MÁRIO QUINTANA- “A RUA DOS CATAVENTOS”- I

(Canções sobre alguns SONETOS do ciclo)

NOTA: Enquanto aguardo autorização dos herdeiros do poeta para gravações oficiais, apresento o texto que servirá de INTRODUÇÃO ao trabalho, estimulado que fui por minha filha (professora de português e literatura) que nele viu algum interesse, independente do que se seguirá. 

………………………….

INTRODUÇÃO

Musicar um poema implica, necessariamente, tentar desentranhar a musicalidade que teria dado origem à própria obra, podendo gerar mais de uma canção. No caso desses sonetos nos quais há, segundo Fausto Cunha: “…um tratamento rítmico e melódico muito consciente, não raro magistral” (citado por Tânia F. Carvalhal) a maior dificuldade é não se deixar inibir demais pela grandeza da obra. Assim, muito mais do que se exigir “níveis” de qualidade daqueles que abraçam a empreitada (especialmente em relação a um poeta consagrado) é esperado que o result ado tenha relação profunda com a obra inspiradora. Afinal, aqueles possíveis “níveis” somente o tempo haverá de estabelecer. No mais, e buscando inspiração no próprio Quintana: há que evitar artifícios e obedecer à inspiração a ser trabalhada. 

A relação entre música e poesia é quase absoluta. Os Trovadores (aqueles que procuram e acham palavrasProvençais, porém, falavam de uma subalternidade do poema em relação à música: poema, sem música, seria como um moinho sem água. De minha parte, se escrevi alguns versos, foi em função da música. Grandes poetas, porém, demonstraram o quanto de música conseguiam expressar através das palavras: seu ritmo, harmonia, contraponto… Mas há algo que só a poesia tem: a magia indefinível da beleza de um verso. Use um sinônimo, modifique a sintaxe e…adeus poesia! 

Quintana não precisa de música, além da que imprimiu em seus versos, mas imagino que se interessaria quanto a ter inspirado tentativas de gênero. M. Bandeira (seu grande amigo) dizia que um dos seus maiores prazeres era ser musicado. E como o foi! Alguns dos poemas de Quintana já foram musicados, mas o resultado não é muito conhecido, o que não diminui seu valor. Quanto ao meu trabalho, tenho certeza apenas de que algumas pessoas me agradecerão por essa introdução a um aspecto da sua obra (1940, sua primeira publicação) um tanto eclipsado pelos livros que se seguiram. E se, de todo, esse meu esforço n&atil de;o interessar a mais ninguém, foi muito valioso para mim mesmo. Poucas vezes me senti tão capturado pela atmosfera (“nastroenie” em russo) de um artista. Não por acaso esse termo se consagrou na literatura (segundo R. Fonseca) a partir do russo. De Gogól a Dostoiévski, foram inigualáveis na criação de uma atmosfera para além das palavras. 

A estreia de Quintana apresentando SONETOS, forma poética das mais consagradas pelos clássicos—numa época em que nossa arte repercutia o MODERNISMO—provocou polêmicas, incompreensões e ataques que, no fim das contas, envergonharam os próprios críticos. Havia ali uma armadilha não intencional para julgadores apressados, atingindo até críticos consagrados, como Álvaro Lins (citado por Fausto Cunha): “Não sei quais tenham sido as relações do Sr M. Quintana com o Modernismo, mas os seus versos mostram-no como um indiferente ao que se passou…de 1922 para cá”.  No seguimento dizser aquela poesia: “simples, limitada, repetida”, completando com qualificativos que pretendiam ser pejorativos, mas que eu leio como elogios: “tudo é delicadeza, é simplicidade, é humildade”. Mais tarde , conhecendo melhor o poeta, o crítico se deu conta de que Quintana estava “apenas” muito para além do compromisso com “escolas”; sempre à procura dele mesmo não sacrificando sua inspiração a FORMAS (muito menos a “fôrmas):
“O que há de mais triste nesses poetas de equipe é que eles naufragam todos ao mesmo tempo.” (Caderno H).

A rigor, foi o próprio SONETO que saiu engrandecido e renovado em suas possibilidades através da sua obra.

Os 2 sonetos que seguem me inspiraram música há muito tempo (os de número XXX e VI, num total de 36) e têm me acompanhado como a exigir alguma apresentação, direito (quase dever) de quem pensa ter produzido alguma arte. Os demais (a serem comentados em outras publicações) foram surgindo, na medida em que eu mergulhava no universo do poeta, a partir da rica publicação de suas OBRAS COMPLETAS (volume único 2005-Ed. Nova Aguilar).  Vamos aos SONETOS!

………………………….

XXX

Rechinam meus sapatos rua em fora.

Tão leve estou que já nem sombra tenho

E há tantos anos de tão longe venho

Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio…

Um peso enorme para carregar!

Porém as penas, quando o vento veio,

..

Penas que eram… esvoaçaram no ar…

Todo de Deus me iluminei então.

Que os Doutores Sutis se escandalizem:

“Como é possível sem doutrinação?!”

..

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.

E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:

“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem…”

..

O poeta de tudo se desprende, especialmente de formalidades e artifício. Sua alma parece pairar para além do corpo e da matéria; de seu peso, do espaço e até do tempo. Mas esse processo passa também pela superação das “penas” a que todos somos (mais ou menos) submetidos desde a infância, pois quando o vento veio: “…penas que eram esvoaçaram no ar”. Tudo isso perpassado por humor e ironia inconfundíveis e incomparáveis. Mas há também o desprendimento de todo academicismo (com interessante matiz religioso) com o qual provavelmente “infernizaram” os projetos na sua juventude: “Que os doutores sutis se escandalizem…”. Na conclusão, uma das mais belas imagens que a poesia já produziu: andorinhas em um poste, como que apontando para o poeta (certamente com inspiração em Dostoiévski): “Olha! É o idiota dessa aldeia, dizem”. Esse soneto tem uma importância especial para mim. Imagino quantos “doutores sutis” haverão de contestar “capacidades” para musicar Quintana. Que se escandalizem!

………………………….

VI

“Na minha rua há um menininho doente.

Enquanto os outros partem para a escola,

Junto à janela, sonhadoramente,

Ele ouve o sapateiro bater sola.

..

Ouve também o carpinteiro, em frente,

Que uma canção napolitana engrola.

E pouco a pouco, gradativamente,

O sofrimento que ele tem se evola…

..

Mas nesta rua há um operário triste:

Não canta nada na manhã sonora

E o menino nem sonha que ele existe.

..

Ele trabalha silenciosamente…

E está compondo este soneto agora,

Pra alminha boa do menino doente…”

..

Talvez o mais direto dos poemas desse ciclo, pois não pede interpretações e considerações metafísicas, apesar da “alminha”. Há ali um culto à fragilidade e à capacidade de colher a riqueza que só sua aceitação pode engendrar. Tudo é Quintana (como ele diz em outro poema): o operário triste, mas também o menininho doente! Apesar do contraste extremo para com os homens que “batem sola” ou que “canções napolitanas engrolam”, suas vidas também pulsam no poeta, como na alma coletiva de que falou Nietzsche (“Além do Bem e do Mal”). Essa sim IMORTAL, acrescento eu. Também esses haverão de se encontrar com sua própria fragilidade e talvez não consigam lidar tão bem com ela. Não deixam, porém, de receber a admiração do poeta, pois são eles que, com sua afirmação da vida, fazem o sofrimento se evolar. M. Bandeira (grande amigo de Quintana), em uma noite de quase desespero, expressou um sentimento parecido sobre um ferreiro da vizinhança: “Sei que amanhã ouvirei bater o seu martelo de certezas”.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *