SUICÍDIO: UMA MUITO SUSPEITA “CORREÇÃO DE DADOS PRELIMINARES”
(Bolsonaro acenou com elevação de suicídios para atacar medidas antiCOVID)
“Bolsonaro disse em sua live semanal (março/21), que houve aumento de suicídio entre jovens durante a pandemia….leu carta de um suposto suicida para atacar as medidas restritivas. “Estamos tendo aí casos de suicídio pelo Brasil por causa do lockdown”….E. Bolsonaro usou as redes para divulgar a carta e até a foto da suposta vítima”
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/17/suicidios-anuario-brasileiro-de-seguranca-publica.htm
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O Perigo das previsões

Há uma disparidade enorme entre os dados preliminares e os “dados finais” divulgadosdos suicídios ocorridos no Brasil em 2020: 1084 registros a mais (passaram de 12751 a 13835). A rigor, tem sido difícil até estabelecer quantas foram as “divulgações preliminares” e sua cronologia. Parece-me obrigatório investigar se essa tem sido uma prática comum através dos anos, pois funciona no sentido oposto ao objetivo principal desses registros: orientar e gerar políticas públicas. Considerando, porém, os “interesses” (sempre perversos no caso) do “personagem e sua trupe”—divulgados com a típica irresponsabilidade—é até inevitável não estabelecer relações entre os dois fatos. Imaginar uma possível invenção de casos por autoridades sanitárias seria demais! Mas, em se tratando do projeto antirrepublicano que quase se instalou entre nós, porém, talvez seja melhor não estabelecer limites para a possibilidade de absurdos cometidos. Para se ter uma ideia, dias antes da posse do novo Presidente, B. pareceu acometido por um “surto de generosidade”: tornou sem efeito seu Decreto que proibia a entrada do Pres. da Venezuela no Brasil. Qual generosidade, qual nada! O objetivo era “apenas” criar mais um problema para o próximo governo; como uma pulga desprezível e impotente*, à qual restasse apenas incomodar. Já para com os dados referentes ao suicídio, as consequências podem ser muito piores. É fácil imaginar o nível de pressão gerada em um serviço qualquer, a partir daquelas falas! Isso na melhor das hipóteses, pois a outra seria que alguns se sentissem “honrados entregar o resultado desejado”. Visando agradar a “reis”, “chefões”, “capi” (e capitães), quantos absurdos já foram cometidos! Não vimos um médico, que tinha boa reputação, aceitar o M. da Saúde e servir de sabujo àquele que desrespeitou a TODOS princípios basilares da boa clínica e da saúde pública? Isso sem falar no “General de palanque” que fez da Saúde um palanque de horrores. Certamente, há mais pessoas em cadeias de comando: “Ele manda e eu obedeço”!
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MUDANÇA RADICAL DE CRITÉRIOS PARA AGRADAR AO “CAPO de TUTTI…”?
“Eu vou interferir (na PF)...ponto final!”, B. maio/2020
Tentando não cometer injustiças, especialmente para com Servidores de carreira ligados à avaliação e registro de dados de saúde pública, penso que as “correções” apresentadas se deram a partir de uma tendência generalizada a decidir pelo diagnóstico de suicídio diante de casos considerados (no início da investigação) “não conclusivos”. Mais do que impressão, essa possibilidade é quase uma certeza. Somente uma auditoria—de início por amostragem e, dependendo dos resultados preliminares**, dos demais—dos 1084 casos que foram, muito tempo depois, classificados como suicídios, resolveria a questão. Parece-me obrigatória sua realização. Há múltiplas consequências funestas de uma precipitação tendenciosa na atribuição do suicídio como causa de morte. A mais grave seria a não investigação de possíveis homicídios e a impunidade. A história registra inúmeros desses casos. A outra seria um desrespeito aos falecidos e suas famílias, no caso de atribuição ao suicídio a partir de outras possíveis causas***. E é bom assinalar: qualquer falta com a verdade (para qualquer lado) é um desrespeito. Sei que corro o risco de “glamourizar” o suicídio, mas ele costuma elevar o respeito e o interesse que tenho por alguém. Suicídios já ajudaram a derrubar governos, como na Tunísia e na Alemanha Oriental e foram determinantes da retirada das tropas americanas do Iraque (33 suicídios nas tropas em julho de 2010, número impressionante). Com isso, quero introduzir uma questão delicada. Como todo bom cientista e sabendo da importância da delimitação muito restritiva dos critérios nesse tema, Durkheim cunhou a expressão: “homicídio intencional de si próprio”. Ele mesmo não a abraçou, pois conseguiu pensar como psicólogo: considerou as múltiplas contradições que cercam o ato. Já a nossa situação, contudo, quase demanda sua aplicação no sentido da restrição, pois “In dubio…”: considerando o risco de manipulação, talvez seja melhor optar pela negativa. Uma coisa é certa: há que estabelecer critérios claros e aplicáveis para largos períodos, nunca atendendo a interesses casuísticos. Vejam que, de hábito, costumo privilegiar o OPOSTO. Por isso, defendo as AUTÓPSIAS PSICOLÓGICAS (ou psicossociais): o estudo das semanas que antecederam falecimentos em circunstâncias nas quais a pessoa, sem deixar cartas, como que atirou um carro sobre um poste ou precipício, certos tipos de afogamento e outros. Com isso, as taxas tendem a se elevar. Não há um consenso mundial e é necessária uma discussão internacional a respeito.
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DA HONESTIDADE QUE GEROU OS PRIMEIROS DADOS DIVULGADOS!
“Embora na fase inicial da pandemia, especialistas e cientistas renomados tenham predito forte aumento mundial no número de suicídios devido a grave crise sanitária, de forma geral, houve decréscimo de 13% nos suicídios na população geral do Brasil e entre março e dezembro de 2020″. J. Orellana
(https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-avalia-excesso-de-suicidios-no-brasil-na-primeira-onda-de-covid-19)
Quem pode duvidar da honestidade dos que geraram os dados dos primeiros meses da PANDEMIA? Afinal, não havia qualquer interferência, para além de inocentes previsões. Em relação à sua fidelidade, podemos também supor que, pelo menos até maio-20, não teria havido prejuízo de monta no funcionamento dos serviços responsáveis pelos registros. A hipótese que gerou esse trabalho, baseado em estudos de Durkheim e observações pessoais, era da queda dos números para o suicídio nesses primeiros meses (ver texto anterior). O olhar linear, positivista e não dialético (conforme assinala o autor acima de forma crítica) prejudica uma antecipação desse tipo. Vejam outros achados internacionais: “As taxas se mantiveram, ou até mesmo, diminuíram nos primeiros meses da pandemia de COVID-19 em alguns países” (COVID19- “Suicídio em Tempos de Pandemia”, Airton dos Santos Filho et al: https://www.saude.go.gov.br/files//conecta-sus/produtos-tecnicos/I%20-%202022/Suic%C3%ADdio%20em%20tempos%20de%20pandemia.pdf. Aqui, os autores avançam na compreensão fundamental do fenômeno: “…fatores de proteção podem ter sido ativados nas comunidades como o apoio mútuo…aumentando a coesão social por meio do sentimento coletivo de ‘estamos todos juntos nisto’ (Pirkis et al, 2021).”. Faltou apenas lembrar Durkheim e assinalar a (pouco duradoura) vitória contra a ANOMIA, tão estimulada por modelos centrados no PIB e não nas pessoas.
Por tudo isso, a bem da saúde pública e seus registros e em respeito às pessoas cuja “causa mortis” pode ter sido mal avaliada, penso ser OBRIGATÓRIA a formação de uma força tarefa para avaliar os casos duvidosos. Afinal, interferências politiqueiras foram a tônica dos que tentaram criar um “mundo paralelo”.
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SÓ PAVOR GENERALIZADO PODE APROXIMAR PESSOAS EM UMA SOCIEDADE?
Por fim, considerando a tendência ao reconhecimento do papel do estreitamento dos laços sociais na PREVENÇÃO do suicídio—que alguns estão chamando elevação da coesão social—há que tentar responder e superar a pergunta acima. Nesse sentido, nada melhor dos que estudar os contrastes da Inglaterra. Nunca aquele estreitamento de laços foi maior do que na resistência e vitória contra o NAZISTAS; estreitamento que encontrou seu ícone em W. Churchill, com sua determinação, humor e acolhimento. Algumas décadas depois, porém, eis que uma mulher cunhou a frase “Sociedade? Isso não existe; o que existe são pessoas!” (M. Thatcher). Quando vamos reconhecer: generosidade e empatia só fazem bem, especialmente àqueles que as tem. O fator permanente que estimula aquele estreitamento é a CULTURA REGIONAL, mas essas, já foram atropeladas pelos muitos processos de globalização.
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*Sabiam não haver tempo hábil para a conciliação de interesses, a partir das ameaças dos EUA em relação a empresas que fornecessem combustível para seu avião. Cometer horrores inimagináveis foi também tática aplicada nos Campos de Concentração: quando um eventual fugitivo os relatava era tratado como louco, perdendo a credibilidade (ver “Ascensão e Queda do III REICH”, W. Schirer). Como era possível que alemães cometessem aqueles horrores?
**Trabalhos muito sérios foram publicados falando em uma redução de até 13% no número de suicídios entre 2019 e 2020, por colegas da FIOCRUZ. No possível “novo arranjo” dos dados aqui questionado, o que era uma baixa se tornou elevação de quase 3%. Por isso, considero que deva se tornar uma questão, não apenas de seriedade científica, mas de honra a checagem dos dados e possíveis “novos critérios” aplicados pelas autoridades do governo anterior.
***Meu irmão, por ex., em pleno surto psicótico, dizia ter inventado uma nova forma de descer nas ondas, sem prancha. Entrou em um mar agitado e…morreu. Não foram poucos os que , na família e fora dela, atribuíram a morte a uma intenção específica de se matar.