O CAMPUS E A ENCOMENDA-I

PEÇA EM 2 ATOS!
AUTOR AINDA ANÔNIMO
PRIMEIRO ATO
……………………….
PERSONAGENS:
1-“Prof. Ferdinando” (PF): homem de meia idade, baixo e careca.
2-“Prof. Valente” (PV): homem de “idade inteira”, mas que não perdeu trejeitos de galã.
3- D. Ondina (DO): mulher já não tão jovem; óculos de “fundo de garrafa”.
4- “O CHEFE”: homem 40 anos, muito fino…talvez polido como um punhal.
5- Mr Ollislye- americano alto, magro e empertigado
6- Secretária: atrás de uma mesa. Pequenas falas! Funcionando quase como o CORO!
……………………….
CENA I: Sala de espera do BANCO “BN…DESCE & FEITOR”. Placa na parede em frente. Um chicote (&) é o símbolo dos bancos e fica no meio das palavras (lembrar o papel dos FEITORES de escravos e seu chicote). Os 3 primeiros sentados (os homens de terno), conversando e fazendo os trejeitos de quem fala baixo. Todos ouvem…inclusive a secretária.
……………………….
Pr Ferdinando—-Vocês têm que me ajudar a convencer esses “CARAS” (apontando meio assustado, para a porta do gabinete) a não mexerem com o IBUB…OPUB ….ABUB…como é que é mesmo?!
PV-— IPUB…Ferdinando…I..PU…B…quantas vezes vou ter que repetir?
PF-–Tá bom…tá bom…Eu sei! Eu vou dizer…e vocês têm que confirmar! Já tentamos tirar as viaturas deles…não funcionou! Proibimos obras por lá…não adiantou. Tivemos que recuar! Tava sem contrato prá limpeza no Campus e eles estão lá limpando…Não tem jeito, não dá prá “lateralizar” aquela gente lá. É mais fácil eles botarem a gente prá escanteio, não é mesmo Ondina?
DO- Não sei…não sei! (modos professorais e caricaturais, fazendo biquinho e se dirigindo à platéia). Só sei que nós SÓ vamos fazer alguma coisa quando tivermos certeza de que TODOS vão se beneficiar! (Desmontando o personagem). O problema é que eles não acreditam mais em mim…e eu não sei porque. MAS QUE GENTE! Assim, como é que eu vou entregar a ENCOMENDA?
PF– Mas Ondina…é só isso o que você repete e repete… Tudo já tá muito diferente, desde que o pessoal do IBUB…ABUB … OPUB….
PV– IPUB, Ferdinando…I…PU…B…(falando para o alto). Não aguento mais ter que ficar repetindo essas letras… EU VOU ACABAR FICANDO LOUCO!!!
(LEMBRAR DA SECRETÁRIA E SUAS EXPRESSÕES)
PF-Mas…voltando à “Vaca pro brejo”…
PV-Não, Ferdinando! É “Voltando à VACA FRIA”…Tá certo que a VACA já tá indo pro brejo, mas não precisa antecipar, não é mesmo?
PF-Então…Voltando à Vaca fria……por falar nisso, tá ficando muito frio…! (voltando-se de forma um tanto autoritária para a secretária) Dá prá abaixar o AR?…ou subir o AR…sei lá…ando meio confuso? Só sei que tá ficando muito frio! Mas…voltando à V…V…V…..
PV- Chega dessa coisa de Vaca, Ferdinando, segue em frente. Vamos ver se conseguimos voltar pro tempo das “Vacas Gordas…” quando todos concordavam só pensavam em ganhar um pedacinho do que ia sobrar…(devaneando, cantando bem baixinho e olhando para o céu) …Tempo bom…Não volta mais..!.”
PF- Tudo bem…! Pois bem! “ELES” (apontando de novo para a porta) precisam ir lá no ABUB…(olhando meio assustado para PV e se corrigindo)…IPUB… I…PU…B…viu só como aprendi…Rá rá rá? Agora vai! Pois bem…Indo lá no I…BU…B.. (muitas expressões de raiva, mas sem palavras) …”ELES” vão ver que essa coisa de “lateralizar” só dá prá fazer com CONTAINERS!…Com gente e árvores…Não dá! Será que “ELES” não entendem, meu Deus (olhando prá cima)!…Prá que que eu fui me meter nessa?! Esses caras ficam aqui, nessa vida sem graça! ..Parece até que já nasceram meio “lateralizados” em blocos de concreto..!!
PV-– Pera lá Ferdinando! Daqui a pouco vão pensar que você passou pro outro lado!…Quer dizer…Voltou..pro seu lado…! Ou passou prá um terceiro lado..Já nem sei mais nada dessa história de lado! E os muros! Tanta gente em cima deles! Nem sei mais qual é o meu lado! Deixa prá lá.! Assim, vamos escorregar e cair do lado errado, não é mesmo Ondina?
DO– Não sei…Não sei…só sei que nada vai ser feito sem que TODOS se beneficiem…A CIDADE também não vai ser prejudicada…os prédios que vamos construir não vão passar de 60 m…nada demais….Eu sei..eu sei que a LEI diz só 20 ms, mas….! Acreditem…! Podem acreditar…EU estou falando! Depois de entregar a encomenda, todos ficarão numa situação melhor e vão nos agradecer! EU GARANTO! É só uma Leizinha ESPECIAL!
SECRETÁRIA– Desculpem, mas…..posso fazer uma perguntinha?
TODOS—SIM!!!
SECRETÁRIA— Essas construções seriam ali perto da R. Loura Mahler, né?
TODOS—SIM!!!
SECRETÁRIA—Olhem…minha irmã mudou prá lá há pouco tempo, ganhou neném e tá tão feliz! As pessoas se conhecem…Eu também gosto muito de lá! Mas o que eu estranhei mesmo foi essa tal de LEI ESPECIAL. Digam: uma LEI é prá proibir, impedir alguma coisa, não é mesmo? (TODOS: ÉÉÉ). Então, essa coisa de “LEI ESPECIAL” soa meio estranho, não é mesmo? (ÉÉÉ!). Parece até uma esperteza prá enganar trouxa…Coisa de traíra, né? (TODOS: NÃÃÃO!)
SECRETÁRIA— E aquele ditado!…Não tem aquele ditado, acho que em latim, que diz que se a lei é dura, então é porque é LEI MESMO!?
PF (passando a mão em um topete imaginário)— “DURA LEX…SED LEX”! No cabelo…só GUMEX!”.
DO (como que despertando)- Cabelos…cabelos…Ei..Ei..Vs se lembram da minha voz? Continua a mesma, mas os cabelos dos novos estudantes (colocando uma peruca blackpower), quanta diferença! É só andar nos corredores e olhar. As cores que você vê…as roupas que você vê….os cabelos que v. vê…Quanta diferença de quando os alunos eram todos só branquinhos e riquinhos! Temos que cuidar deles..tadinhos!
OS DOIS (se levantando, ajudando DO a se sentar e falando para a secretária)- A Sra não repara não. Ela agora deu prá isso. De vez em quando parece que entra um fita gravada…e até de outros tempos!
SECRETÁRIA (em off): Tudo bem….Já conheço a peça! Mas…voltando à vaca fria (deboche) e ao Dura Lex… Já entendi tudo! Se querem amolecer uma LEI prá ficar “ESPECIAL”, só pode ser pro mal! E ainda deve ter gente que ouve isso e fica se achando muito ESPECIAL…!
PV-– Tá vendo, Ondina! Essas coisas que você fica dizendo por aí só fazem atrapalhar! Quem vai engolir essa de LEI ESPECIAL?! Eu não aguento mais ouvir você repetindo essas coisas!Você já disse isso milhões de vezes! Parece um papagaio!
DO-– É que…fiquei decorando…decorando…Já falei isso 27 vezes…sabe lá o que é isso? Agora não consigo dizer outra coisa. É automático. Acho até que tô ficando meio doida…vou acabar lá no ABUB… IBUB…APUB…sei lá!
PF-Para Ondina! Para! Essa fala é minha e ninguém tasca! Não invada meu espaço.Não gosto que invadam o espaço dos outros…OUVIU BEM! O ESPAÇO É SAGRADO… Tem que respeitar…! (SONS DE TEMPESTADE; todos tentam segurar o teto! Até ele mesmo se surpreende com as próprias palavras….silêncio súbito, todos caindo em si!… Perplexidade geral…expressões de surpresa!).
DO—E o TCU, gente! Vocês se esqueceram do TCU? Eles ameaçaram a Universidade toda! Vão tirar tudo…
PV—ONDINA…! Não faz marola..! Ninguém mais tem esse medo todo do TCU! Essa coisa automática, já era: TCU…tem medo! (com as 2 mãos para um lado e para o outro) Não é mais assim, Ondina… TCU…Tem medo! (os 2 param subitamente, fazem expressão de espanto e colocam a mão na boca se admirando com o duplo sentido).
DO—E o CARNEGÃO, meus amigos!? Eles disseram que iam tirar o Carnegão da universidade!
PV—Que CARNEGÃO!!! Que história é essa Ondina! ? Essa foi demais! AH…! Se fosse um carnegão, até que seria bão, mas…! Bem… pensando bem, a gente até que usou ele assim mesmo. No princípio era só um tumorzinho que a gente ia resolver: o ‘problema do CARNEGÃO…’! (Meu Deus…até eu dizendo isso!)…Bem… Íamos tirar só o carnegão …de leve… com anestesia…mas foi crescendo…crescendo, ninguém reclamou… e a gente quase tomou tudo. Mas… perder o CARNEGÃO…é demais Ondina, não repita isso, por favor!
PF—A ideia de chamar isso tudo de “VIVA…..” até que foi boa! As pessoas nem reparam e vão associando à vida, à salvação…Mas é uma faca de dois gumes…..
DO–…Ou de dois LEGUMES, como diz o povo…(os 3 riem debochados e sem graça nenhuma, enquanto a secretária olha pro alto e balança a cabeça)
PF—…É, mas quando as pessoas caem em si e vêm que foram enganadas, ficam furiosas…!
A Secretária se levanta de repente!….Faz-se um SÚBITO SILÊNCIO…Ela mesma se espanta com sua autoridade e fala baixinho, com modos caricaturais…”Calma gente! Posso mudar um pouco essa prosa que tá muito pesada….e fazer uma perguntinha? Talvez vocês possam me ajudar…”
OS TRÊS- SIM!
SECRETÁRIA: O CHEFE me deixou uma tarefa urgente e eu não sei o que fazer…(Tira um bilhete e começa a ler): “Verificar com urgência de quem foi a ideia de dar o nome de NATALÍCIO PEIXEIRA à TRAVESSA que conseguimos atravessar no meio do CAMPUS PV!”.
É assim…esses chefes acham que a gente tem que saber de tudo e na hora! Já procurei e ninguém sabe sequer quem foi esse cara! Algum de vocês tem ideia do que seja isso, de quem seja essa pessoa?
PV (não perdendo a oportunidade de se exibir com ar professoral)— Bem…(pausa um pouco demorada, desmontando o personagem em seguida) …ninguém tem a mínima ideia. Foi coisa daquela gente lá da Prefeitura…sabe os “mortos vivos” tomaram conta de lá?…Uma gente que quer vela! Deve ter sido um deles que morreu por aí! Essa coisa do nome da Travessa acabou comigo! Tínhamos dividido…cortado mesmo o Campus exatamente no meio… começamos a atiçar um lado contra o outro…E vieram com esse tal de NATALÍCIO…! Era humilhação demais prá eles aceitarem! A travessa ficou atravessada! Eu sei…eu sei… Eles vinham engolindo tudo com aquela nossa conversinha mole do “aluno pobre” …não é Ondina?
PF— É mesmo! Aqueles bobos parece que fizeram “VOTO DE POBREZA” …É só falar dos pobrezinhos …que eles tiram até a roupa do corpo…Resultado…os pobres continuam pobres e eles…PELADOS E COM FRIO….! RÁ…RÁ…RÁ….mas não espalha isso não.. hem!
DO— E a pegadinha! Esse nome parecia até uma pegadinha! Sabiam que tem 2 travessas com esse nome? Uma aqui e outra lá na …ROCINHA…Vocês acreditam nisso!? Tão tentando jogar as pessoas no meio do tiroteio? Parece até maldade…! Um NATALÍCIO já era demais…2… só SATANÁS!
SECRETÁRIA— (depois de reflexão profunda)—Acho que descobri quem é esse tal de NATALÍCIO! (Silêncio total e agora é ela quem adota um ar professoral)...Olhem bem e acompanhem o meu raciocínio: 1- Ele se chama NATALÍCIO…não é mesmo? HUUUUMMM; 2- Existem 2 travessas: uma pobre e outra mais rica, não é mesmo? Pois bem: lembram do “Seja rico…ou seja pobre…? “E do sapatinho na janela do quintal?’ NATALÍCIO É O FILHO DO PAPAI NOEL! (Cantando e todos se balançando) “Seja rico ou seja pobre, NATALÍCIO sempre vem…Botei meu sapatinho”… Agora…é só no sapatinho…! (dançando o miudinho)
PV (levantando-se e se dirigindo à secretária com ares de conquistador)–Posso saber o seu nome? A Sra é tão….mas tão….!
SECRETÁRIA––Lúcida da Graça!
PV- Isso mesmo, a Sra. é tão LÚCIDA! E ainda faz piadas! Como diz o povo: “LUCIDINHA DA SILVA” e ainda da GRAÇA!”. rá ra rá…Mas…e o seu nome mesmo…posso saber?
SECRETÁRIA-–(meio ofendida) Vou dizer o nome todo: LÚ…CI…DA DA GRA…ÇA CONS…TAN…TE
PV-—É mesmo…?! Mas seu pai era um profeta. E como ele se chama?
SECRETÁRIA—NOS…TRA…DA…MUS DA LUZ CONS…TAN…TE!
PV— Quer dizer, então, que seu avô já era um profeta! Bem que alguém já disse: UM NOME É MUITO MAIS DO QUE APENAS UM NOME…É UM DESTINO!…não é Ondina (com deboche)?! E como é bom se chamar VALENTE! Com esse nome…(apontando para os 2 discretamente) e tendo que carregar essas malas …Preciso mesmo de um coração cada dia mais VALENTE! (com a mão no peito ao estilo patriótico).
……………………….
LUZ OFUSCANTE! SOM ESTRIDENTE!
Os outros 2 se levantam incontinentes e meio amedrontados…Mas quem mais treme é o VALENTE! Põe a mão no coração, depois toma o próprio pulso assustado. Senta-se com as pernas abertas e fica arfando, enquanto os outros o abanam!
Secretária–É o chefe e acho que ele não tá de muito bom humor! (saboreando atiçar medo nos demais).
Os 3 ficam apreensivos; ajeitam-se demoradamente e se preparam. Quando estão prestes a entrar, a Secretária não resiste.
Secretária—“Desculpem…esperem um pouco! Fiquei curiosa…O que é mesmo esse tal de IBUB…ABUB… OPUB…E por que brigam tanto só por um… PUB (pronúncia bem britânica e com movimento de mão)? Afinal…Tem tanto inferninho por aí. Mas, digam… como é que se chama mesmo esse tal PUB? AHHH! Minha Cultura Inglesa…Eu sabia que isso, um dia, ia servir prá alguma coisa…!!!
PF- Ah! Deixa prá lá…É um hospital que só tem malucos…E malucos dos 2 lados da mesa…Rá, Rá Rá (gargalhando, mas só ele mesmo ri da piada, envergonha-se e se cala)..Bem …fica ali na URCA. E por falar em inferninho….estão infernizando a vida da gente!
Secretária—(depois de debochar com expressões ao ouvir a história dos malucos)—AH! Sim…eu sei! LÁ… só tem maluco…Dá prá imaginar! (pega seu celular e envia uma mensagem ao CHEFE)
A PORTA SE ABRE
FIM do PRIMEIRO ATO