MANDAR X OBEDECER: NIETZSCHE CONTRA…NIETZSCHE-I

(E não é que a resposta estava com os nossos índios?)

NOTA: Finalmente vou abordar os mais perversos juízos contidos na obra de Nietzsche. Não são poucos e como são graves! Evitei-os por muito tempo.  Talvez por isso mesmo, seus livros que mais tinham me atingido, até então, foram “A Gaia Ciência” e “O Caminhante e sua Sombra”, os mais líricos dentre eles. Por que começo apresentando uma contradição fundamental entre os PRINCÍPIOS defendidos no “Humano, demasiadamente humano” e seu desrespeito em “Além do Bem e do Mal”? RESPOSTA: para tentar demonstrar o quanto os juízos defendidos nesse último implicaram um remexer de profundezas levando de roldão a lógica do pensador; sua abordagem científica dos problemas e até mesmo sua atitude perante a vida. Teria sido o SENTIMENTO de EXCLUSÃO que passou gritar através de sua pena? Estaria ele como que sacudindo as grades de uma prisão inevitável? Nietzsche fala no plural (“Nós, espíritos livres!”), mas está totalmente só: “Ocasionalmente, dançamos com nossas cadeias…com mais frequência, gememos debaixo delas e somos impacientes com a secreta dureza de nosso destino”. Essa tortura da exclusão fica mais evidente ainda no poema que fecha o “Além…”, no qual fala de sua espera por amigos…”fantasmas de amigos”: “Onde estão, amigos? Venham! É tempo! É tempo” (“Do Alto dos Montes”). A solidão é o destino de quem não pode deixar de dizer aquilo que ninguém mais podia sequer pensar. Somente assim, os dois últimos versos do poema poderiam se tornar verdade (sua tarefa?)…ou um salto na sua direção: “Agora o mundo ri. Rasgou-se a horrível cortina/É hora do casamento entre a Luz e as Trevas…”. No mundo físico, esse casamento é um contrassenso. Já na mente humana, é tudo aquilo do que a humanidade mais precisa e que só será alcançado com a derrota de toda moral que condena e oprime o animal que somos e que nos sustenta. Mas o caminho, aberto pela auto imolação do filósofo, seria duro e longo, como anunciado pelas curiosas RETICÊNCIAS que encerram o poema.

(Utilizada a tradução de P. Cesar de Souza, “Companhia das Letras”)

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1- O PRINCÍPIO: OPOSTOS NÃO SE EXCLUEM: “…como pode algo se originar de seu oposto: o racional do irracional…o lógico do ilógico…a vida para o próximo do egoísmo, a verdade dos erros?…A filosofia metafísica* superou essa dificuldade negando a gênese a partir do outro e supondo origem miraculosa para as coisas de mais alto valor; diretamente do âmago e da essência da “coisa em si” (Nietzsche: primeiro capítulo do “Humano, demasiadamente…”-1878)

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A filosofia contemporânea tem seu marco inicial na desmoralização (e até ridicularização) dos fundamentos da filosofia kantiana que abre o “Humano, demasiadamente humano”. Desde então, discorrer com afetação sisuda sobre “Razão Pura” e “Imperativos Categóricos” implicou anacronismo com boa dose de ridículo. Quem pode levar a sério, nos dias que correm, a quimera de uma “razão pura, liberta de toda bestialidade”? A sonora expressão “Das Ding an sich” (“coisa em si”) é de Kant, mas seu conceito, básico na metafísica** consequente, fora formulado por LEIBNIZ havia algumas décadas: apreendemos apenas os fenômenos, de forma mais ou menos próxima às “coisas em si”, nunca a elas mesmas (por mais que a ciência avance). Até o jovem Nietzsche lançar seu libelo: “Não há opostos, salvo na metafísica…Na base dessa contraposição está um erro da razão…Não existe ação altruísta…totalmente desinteressada …apenas sublimações, nas quais o elemento básico parece ter se volatilizado e somente se revela à observação mais aguda” (idem)***, Kant como que aprisionara a filosofia ocidental (por 200 anos) com sua TEOLOGIA envolvida em “vestes filosófico/sacerdotais”. Por isso mesmo, aquele título é tão importante: a partir de então, tudo seria olhado pela perspectiva HUMANA. Mas pode haver uma ponta de desconsolo (e ironia cínica) naquele “demasiadamente”, como se algo no pensador lamentasse um valor perdido. Afinal, não foi ele chamado “o pastorzinho”? Não era filho de um amado pastor? Não escreveu, ainda adolescente, que o Natal era a mais bela de todas as datas? Não assinou sua última carta “O CRUCIFICADO”? Considerando que Cristo também foi um homem (e pensador), por isso passível de comparações com outros seres humanos, costumo aprofundar o paralelo falando em uma “PAIXÃO DE NIETZSCHE”. Se o primeiro teria redimido nossos pecados (?), Nietzsche deu início aos esforços para eliminar a própria noção de pecado. 

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PS- descobri que o paralelo acima não é de todo original, o que me tranquilizou um pouco. Não há melhor abordagem do papel que alguns humanos exercem na HISTÓRIA (nesse caso apenas 2, Cristo e Nietzsche) do que a de Peter Sloterduck. Seriam eles “…um canal privilegiado para tendências que iriam acabar se impondo… (as condições estariam “maduras”; por isso, ele conseguiu) …transformar o acaso “F. Nietzsche‟ (mas também Cristo) num…elemento do destino…Aquilo que iria acontecer…é apreendido por um configurador, levado adiante e cunhado com seu nome. Nesse sentido, Nietzsche tornou-se um destino…” (“O quinto ‘evangelho’ de Nietzsche”). Penso apenas que faltou ao autor a associação da vida de NIETZSCHE com a PAIXÃO de Cristo, não com os EVANGELHOS (narrativa). Não precisamos de um “EVANGELHO Segundo…”. Afinal, o próprio Nietzsche fez ensaios autobiográficos desde os 13 anos. Em relação à PAIXÃO, nos 2 casos, penso ser o sentimento de COMPROMISSO com a humanidade; um DESTINO sentido como uma espécie de prisão. Por isso, não lhes era possível deixar de levar o processo até as últimas consequências; beber do cálice até a última gota. Nietzsche estava no: “…quase inexplorado reino dos conhecimentos perigosos e existe uma centena de boas razões para que dele mantenha distância aquele que—PUDER ...se o seu navio foi desviado até esses confins…Cerrem os dentes! Olhos abertos! Mão firme no leme! (como consequência disso) …A psicologia será novamente reconhecida como a rainha das ciências…o caminho para os problemas fundamentais”(par. 23). Podemos falar também das PAIXÕES em nossas prosaicas histórias: a natureza em nós nos arrastando sem que possamos resistir; na maior parte das vezes associada à REPRODUÇÃO e ao AMOR. Mas TODOS parecem ter fugido do exemplo mais importante quanto a essa ORIGEM ÚNICA: do amor, da sensualidade e até do erotismo. Sua separação em SAGRADO X PROFANO é tema central do cristianismo e de “Tannhäuser” (R. Wagner). Freud demonstrou o contrário e a “Atração Sexual Genética” (sem a chance da SUBLIMAÇÃO) comprovou essa origem única.

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2- O MESMO PRINCÍPIO DESRESPEITADO: “ALÉM do Bem…”: 

“o instinto gregário da obediência é transmitido mais facilmente, como herança, do que a arte de mandar…acabarão por faltar os que mandam e são independentes” (par. 199). 

Nietzsche abusando do direito de errar, quanto à herança e na CONTRAPOSIÇÃO: mandar/obedecer. E dizer que boa parte do seu primeiro capítulo, “Dos Preconceitos dos Filósofos”, é voltado ao aprofundamento da tese aqui abandonada! O tema mandar/obedecer parece obliterar a visão do filósofo. Assim, teria havido “…sempre muitos que obedeceram em relação ao pequeno número dos que mandaram—considerando, portanto, que a obediência foi, até agora, a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens, é justo supor que…é agora inata a necessidade de obedecer” (199).Não há aqui sequer cuidado com a lógica e o método científico. Nietzsche mesmo condenara os “moralistas” pelo desconhecimento de outros códigos morais (de outros povos) e por seus julgamentos autocentrados. A submissão citada está longe de ser universal: “Índio adulto não obedece a ninguém” (Washington Novaes)****. O cacique seria apenas o mais respeitado nas situações extremas: conflitos, confrontos, etc. desmistificando a tolice do dito “Muito cacique prá pouco índio” (transposição para os índios das perversões da civilização). Também para o povo MUISCA da atual Colômbia (esmagado pelos espanhóis), a obediência não era a regra. Seus caciques eram apenas líderes guerreiros e de administração: https://www.postposmo.com/pt/cultura-muisca/

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DEPOIS DOS HORRORES…SALVO POR DIONÍSIO E PELA POESIA!

A rigor, a inspiração em Dionísio apenas adiou um pouco o colapso de Nietzsche! Seus ataques à moral europeia levam-no a concluir que a identificação com o outro e o amor não teriam, ali, qualquer papel:“O temor é aqui, novamente, o pai da moral” (par.201). Refere-se à moral “de rebanho”, imaginando a possibilidade de uma outra, “estritamente humana”: “…ao lado da qual, antes da qual, depois da qual muitas outras morais, sobretudo as mais elevadas, são ou deveriam ser possíveis…”. O contrassenso é levado ao paroxismo, pois repete aquilo que condenara em Kant. Afinal, somos ou não animais, antes de tudo? Cabe a pergunta: não foi, sua formulação de uma “moral humana”, consequência da reflexão de um europeu (ele mesmo)? Ou teve ela “origem miraculosa”, a partir de uma “NOVA FONTE, muito pura” e sem ligação com a história europeia? Ele mesmo afasta essa possibilidade: “…Embora se sintam independentes uns dos outros…alguma coisa os impele  (aos filósofos) numa ordem definida…O seu pensamento é mais reconhecimento do que descoberta…” (par. 20). Tendo resvalado para a idealização, os horrores anti-humanos foram a consequência necessária: “…Toda elevação…foi obra de uma sociedade aristocrática…Sem o pathos da distância, tal como nasce da entranhada diferença entre classes, do constante olhar altivo da casta dominante…do exercício em obedecer e comandar…não poderia nascer aquele outro pathos ainda mais misterioso” (par. 257); “O essencial numa aristocracia boa e sã…é que aceite, com boa consciência, o sacrifício de inúmeros que, POR SUA CAUSA, devem ser oprimidos e reduzidos a seres incompletos, escravos…” (par. 258).

Eis que, depois de todos esses horrores, subitamente cai o pano: Nietzsche louva a “risada de ouro” (par. 294) e, nos dois últimos parágrafos (295/6), começa a falar no “gênio do coração” (Dionísio): “…que ensina a hesitar….que adivinha o tesouro oculto e esquecido; a gota de bondade e espiritualidade sob o espesso e opaco gelo”. Continua por uma sutil apologia do HUMANO (pela palavra do próprio deus): “é um animal agradável, valente, inventivo que não tem igual na Terra”. E conclui dizendo que os deuses teriam muito o que aprender conosco. Quem sabe teriam uma ponta de inveja? “Nós, homens, somos—mais humanos”. Conclusão: Ser HUMANO seria o grande valor, inalcançável para os deuses, que estariam condenados apenas a assistir à comédia humana. Mais uma vez a poesia (o “gênio do coração”) salvou o pensador, adiando um pouco a loucura inevitável. Nunca o trajeto de uma mente até a loucura foi tão bem documentado; de tal forma, que dispensa hipóteses de causas especificamente orgânicas no processo. Tudo parece ter se dado “apenas” pelo colapso de uma mente que tentou ir “Além…do Humano…”, considerado por ele “demasiadamente…humano”? 

……………………………………………CONTINUA

*Herança tardia do dualismo cartesiano: “res cogitans X res extensa”

​**Até então, Nietzsche tratava a metafísica como se só houvesse a kantiana, associada a um “mundo paralelo”, o da “coisa em si”. Em verdade, Leibniz resgatara a metafísica que tem como referência apenas a limitação intransponível do conhecimento humano, derrubando a arrogância cartesiana de tentar reduzir a natureza à geometria: a “res extensa”. Em obras posteriores, Nietzsche se refere à metafísica como sendo inevitável e trabalha com o conceito de Leibniz usado também como instrumento.

​***​Diga-se de passagem, por essa época, Nietzsche estava imbuído da ciência e de seus métodos. A filosofia histórica (contrariamente à metafísica) não seria distinta da ciência natural: o mais novo dos métodos filosóficos. Sua aplicação “…talvez leve à conclusão de que não há opostos…salvo na concepção popular ou metafísica.”

****”Não há segredos entre índios no que diz respeito à comunidade” (idem). A TRANSPARÊNCIA, por lá, é algo absolutamente natural. Já por aqui, uma inconveniência.

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