefácio).
Estabelecida a existência e o poder das forças inconscientes determinantes das condutas humanas, o passo seguinte foi a demonstração de não serem elas fortuitas, mas organizadas e com dinâmica própria. A descoberta da HIPNOSE exerceu papel importante nesse sentido: havia, sim, alguma organização nesse INCONSCIENTE que estava longe de ser caótico. Faltava estabelecer as correlações entre as duas instâncias (quase conexões consciente/inconsciente). Mas, para isso, era imprescindível a criação de uma…SEMIOLOGIA e esse trabalho foi realizado exclusivamente por Freud; através da auto observação, do estudo de conversas fortuitas com amigos e no acompanhamento de pacientes. Não por acaso, os primeiros anos das suas investigações foram dedicados ao estudo dos sonhos, chistes, atos falhos e outras formas de expressão do inconsciente no dia a dia, na maior parte das vezes indireta e através de SÍMBOLOS e outras expressões, cuja compreensão obrigava a interpretações***. O estudo das obras de arte e da mitologia também forneceu grande material, conferindo um enorme “glamour” aos seus trabalhos. A humanidade clamava por uma teoria que explicasse os estranhos fenômenos que vinham sendo tema de romances, contos e poemas de F. Dostoiévski, C. Baudelaire, G. de Maupassant, E. Allan Poe e outros. Freud a criou, aplicando aquela mente penetrante de que falou Leibniz ao defeder a continuidade das expressões humanas e a possibilidade do seu conhecimento. Conta-se que Leibniz dormia com suas anotações ao lado para anotar o que lhe ocorresse no sono ou ao despertar. E assim, o filósofo chamado impropriamente “Racionalista”****prestou uma grande homenagem à “não razão”, encontrando inspiração quase poética: “…as maravilhas dos sonhos, onde inventamos sem esforços e involuntariamente; alcançando coisas sobre as quais teríamos de pensar por muito tempo para encontrar no estado de vigília” (GW Leibniz: “Princípios da Natureza e da Graça”).
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*Chamei apercepções delirantes os fenômenos erroneamente denominados percepções delirantes. O ato perceptivo/aperceptivo apresenta 3 fases (segundo repetimos): sensação (determinada por estímulos físicos químicos), percepção (formação de imagens) e apercepção (compreensão e integração temática do percebido). A manifestação clínica se expressa somente na última fase do processo. K. Jaspers e K. Schneider teriam desprezado o conceito de apercepção por não apreciarem a obra de W. Wundt (inspirada em Leibniz). Os 2 psicopatólogos pertenciam à “irmandade kantiana” que fez “voto de silêncio” sobre a obra do pensador.
**Há problemas sérios com esse título, certamente influenciados pela inversão kantiana: o mundo dependeria da Razão e nãoo contrário. Schopenhauer trata, em verdade, do funcionamento da mente humana! Além disso, a palavra VONTADE também está em desacordo com o seu uso habitual em filosofia: implica processo, envolvendo avaliação, julgamento e tomada de decisões. Palavras como: necessidade, apetições, desejos expressariam bem melhor o conteúdo do livro.
***Outros aspectos fundamentais da teoria freudiana e seus métodos terapêuticos: sexualidade infantil, tendência à repetição do drama original (sob novas formas) e a TRANSFERÊNCIA, por exemplo, não estão aqui em discussão.
****Há aqui uma associação indevida com a obra de Descartes, esse sim, um racionalista extremado; ao ponto de eliminar toda a subjetividade na natureza (incluída na sua “res extensa”). Foi Leibniz quem demonstrou estar Descartes completamente errado; nos seus próprios termos, nas contas e até na Física ao demonstrar que a FORÇA (não “quantidade de movimento”) transmitida em um choque qualquer era determinada pela massa x movimento ao quadrado: mv2 e não mv como defendera Descartes em seu mundinho de 2 dimensões. Havia, nesse “ao quadrado”, uma força que escapava à compreensão da razão humana. E foi assim que Leibniz resgatou a METAFÍSICA, no seu “Discurso da Metafísica”, contraposto ao “do Método”.
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