QUINTANA: UM TANGO PARA UM SONETO!

(Tentando decifrar a linguagem musical/poética, para além da racionalidade)

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NOTA: Nada do que segue foi planejado. O que expressei em melodia estava já em cada verso do poema e na atmosfera que só Quintana consegue criar! Há, certamente, inúmeras outras possibilidades e caminhos para a inspiração musical. Uma possível SINTONIA não implica juízo de qualidade sobre o resultado musical, mas pode ser um bom exercício para compreensão da LINGUAGEM MUSICAL (“linguagem da coisa em si”: Schopenhauer): em função da expressão do que há de mais profundo e verdadeiro em nós. Os sentimentos provocados pela atmosfera vão pareados com a numeração dos versos correspondentes. Há de facilitar a avaliação. Segue apenas para registro, sem acompanhamento. 

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SONETO XII DE “RUA DOS CATAVENTOS”

Tudo tão vago… Sei que havia um rio… (1 e 2: estranhamento, entrecortado, apreensão)

Um choro aflito… Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto        
(3 e 4: embarque no acalanto; continuidade..)
O choro pouco a pouco se extinguiu…
…..………..

O Menino dormia… Mas o canto     (5: novo estranhamento, alguma apreensão)

Natural como as águas prosseguiu… (6, 7 e 8: novo embarque…o canto…as águas…)

E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…

…..………

E era a voz que eu ouvi em pequenino… (9-11: Tudo clareia pelas líricas associações:

E era Maria, junto à correnteza,                Mãe, Maria, Jesus e a Amada Morta)
Lavando as roupas de Jesus Menino…
……………
Eras tu… que ao me ver neste abandono,
  
(12: Clímax, afirmação da vida, APOTEOSE)
Daí do Céu cantavas com certeza

Para embalar inda uma vez meu sono!…(14: pós-APOTEOSE, do acalanto ao sono…)

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A inspiração para a canção me veio enquanto ouvia “OBLIVION” (“Esqueço”) de A. Piazzolla na performance impressionante de Yamandu Costa e Richard Galliano. Lembrei-me do poema, como que congelei e, depois de um tempo fui buscar o “meu Quintana”! Havia uma afinidade enorme (na ressonância em mim, pelo menos). As atmosferas são tão similares que logo me veio a exclamação do primeiro verso em melodia. O que fazer? Tentar fazer com que o poema “coubesse” em uma execução instrumental prévia? NÃO! Resposta: Ouvir…ouvir…ouvir… a gravação de maneira incontável até ficar pleno do seu espírito (VER ABAIXO). Logo uma melodia foi brotando muito impregnada da original, mas com autonomia, julgo eu. Não consigo imaginar algum acompanhamento sem o espírito daquela gravação. Plágio? Não creio. Um certo paralelismo (sem comparações de nível)…!? Sem dúvida…inclusive na temática. Se me fosse dado escolher apenas UM poema de Quintana para me acompanhar à eternidade, seria esse.

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“OBLIVION”: MÚSICA, POEMA E FILME!
“Oblivion” foi tema de filme e a origem da sua letra é um tanto obscura. Seu original, apresentado em francês, tem afinidades surpreendentes para com o soneto de Quintana. Quintana INICIA por“Tudo tão vago…”, enquanto nos versos de “Oblivion” podemos ler: “Tout devient flou” (“Tudo se torna vago“). Mas Quintana parte do “Tudo tão vago” para uma plenitude de difícil descrição! Já em OBLIVION, as recordações vão como que se esvanecendo e as ligações se perdendo. Em Quintana tudo é reencontro, depois de passar pelos LUTOS (bem para além de simples dores) inevitáveis e enriquecedores; aqueles que “trabalham” em nós para fixar e consolidar os objetos perdidos do amor. Já em “Oblivion”, os objetos de amor vão se esgarçando progressivamente…como se restasse apenas a esperança do esquecimento. Não nos desesperemos, porém! Trata-se do primeiro momento da perda e de um luto do qual, de início, todos tentamos nos defender. A arte benfazeja haveria de fazer a sua parte, também no OBLIVION! Não para “espantar” a dor, espero, como no dito popular. Há que aprender com Quintana a procurar vivenciar todas as dores. Ele não quer espantar dor alguma. Pelo contrário, quer integrá-las todas; sofrer cada uma delas na sua plenitude. Afinal, como disse seu amigo: “…a saudade/É um bem maior do que a felicidade/Porque é a felicidade que ficou” (M. Bandeira). 
Demorei a apreciar plenamente a obra de Piazzolla e mesmo a aproximação dela teve algo de “narcisismo nacionalista” (tolo como todos). Um dia, li uma sua fala que me atingiu profundamente: “Falam muito da música e dos músicos brasileiros, mas não valorizam suficientemente a grandeza dos poetas e de suas letras” (ou algo semelhante). Esse conhecia mesmo a nossa música…poesia…cultura….!

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*Quando eu me esquecer de amar o nosso amor…./…As pessoas se separaram, eu esqueço, esqueço (Les gens se séparent, j’oublie, j’oublie)/Nossa melodia, mas eu esqueço…/Tudo se torna turvo (vago)/E eu esqueço, esqueço/….Em uma plataforma de trem, eu esqueço, esqueço…” Falas desse tipo, em uma plataforma de trem, fazem pensar em alguém à beira do SUICÍDIO. O sentimento de VAZIO talvez seja aquele mais associado ao ATO…bem mais do que as DORES…inevitáveis.

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