“LONGITUDINALIDADE”: SAÚDE MENTAL VOLTANDO A FALAR JAVANÊS!

(Tentando se “libertar” da terminologia médica, criaram o ALEIJÃO POMPOSO!)

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NOTA: “O Homem que Sabia Javanês”, conto de L. Barreto sobre personagem que se apresentou como tradutor de uma língua que ninguém conhecia. Ficou famoso. Em adaptação um tanto forçada, a expressão passou a ser aplicada às falas artificiais e afetadas que tantos na S. Mental usavam até a década de 1980. 

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Sempre que se constitui um novo saber, observa-se a tendência ao desenvolvimento de sua própria linguagem. Mas há que ser muito criterioso. A LEI DA REFORMA PSIQUIÁTRICA (2002) representou um salto enorme no processo de humanização do acolhimento e atendimento em S. Mental. Foi mais que uma reforma: uma revolução da qual TODOS saíram beneficiados, à exceção dos empresários exploradores da “INDÚSTRIA DA LOUCURA”. 

No inevitável processo de criação de novos termos, a partir das novas práticas, há que ter alguns cuidados: 

1- que o novo termo dê indicação mais ou menos clara sobre o que se quer denominar; 

2- que seja entendido pela gente mais simples do povo! Afinal, queremos ou não que TODOS dominem os conceitos fundamentais que norteiam nossa prática?

Quando os termos propostos por alguém (ou grupo) não atingem o objetivo, considero uma tentativa fracassada. 

Quando, porém, não percebo sequer o objetivo de simplificar o entendimento, penso estar sendo criado um DIALETO SÓ PARA INICIADOS; uma forma de comunicar às pessoas mais simples sua própria incapacidade, quem sabe inferioridade? É o caso: palavras como SEGUIMENTO e/ou ACOMPANHAMENTO cumpriam tão bem a função! Alguns pacs talvez pensem, depois da tentativa de “tradução”: “Ah! É só isso!? Prá que então essa tal de LONGIT…como é que é mesmo!?”. Sou um crítico da terminologia médica. Expressões como “Crise Grande Mal”, “insônia terminal”; “Insônia familiar fatal” e tantas outras, são desastrosas. O próprio termo “MANIA” precisa ser superado. Já ouvi de mais de um paciente: “Eu não sou como o MANÍACO DO PARQUE não!”*. Sei que os criadores de dialetos sofrem de crise de identidade; que a medicina ocupou espaço em excesso…Mas, por favor…devagar com o andor: seguimento…acompanhamento…são palavras de uso geral; tão boas…tão claras para TODOS!

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TORNANDO A SUBIR NA “TORRE DE MARFIM”

Como todos sabem, as LINGUAGENS (há tantas, tão mais confiáveis do que a verbal!) foram criadas para a comunicação entre os membros de uma espécie qualquer; um sistema de símbolos (gestuais, corporais, fonéticos…) que os demais “sujeitos” (outro termo artificial muito usado) ENTENDEM de imediato. A FALA é apenas a última das linguagens e a mais facilmente falseável (F. Nietzsche-“Gaia Ciência”). Sem dúvida, o VERBO foi um salto enorme na comunicação, mas veio com o desafio: como ser claro diante dos conceitos tão complexos criados?… Isto é, quando o objetivo é a clareza e o entendimento. Quando, porém, o objetivo é AFETAR PROFUNDIDADE, criando uma linguagem só para “os iniciados” (quase Seita) a prática é bem outra: “Inventemos termos e expressões pomposas!” Assim, as pessoas ficarão diante do DILEMA: fingir que entendem para fazer parte da “seita” OU ter a honestidade intelectual de “confessar” o não entendimento…Costumam concluir que o problema é dela e não daquele que fala ou escreve. Da cravista W. Landowska: “As obras de Mozart podem parecer rasas só porque suas águas são absolutamente claras“. Tem gente sujando as águas só para parecer profundo!

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MAS AS COISAS PODEM PIORAR: TERMO VIOLENTA PRINCÍPIOS!

Costumo usar a metáfora do “corte transversal X longitudinal“—originária da HISTOLOGIA, no corte de um músculo—para se referir ao PRESENTE (Síndrome), em contraponto ao PASSADO (HDA: a evolução do pac. até ali). Só o CONTORCIONISMO mais extremo pode levar à aplicação desse “LONGITUDINAL” ao FUTURO, como uma espécie de aprisionamento atual. TEMPO e movimento são expressados tão melhor por: seguimento e acompanhamento! Nem precisamos dos termos mais próximos da medicina, como EVOLUÇÃO e outros. Além disso, quando lembramos da origem GEOMÉTRICA do termo: longitude X latitude, usadas para mensurações de localização na Terra, a ideia de um PONTO PARADO no espaço fica mais forte ainda. Tudo tão contrário ao que querem comunicar!

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*Diante disso, os médicos tendem a sorrir cinicamente achando se tratar de ignorância. NÃO! A origem do termo é aquela que a gente do povo APLICA, até na música “Eu tenho várias manias/Delas não faço segredo/Quem pode ver tinta fresca/Sem logo passar o dedo?…”. Por que não dizer apenas SÍNDROME DE EXALTAÇÃO DO HUMOR?

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