’BIG-BANG’ A PARTIR DO NADA?!…DE VOLTA À CRIAÇÃO-II
(Fico com a “Harmonia pré-estabelecida” de Leibniz e o “Nada se cria…” de Lavoisier)

NOTA: Newton parece ter sido daqueles que exigiam submissão intelectual total. Vejam a “correção” que John Locke fez em sua própria obra para agradar ao líder: “Reconheço haver dito que o corpo opera por impulsão e não de outra forma…ainda hoje não consigo conceber outra maneira de ação. Entretanto, depois disto convenci-me, pelo livro incomparável do judicioso Sr Newton, que seria muita presunção querer limitar o poder de Deus…A gravitação da matéria rumo à matéria, por caminhos que não compreendo, é não somente uma demonstração de que Deus pode, quando lhe aprouver, colocar nos corpos poderes e maneiras de agir que estão acima do que se pode deduzir da nossa ideia de corpo…Eis por que cuidarei que essa passagem seja revista” (Citado por Leibniz em “NOVOS ENSAIOS”). Mais do que uma retratação, aquele “Reconheço” soa como confissão diante de um tribunal de INQUISIÇÃO. Lembrou o recuo de Galileu quanto ao movimento da Terra em volta do sol. Newton* foi ali tratado como porta-voz de Deus na Terra. Além disso, se o Geocentrismo se foi, a crença na gravidade continua.
O “Big Bang” (a partir do NADA) cada vez mais se parece com o “E Deus disse: Faça-se a Luz!”. Uma CRIAÇÃO: é como os cientistas midiáticos tratam o “big-bang”. Parecem não se dar conta de que, com isso, aproximam-se perigosamente do: “…No princípio, Deus criou os céus e a Terra; a terra estava sem forma e vazia“. Mesmo também partindo da criação, na “Harmonia pré-estabelecida” (Leibniz) Deus e o universo simplesmente sempre estiveram aí, inseparáveis. Já sobre o NADA, não valia a pena refletir. Com Lavoisier, sua formulação ganharia novos e interessantes contornos: “Na natureza nada se cria e nada se perde; tudo se transforma”. Eis um grande PRINCÍPIO (bom de se trabalhar): haveria um constante de energia/matéria no universo; um equilíbrio. Com isso, descartavam-se milagres e eventos sem causas demonstráveis. E como os ingleses protestaram contra a formulação do alemão! Vejam um discípulo de Newton (Clarke): “…Se um rei tivesse um reino onde tudo ocorresse sem que ele ordenasse…seria um reino apenas nominal”. Não abriam mão de um rei…quer dizer, de um Deus, presente e atuante. Difícil seria a certeza quanto ao que esse Deus desejava dos homens. Na dúvida, que Newton fosse coroado.
………………………………….
ÁTOMOS “BOLINHAS DURAS” “vs” TRANSIÇÃO MATÉRIA-ENERGIA
Quase todos acham que é de Einstein a ideia de que matéria e energia são intercambiáveis, dependendo de certas condições. Pois bem, o PRINCÍPIO estava esboçado havia 200 anos! Vejam Leibniz criticando os EMPIRISTAS ingleses:
“Nosso eminente autor (J. Locke) crê que a dureza das pequenas partes perfaz a essência do corpo…(contrariamente) Deve-se conceber o espaço como pleno de uma matéria originalmente fluida, susceptível a todas as divisões e subdivisões até o infinito…de maneira desigual em lugares diferentes…tendo, por isso e em toda parte, um grau de dureza e, ao mesmo tempo, fluidez…não há átomo de dureza insuperável, nem qualquer massa indiferente à divisão”. (“Novos Ensaios”-PREFÁCIO). E ainda respondendo a Clarke:
“Não admito porções perfeitamente sólidas na matéria…cada porção de matéria é subdividida em partes dotadas de seus próprios movimentos e nenhuma se parece inteiramente com outra… verdadeiras mônadas, que não têm partes nem extensão. Os corpos simples (as supostas “bolinhas duras”) são consequência da falsa crença no vácuo e nos átomos (indivisíveis, de Epicuro); resultado da filosofia preguiçosa…que imagina poder chegar aos primeiros elementos corporais da natureza”.
………………………………….
UM DEUS (MAU) “RELOJOEIRO” “VS” A “HARMONIA PRÉ-ESTABELECIDA”
Certos princípios de LEIBNIZ só entendemos a partir da referência histórica e do esforço de contraposição aos conceitos capengas dos ingleses. Esse é o mais típico deles. Os ingleses queriam porque queriam ver a mão (milagrosa e arbitrária) de Deus no cotidiano das sociedades: como um relojoeiro que tivesse sempre que ajustar e dar corda no relógio criado; um Deus que não atuasse no cotidiano seria como se não existisse. Daí aos milagres, uma linha direta: “…Se um rei tivesse um reino onde tudo ocorresse sem que ele ordenasse…seria um reino apenas nominal e ele não mereceria o título de rei ou governante…os que pretendem que…as coisas podem andar perfeitamente bem sem que o rei intervenha…não se importariam de ficar sem rei…uma doutrina que tende a banir Deus do mundo” (de Clarke para Leibniz). Essa concepção de Deus visava justificar o poder supremo de certos homens na Terra. Falam de Deus, mas agem em função de um “Ídolo da Tribo”. Seu porta-voz? Newton!
………………………………….
Quanta diferença em relação à concepção de Leibniz:
“…não é arbitrado a Deus dar indiferentemente às substâncias estas ou aquelas qualidades; ele não lhes dará jamais outras que não sejam as que lhes pertencem naturalmente, isto é, as que podem ser derivadas da sua natureza como modificações explicáveis. Assim, podemos pensar que a matéria não terá naturalmente a atração mencionada acima…pois não é possível conceber como isto possa acontecer…Esta distinção entre o que é natural e explicável e o que é inexplicável e miraculoso elimina as dificuldades: se a rejeitássemos… renunciaríamos à filosofia e à razão, abrindo asilos da ignorância e da preguiça…existiriam qualidades que o espírito…não poderia compreender: seriam milagrosas, sem rima e sem razão… esta hipótese (gravidade) destruiria igualmente a filosofia, que procura por razões”.
………………………………….
E A GRAVIDADE…UM DIA TAMBÉM VAI CAIR!!
A última de um inglês (Penrose, NOBEL de Física) foi afirmar, com seu “PRINCÍPIO DA SINGULARIDADE”, que as leis da física não se aplicam ao Cosmo, especialmente aos “buracos negros” (mais um “ídolo da tribo”?):
“R. Penrose partiu do entendimento de que existem certos pontos, ou condições do espaço-tempo, onde a física para de funcionar. Lá toda a massa é acumulada, então a densidade é infinita. Nesse ponto, as equações da física não funcionam” (BBC NEWS, BRAZIL: “O QUE É A SINGULARIDADE). Ou seja,”entregaram na mão de Deus” sem sequer a humildade de dizer: os novos dados nos obrigam a rever tudo. Parecem querer salvar a gravidade de Newton, mas também evitar a vergonha de admitir um erro repetido há mais de 200 anos.
………………………………….
UMA OUTRA HIPÓTESE (pode estar errada, mas não foge do problema apelando ao ACASO ou o CAOS):
1- Troquemos a atração (“gravitacional”) por uma permanente e generalizada REPULSÃO no Cosmo;
2- Em consequência, o ente que deixasse de exercer a sua própria pressão sobre os demais teria todos os vetores das forças circundantes voltados na sua direção**;
3- LOGO, ocorreria um se espremer generalizado dirigido àquele ponto em busca de novo equilíbrio;
4- Em consequência, apareceriam os “buracos negros” onde: “toda a massa é acumulada em uma densidade infinita”. Nada mais do que o lento colapso de uma galáxia e sua incapacidade progressiva em resistir à pressão de outras galáxias.
Tiremos Newton da equação (por um momento, pelo menos) e talvez tudo se resolva. A gravidade de Newton cada vez mais se parece com o geocentrismo de Ptolomeu: serviu para explicar a maioria dos fenômenos do Cosmo por séculos, até que Copérnico o abalou e Galileu o derrubou. O mínimo esperado de uma hipótese é que tenha coerência interna e esse parece ser o caso. Se responde aos fatos (sem apelar para o imponderável ou milagres) é algo a ser testado pelos físicos.
………………………………….
E QUE FORÇA DE REPULSÃO SERIA ESSA?“
…é uma estranha ficção imaginar toda matéria tendendo a uma outra qualquer, como se todo corpo atraísse igualmente outros corpos… por uma atração que não deriva de um impulso oculto dos corpos…O peso dos corpos ao centro da Terra deve ser produzido pelo movimento de algum fluido…(Quinta Carta a Clarke).
………………………………….
Tentando avançar na compreensão de todo o processo e pensando nesse FLUIDO (ainda não identificado e medido):
1- da repulsão generalizada resultaria (para os astros) uma proteção contra o permanente “bombardeio cósmico”, que se pode observar e que tanto tememos na Terra;
2- tendo um corpo vencido a barreira da atmosfera (como um “dardo que ultrapassou um escudo”) ele tenderia a seguir seu curso em direção ao centro da Terra (caso não sofra outros efeitos no caminho);
3- internamente, no próprio “Sistema Terra”, a mesma força cósmica (“fluido” para o qual não há barreiras e “escudos”) também atuaria intensamente, como que empurrando (não atraindo) todos os corpos em direção ao centro da Terra (mal identificada como “atração gravitacional”). Mas a pergunta pergunta que resolveria tudo isso continua sem resposta: que força cósmica seria essa? Seria mensurável?
De minha parte, termino como comecei: só me aventurei nessas considerações a partir dos convincentes PRINCÍPIOS formulados por Leibniz. E se são PRINCÍPIOS, deles não podemos fugir sob o risco (quase certeza) da derrubada do próprio espírito científico e de investigação. Por ora, fiquemos com a sua observação (tão humilde no seu “deve ser”): “…O peso dos corpos ao centro da Terra deve ser produzido pelo movimento de algum fluido…(Leibniz em carta escrita poucos semanas antes de morrer).
………………FIM……………..
*Um dos seguidores de Newton acusou Leibniz (sem fundamento) de plágio no desenvolvimento do Cálculo Infinitesimal. Os dois seguiram caminhos diversos até o cálculo e o método de Leibniz foi consagrado pelo uso generalizado. O alemão fez uma representação à “Royal Society” que Newton não apresentou aos seus demais membros, emitindo ele mesmo um parecer; contrário a Leibniz, como era de se esperar.
**É o que ocorre com uma bexiga (balão ou pneu) ao ser enchida até a explosão. No princípio as forças se distribuem de maneira semelhante. Na sequência, algum ponto (de maior fragilidade) se esgarça, atraindo todos os vetores. Cria-se uma bolha até a explosão (naquele mesmo ponto). Mas os ingleses devem achar tudo isso prosaico demais; não de acordo com a pompa com que tudo adoram revestir.