SUICÍDIO NO BRASIL: TAXAS BAIXARAM NO AUGE DA PANDEMIA!?

(De março a setembro de 2020! Os muitos paradoxos tão associados ao ato mais extremo)

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Estávamos em meados de 2020, auge da PANDEMIA, quando um grupo de Residentes do H. P. de Jurujuba—onde mantive atividade presencial por todo o período, além do IPUB—me fez a pergunta: “O que o Sr acha que está acontecendo com as taxas de suicídio?”. Havia ali uma saudável provocação, pois tinham participado de aula na qual valorizo os muitos paradoxos (aparentes, como todos) associados aos achados sobre o tema. Talvez imaginassem qual seria minha resposta. Respondi que talvez tivesse baixado. Foi apenas um registro, sem ênfase nem argumentação, mas sem fugir àquilo que estava pensando a respeito: ainda não formulara plenamente os PRINCÍPIOS que norteavam minha intuição:

1–As ameaças coletivas, daquelas que provocam mobilização social (estreitando e aprofundando os laços em um grupo qualquer) tendem a fazer com que aquelas taxas baixem: nas GUERRAS e sua mobilização (fato amplamente comprovado, especialmente na Áustria e Alemanha nos anos 1930 e também estudado anteriormente por E. Durkheim*). O mesmo pode-se imaginar em relação às reações às grandes catástrofes naturais (terremotos/tsunamis e outros), mas não conheço trabalhos confiáveis a respeito. 

2– Já as grandes mobilizações festivas podem ter efeito oposto, especialmente para aqueles que, por razões diversas (especialmente um transtorno mental), dela não conseguem participar. A subida das taxas de suicídio na primavera e verão, especialmente nos países nórdicos, parece ter essa relação. Nunca isso foi dito de maneira mais rude e até cruel como na Cantata “CARMINA BURANA”. Depois das muitas louvações à primavera, os versos: “Miserável aquele cuja alma/Não consegue viver e desfrutar/Segundo as regras do verão” (Parte 5- “Contemplemos a Encantadora Primavera”). Por tudo isso, costumo dizer: “Vai estudar o suicídio? Prepare-se para rever todos os seus valores”. Há muito a aprender com quem chegou a um drama nesse nível.

3– Suicídios praticamente não aconteciam em CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO, segundo referência altamente confiável de PRIMO LEVI, químico judeu que sobreviveu a alguns anos em Auchwitz (fato assinalado em “É Isso um Homem”). Outro grande (e aparente) paradoxo foi seu próprio suicídio, já com mais de 80 anos em NY, levando seus parentes e amigos (aprisionados, como quase todos, aos valores mesquinhos da pequena burguesia) a duvidarem do autoextermínio daquele que enfrentou as piores condições imagináveis. Como era possível ele ter dado fim à própria vida? A resposta talvez esteja na necessidade absoluta de algumas pessoas de sentir a importância de sua vida na vida dos demais, caso contrário a sensação de vazio** pode ser insuportável. E então introduzimos o outro pilar da formulação teórica que embasa todo esse trabalho e que se constitui na lição da obra de Durkheim, “O SUICÍDIO”: a necessidade absoluta que temos dos outros e não somente dos mais próximos.

Revista Questão de Ciência

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/artigo/2019/09/20/o-que-dizem-os-numeros-sobre-suicidio-no-brasil

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ALGUMAS QUESTÕES METODOLÓGICAS: “9/11” REDUZINDO TAXAS!

Os bons e conclusivos estudos epidemiológicos implicam delimitação de área ou região mais homogênea (ESPAÇO) e comparação de série histórica (TEMPO). Assim, o ideal seria que outros estudos se fizessem, não com dados referentes ao Brasil como um todo, mas a certas regiões, considerando inclusive a disparidade de taxas de suicídio entre elas: mais do que o dobro no Sul do país do que no NE, por exemplo. Seria uma linha de pesquisa que, por diversas razões, não me sinto em condições de coordenar. Além disso, conclusões não se devem tirar de números absolutos, mas sim de TAXAS (X/100.000/ano) para cada região estudada, o que também ainda não é possível. Não há melhor referência quanto a isso do que a pesquisa*** que confirmou os efeitos do 11 de setembro sobre as taxas de suicídio nos EUA: queda significativa em um círculo de até 150 milhas a partir do WTC. Seu referencial teórico foi também o trabalho de Durkheim, o que é admirável: “…the rates for individuals whose place of residence was within 150 miles of the WTC were reduced. The effect was most prominent during the first 2 months after the attacks…”. Os achados aqui apresentados parecem muito mais incisivos do que aqueles e os efeitos da pandemia sobre as taxas de suicídio foram bem mais duradouros. Mas sua confirmação só deverá se dar a partir de outros trabalhos.

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INSTINTO SOCIAL: MAIS DETERMINANTE DO QUE O DE SOBREVIVÊNCIA INDIVIDUAL. 

Quando o outro não existe—nas situações de muito longo isolamento—precisamos “inventá-lo”, como no conto de L. Tolstói“O DIVINO E O HUMANO”e também na bela ficção cinematográfica: “O NÁUFRAGO” (associados a relatos de situações efetivamente enfrentadas). Nessas situações, geram-se estados psicóticos (perda do juízo da realidade coerente e compartilhada), apenas que não associados a transtornos. Essa ruptura com a “realidade” seria, no caso, uma condição para a preservação da vida. Por isso mesmo, inicio minhas aulas pela pergunta (inspirado em B. Brecht e seu “O que Mantém um Homem Vivo”): O que nos mantém vivos? Com isso, caminhamos para superar a perplexidade quanto ao porquê de alguém se suicidar. A pesquisa do SUICÍDIO reforça muito a seguinte resposta: nossa importância na vida dos demais e a sensação de pertencimento a um grupo e cultura. Os achados de E. Durkheim (1858-1917), especialmente sobre o papel da ANOMIA—afrouxamento dos laços sociais, em suas diversas formas de expressão, tendendo a elevar as taxas de suicídio—continuam muito vivos, apesar do silêncio daqueles que tudo fazer para reduzir a questão a um problema principalmente médico fazer em torno de sua obra. Somos muito importantes, SIM, mas só interferimos nas últimas fases do processo: tentativa ou ideação mais específica. E como os médicos e estudantes de medicina estão representados no outro lado do drama/tragédia!

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MOBILIZAÇÃO SOCIAL SEM PARALELO NOS PRIMEIROS MESES DA PANDEMIA!

Nunca presenciei uma mobilização como a daqueles meses. As ruas quase vazias eram um testemunho da ameaça que pairava no ar, pouco antes da imensa maioria ser duramente atingida. Como mantive meus contatos (diretos e cuidadosos) com os pacs do IPUB, reparei no quanto também estavam mobilizados, informados e envolvidos nas condutas a adotar. Algumas formulações muito sensatas, surpreendentes para alguns, deles se fizeram ouvir. Era um microcosmo da sociedade, toda ela envolvida em uma apreensão semelhante. E, talvez o mais importante: havia algo a ser feito por quase todos no interesse dos demais; o vazio* estava momentaneamente superado. CONSEQUÊNCIA: uma sensação difusa de pertencimento, ainda que pouco consistente e duradoura! A dura divisão de classes, com toda a sua crueldade, não demorou a se fazer sentir e tudo aquilo não apenas se dissipou, mas caminhou para o seu contrário: cobranças, conflitos e falta de sintonia para com as necessidades dos demais, especialmente dos menos favorecidos.

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UMA TENDÊNCIA CONSISTENTE À ELEVAÇÃO DAS TAXAS NO BRASIL

A partir de 2001, e até 2019, verificou-se uma tendência muito consistente à elevação das taxas (não apenas dos números absolutos) de suicídio no Brasil. Pelo menos para os primeiros anos dessa série, esse dado pode estar também associado à melhora da qualidade das investigações (em casos duvidosos) e do seu registro. A consistência da tendência, porém, aponta para se tratar de um fenômeno social da maior importância e que precisa ser investigado. Assim, e naturalmente, foram feitas previsões quanto aos dados esperados para 2020 que definitivamente (e felizmente) não se concretizaram. Havia uma PANDEMIA no meio do caminho! E então, as mentes positivistas e lineares, aquelas que não conseguem lidar com as aparentes contradições—incapazes de pensar para além da estreiteza de suas próprias mentes—diante da redução dos registros, começaram a AFIRMAR (como ouvi de autoridades municipais) ter ocorrido “erros”, etc. “Se a vida contraria seu narcisismo e suas crenças, azar o dela”. É o lema de alguns! Essa possibilidade precisava ser considerada, por óbvio. Daí a se tornar uma afirmação na base de uma régua cartesiana, vai uma distância enorme. A comparação de duas tabelas OFICIAIS—embora a de 2020 assinale: “dados preliminares”—apontam para uma consistência da redução muito marcante entre MARÇO e SETEMBRO de 2020 em relação a 2019, como veremos.

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ACOMPANHANDO OS DADOS DAS DUAS TABELAS

Para os meses imediatamente antes da pandemia (2020): janeiro (mais 99 registros de suicídio em relação ao mês correspondente do ano anterior) e fevereiro (mais 88 registros); a tendência à elevação, lenta, consistente e trágica, continuou. Foi quando vieram os anúncios e previsões de catástrofe quase universal; a pandemia foi declarada em 13/março e as taxas de suicídio caíram substancialmente já em março: menos 120 registros de suicídio em comparação com março/2019. Nos meses seguintes e até setembro, a redução observada foi de mais de 10% em abril, maio, julho e agosto e um pouco menos acentuada em junho e setembro. Considerando que, entre abril e set de 2019 houve 6645 registros de suicídios e que, no mesmo período de 2020 foram registrados menos 686 dessas ocorrências, a redução supera os 10%****. Entrego aos mais versados o julgamento do quão significativos são os dados e as possíveis conclusões que deles se podem tirar. 

Antecipando possíveis críticas (sempre bem vindas) em torno da confiança nos registros oficiais (possíveis prejuízos na atividade específica dos IMLs), diria que a possibilidade deve ser considerada, mas os dados referentes a março/20 são muito sugestivos de que a apontada redução do número de casos de suicídio ocorreu verdadeiramente: havia já a mobilização frente à ameaça que se aproximava—determinando tendência à redução da taxa, segundo a hipótese—mas os casos comprovados eram ainda em pequeno número, não justificando a hipótese de um possível prejuízo no funcionamento dos IMLs. Dirão outros: “6 meses (de abril a setembro) foi o tempo suficiente para que os IMLs se adaptassem à nova situação e então os registros voltaram à expectativa histórica”. São considerações a serem levadas em conta que deverão ser testadas em outros países. 

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UM ACHADO AINDA MAIS ESPECÍFICO? NOVEMBRO 2021: A “TERCEIRA ONDA”

Certamente não foi a “onda” mais mortal, mas foi a mais surpreendente. Configurada plenamente a pandemia, múltiplos paralelos foram feitos com a de 1918/19. Assim, todos se prepararam para uma segunda onda, que veio em nov. 2020, talvez provocando ainda mais mortes do que a primeira. Mais para o final do ano seguinte, quando tudo parecia estar em ritmo de resolução e a maioria dos Estados e Municípios tinham já desativado muitos dos seus leitos, eis que veio uma inesperada terceira onda da COVID-nov/2021. A perplexidade se instalou e o desastre se configurou de forma ainda mais dramática e candente Coincidência ou não (aprendemos a não acreditar em coincidências, pelo menos de início), eis que os números de suicídios no Brasil apresentaram uma queda ainda mais marcante e praticamente sincrônica nos meses correspondentes (ver gráfico). A correlação parecia tão intensa que eu mesmo desconfiei…de início, pelo menos. Ainda não tive acesso à tabela referente às mortes mensais por suicídio em 2021, mas isso será feito e provavelmente outros dados virão.

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*Ainda que muitas ressalvas se façam em relação à sua obra, sua conclusão principal, quanto aos determinantes sociais para o suicídio, continua inabalável.

​**É bom não subestimar o perigo do sentimento de vazio, subjacente a muitos suicídios. As aparentes melhoras apresentadas a partir da decisão tomada, poderiam ser assim compreendidas: tornou-se, novamente, um ser de AÇÃO. O “To be, or not to be” pode ter aquela mesma sensação na sua origem: “continuarei a levar essa mera existência vazia ou me tornarei um ser de ação?”. É o que se passa sequência da peça, com todos os desastres associados.

​***Cynthia A. Claassen et al; “Effect of 11 September 2001 terrorist attacks in the USA on suicide…”: The British Journal of Psychiatry (2010) 196, 359–364. doi: 10.1192/bjp.bp.109.071928.

**​Esses dados são reafirmados no artigo de ORELLANA,JDY e al: “Excess os Suicides in Brazil…”, Intern. Journal of Social Psychiatry, vol 68, Issue 5, August 2022: “…during the 10 months evaluated in 2020, there was an overall reducion of 13% in suicide rates in Brazil”.

NOTA DE RECONHECIMENTO E PESAR: esse trabalho contou com a participação decisiva de um INTERNO da Fac. de Medicina da UFF recentemente falecido. Aguardo autorização de sua família para o registro de seu nome.

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