KANT: EXILANDO A FILOSOFIA EM NOVA “REPÚBLICA” (PLATÃO)-I

(E a filosofia alemã chegara em grande estilo com G. W. LEIBNIZ!)

“CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA”, citações:

“A lei moral me revela uma vida independente da animalidade e também do mundo sensível…lei que não está limitada a esta vida…”

“A ideia da santidade do dever…proclamando o que se deve fazer…elevar-se acima do mundo sensível”

“…na…filosofia grega não se encontra uma teologia racional…aos antigos faltaram intelecto e perspicácia para se elevar a esta teologia (Traindo-se quanto ao seu próprio objetivo) 

“Para um ser racional, mas finito, só na observação da lei moral é possível o progresso ao infinito…dos graus inferiores aos superiores…para além desta vida

“O sumo bem é a finalidade suprema e necessária de uma vontade moralmente determinada.” (sumo bem, na “outra vida”)

“…esta ciência deve ser custodiada pela filosofia (teologia?), não devendo o público tomar parte em tão sutil investigação”. Última sentença do livro, revelando intenção doutrinária. Faltou a defesa de castas para repetir a “República” (Platão).

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Ter reunido “gregos e troianos”—cartesianos e discípulos de Newton—contra sua obra é já uma demonstração do alcance e poder de Leibniz (1644-1716). Acuados pelas demonstrações irrefutáveis do alemão (contrariando os fundamentos das obras de seus ícones), franceses e ingleses parecem ter louvado a “cortina de fumaça” levantada por I. Kant (1724-1804). Já a compreensão de suas ideias, talvez não tivesse tanta importância. Esconder LEIBNIZ era já um grande feito. Para isso, nada melhor do que “escapar para as nuvens” inventando uma quase religião com linguagem filosófica. Estava dada a senha para o IDEALISMO ALEMÃO! Os caminhos abertos por Leibniz, que abordara praticamente todos os temas em investigação no florescer da ciência—sempre procurando por PRINCÍPIOS, o que diferencia a filosofia—foram abandonados. A procura por princípios talvez seja o instrumento de aproximação entre ciência e filosofia, tão necessária, especialmente naquele período. Desde então, a filosofia e a investigação científica não mais “acertaram o passo”, a ponto de os ingleses afirmarem estar a filosofia morta (S. Hawking), como se seus instrumentos esgotassem os mistérios do mundo e da vida. Voltando a Kant, nada ilustra melhor seu abandono do “mundo sensível” do que a falsa polêmica em torno dos “Juízos sintéticos a priori”; apenas uma inversão das “Verdades de Razão” (Leibniz). Essas implicam um reconhecimento de limites à investigação empírica e à redução do universo a conceitos racionais. Haveria sempre um “para além”.    ………………………………

VERDADES DE RAZÃO (Leibniz) X JUÍZOS SINTÉTICOS “a priori” (Kant)!

Uma das mais importantes formulações de Leibniz foi a divisão das VERDADES, buscadas nas investigações filosófico-científicas, em “DE FATO” (carecendo de demonstrações empíricas) e “DE RAZÃO” (as que se impõem sem necessidade de demonstração). Essas últimas, quando alcançadas, precisariam ser apenas reafirmadas (especialmente nas relações humanas, acrescento eu). Abundam na geometria e na física: 1- a soma dos ângulos internos de um triângulo corresponde à soma de 2 ângulos retos; 2- os pontos de uma circunferência distam igualmente do centro; 3- dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Já nas relações humanas…que campo inexplorado! Eu mesmo tenho tratado algumas como tal, sem saber da sintonia com a proposição de LEIBNIZ: 1- Não existem raças superiores, apenas traços mais adaptados a certas condições: frio e calor; insolação e assim por diante.
2- A tortura NUNCA é justificável*. 3- Os DIREITOS HUMANOS, são simplesmente direitos indiscutíveis de TODOS os seres humanos. 

E por que seriam essas VERDADES DE RAZÃO? Porque sua simples discussão implica amesquinhamento, para dizer o mínimo. Aliás, estou convencido de que essas VERDADES estão até para além (ou para aquém) da RAZÃO, à qual restaria apenas sua formulação. A própria Razão há de quedar paralisada diante delas. Estariam como que impressas em nós; sem precisar de artifícios religiosos ou do recurso a deuses. Há, sim, VERDADES SAGRADAS, decorrentes da simples relação com o próximo**. Não são passíveis de relativização. Discuti-las implica uma violência contra a própria vida humana. Todos sabemos onde terminam discussões “muito racionais” desse tipo. Os nazistas, aliás, consideravam-se muito racionais e tentaram fundamentar seus juízos racistas.

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INVERTENDO TUDO…PERDENDO-SE NAS NUVENS!

E o que fez KANT? Contrariamente a Leibniz, que tomara um mundo existente fora de nós como ponto de partida, Kant partiu da própria MENTE como a referência principal criando os seus JUÍZOS ANALÍTICOS X SINTÉTICOS. Com isso, erguia uma barreira entre a filosofia e a investigação científica. O estudo da RAZÃO como “coisa em si”, fora do mundo (por definição) implicava atirar a filosofia à ALIENAÇÃO. Desde então aqueles que Leibniz acuara passaram a tratar essas discussões como “obscuridades alemães”. A filosofia alemã, que começara tão bem, perdeu-se em um contorcionismo que turvou todas as águas. Aplicando raciocínios que ninguém consegue acompanhar (arrisco-me a dizer) Kant defendeu a existência de juízos sintéticos “a priori”. Uma coisa é certa: duvido que alguém encontre um desdobramento interessante sequer dos tais juízos!

Outro recurso pouco honesto em filosofia é deformar ou ignorar a obra dos antecessores. Somos continuadores. Até a crítica pode ser uma homenagem (de Leibniz para J. Locke). Kant estudou detidamente a obra de Leibniz e seu esforço bem sucedido de resgatar a metafísica (ver seu “Discurso da Metafísica”) abalada por Descartes. Havia, sim, algo para a além da mera Extensão e Forma e Leibniz o demonstrou (ver texto neste blog). Falando sobre o resgate da metafísica, disse Kant: “Desde as tentativas de Locke e Leibniz…” (“Prolegômenos”). Era uma misturada inaceitável. Os dois partiam de pontos de vista opostos. Mas há uma referência poética em sua obra:  “Acabamos por amar o que estudamos…Leibniz, depois de estudar cuidadosamente um inseto, recolocou-o na folha em que o encontrara…o inseto era credor de sua gratidão!” (“Crítica da Razão Prática”). Esse corte em relação à filosofia anterior era outra indicação de que Kant julgava estar fazendo algo totalmente novo: encobrir a religião com linguagem e “vestes” filosóficas (ver próximo texto)! G. Hegel (1770-1831) levaria esse esforço ao extremo. 

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ESTÉTICA TRANSCENDENTAL!? APENAS COMO INTEGRAMOS O MUNDO!

Há que traduzir a pomposa expressão, consagrada, apesar da incompreensão generalizada: “Aestetics” aqui não se refere ao BELO, como faz pensar o original. O significado é prosaico: apenas a sensibilidade. Com esse truque, porém, Kant: 1-“bypassou” outro conceito essencial na obra de Leibniz, a APERCEPÇÃO (ver abaixo); 2- reduziu tudo à mais comezinha passividade (meras sensações: reações físico-químicas nos órgãos dos sentidos); 3- criou uma aura de algo “superior, para além da compreensão”. Já o termo “Transcendental”, estaria mais para fantasmagoria e/ou religião. Não é de admirar que tudo isso tenha desembocado na ideia da existência de uma “RAZÃO PURA”. Nem os líderes cristãos de hoje consideram mais essa possibilidade! Eu que já admirei o pensador de Könisberg, hoje sei que foi um pregador religioso disfarçado. A descoberta da obra de LEIBNIZ fez ruir por terra a pregação de pureza e perfeição de Kant; uma TEOLOGIA RACIONAL! Afinal, tudo o que discutimos é apenas “Humano…demasiadamente humano”.

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VAMOS À APERCEPÇÃO LEIBNIZIANA!

O estudo dos processos pelos quais tomamos contato e integramos o mundo (à nossa volta e dentro de nós), tinha sido um dos maiores esforços de Leibniz. Assim, desenvolveu ele o conceito de APERCEPÇÃO (para além da mera PERCEPÇÃO) que teria DUAS vertentes, ambas privilegiando a ATIVIDADE em vez da passividade. Com refinada argumentação, destronou os empiristas ingleses, para os quais tudo o que se encontra na mente teria passado pelos órgãos dos sentidos; seríamos uma “tábula rasa” ao nascer*** (impossível imaginar passividade maior). Segundo Leibniz, as duas vertentes para integração das experiências seriam: 1- voltada para o mundo exterior – estamos submetidos, em um mesmo momento, a incontáveis percepções (mais ou menos vagas ou claras) em um amplo campo perceptivo, mas somente de uma parte delas nos apercebemos. De novo, o filósofo partia da existência de um mundo exterior do qual como que “tomamos posse” através das representações; individualizadas, seletivas e nada passivas. 2- voltada para o que se passa em nós mesmos. Essa vertente, com seu estímulo à auto observação, era totalmente nova como método e anunciava a investigação psicológica****. Quantas investigações dela podem derivar! No sono e sonho, por exemplo, as apercepções cessam. Já a capacidade perceptiva continua, apenas um tanto amortecida. Sem isso, um ruído não nos despertaria. Os sonhos seriam, então, o resultado de construções a partir de apercepções anteriores e percepções (parciais) durante o sono. Envolveria ainda imaginação e provavelmente a expressão simbólica de conflitos. Talvez modificações de apercepções anteriores (representações). Sua relação com as artes e a criatividade em geral, inclusive na ciência está demonstrada. Há pelo menos 2 casos de problemas fundamentais na ciência resolvidos durante o sono. Ver “O Sonho de Kekulé”, quando formulou o ciclo benzeno: “De repente, uma das cobras mordeu a sua própria cauda…(traduzindo o simbolismo)…a disposição dos átomos na molécula do benzeno seria semelhante…um ciclo de forma hexagonal. Mas vejam também Mendeleiev, cuja tabela periódica foi organizada durante o sono. Tantos caminhos de investigação e quanta valorização do que foi chamado inconsciente! Para os cartesianos, apologistas da razão, tudo isso devia soar como sacrilégio!

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LEIBNIZ: DUAS PÁGINAS DE FINO HUMOR PARA DESCARTAR DESCARTES!

Segundo Descartes (“Discurso do Método”), o simples pensar em algo implicaria sua existência. Apenas mais uma expressão do seu desprezo pelos órgãos dos sentidos, como prova da existência das coisas fora de nós. Essa entronização da Razão precisava ser desmistificada, se possível com humor. Foi o que fez Leibniz, aplicando uma ironia pouco comum em filosofia (“Novos Ensaios” III-XI, os grifos na ironia são meus): “…as ideias que podemos ter das coisas não provam sua existência…não acredito que alguém possa ser seriamente tão cético a ponto de não ter certeza da existência das coisas que vê e sente...No mínimo, quem é capaz de levar suas dúvidas tão longe nunca discutirá comigo, pois jamais poderá estar certo de que eu tenha dito algo contra a sua opinião…Também os nossos sentidos podem dar testemunho uns aos outros. Aquele que vê o fogo pode senti-lo…Seria uma loucura esperar demonstração sobre cada coisa e só agir segundo verdades claras e evidentes…Quem quisesse fazer tal uso (da Razão) não conseguiria ter certeza sobre nada, exceto de que haveria de morrer em tempo muito breve”. Ou seja, os excessos de razão são incompatíveis com a vida: “A Árvore da vida não é a mesma árvore da razão” (Byron).

“Pretender que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda possibilidade de vida. (L. Tolstói “Guerra e Paz”, Epílogo)

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*O norte-americanos têm um critério “moral” bem curioso: a tortura é proibida no “solo sagrado da AMÉRICA”. Já seus filhos, quando “a serviço da pátria”, podem perpetrá-la sem limitações nos locais ocupados: Iraque, Afeganistão, “navios-prisão”, bases pelo mundo afora. Há nisso um parentesco hipócrita com o “Deutschland über Alles”.

**Pascal tem uma bela passagem nos seus “Pensamentos” quando identifica na valorização do PRÓXIMO uma superioridade. Afinal, “em nome de Deus” se cometeram tantos crimes contra…o próximo.

***Esse tipo de formulação oferecia respaldo a todo tipo de tortura nos sistemas educacionais europeus. Partindo do DESRESPEITO às individualidades, tudo se pode esperar! A tortura era regra nas escolas prussianas. 

****”A circunspecção é a virtude de todas as virtudes” (Nietzsche, “O Caminhante e sua Sombra”). Funciona à maneira da digestão: somente a partir da reflexão posterior, nossas experiências passariam a ser efetivamente nossas.

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