A SEXUALIDADE NA FILOSOFIA- UM SCHOPENHAUER PARA ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS- VII

(Lirismo, poesia e louvor à vida que a pieguice contemporânea não deixou ver)

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NOTA: nada expressa melhor o “efeito Schopenhauer” sobre o mundo do que o conto de Maupassant: “Junto a um Morto”. Um discípulo do pensador (já defunto)—ele mesmo às portas da morte—relata o velório do mestre onde ocorre situação um tanto hilária: o salto da dentadura (por contratura do cadáver) causando pânico à volta. O tradutor, porém, cometeu uma falha difícil de explicar: Trocou: “ia morrendo como morrem os tuberculosos…” por “cardíacos”. O título se refere a 2 mortos: Schopenhauer e seu discípulo, tornado um “morto-vivo”. Diz o autor sobre o filósofo: “…abateu crenças, esperanças, poesia e quimeras; destruiu aspirações, devastou a confiança das almas, matou o amor, demoliu o culto ao ideal de mulher …Realizou a maior tarefa de um cético*. Atravessou e esvaziou tudo com o seu deboche. Hoje, até aqueles que o desprezam trazem em seu espírito…a marca das suas ideias”. E continua o discípulo: “Schopenhauer tinha um sorriso espantoso, de nos causar medo, até depois de sua morte”.

O jovem e o velho Schopenhauer: 1788-1860

https://medium.com/@augustomennabarreto/junto-a-um-morto-f15d71c9c2d

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“…Deveríamos nos admirar de que um tema, que representa na vida humana um papel tão importante, tenha sido até agora abandonado pelos filósofos, sendo aqui apresentado como matéria nova”**(“O Amor, As Mulheres e a Morte” – A. Schopenhauer,Casa Editora VECCHI Ltda, R. de Jan, sem data).

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Desde a primeira leitura de sua obra principal (“O Mundo como Vontade e Representação”, Livro IV) fiz o mesmo julgamento de Maupassant. Um livro pouco conhecido, porém, promoveu a minha conciliação com o filósofo. E então concluí: Schopenhauer é também vítima das suas próprias ideias. Sua linguagem (para além das ideias que expressam) deixa transparecer um lirismo subjacente insuspeitado. Todo seu fel seria fruto da decepção de não poder dar a ele vazão, a não ser pelo seu OPOSTO: o sarcasmo. Afinal, tinha uma tarefa enorme para com o futuro: atirar ao rosto humanidade os horrores que ela mesma produziu e ainda produz. E como saboreou PODER e FAMA! Findas as guerras napoleônicas, tudo era desolação na Europa! E foi nesse ambiente que suas ideias floresceram, como plantas carnívoras devorando qualquer expressão de lirismo e fragilidade à sua volta. Talvez seu jovem admirador Nietzsche o tenha redimido com seu OTIMISMO TRÁGICO: o que Schopenhauer afirmava tinha, sim, sua verdade, mas isso só fazia elevar ainda mais a beleza da vida. O que tentarei demonstrar é que o próprio Schopenhauer tinha já louvado esse lirismo e poesia, bem antes de Nietzsche. Apresentava-se quase como um continuador de Kant, mas é impossível imaginar duas naturezas tão diferentes. Suas atitudes em relação à música são opostas: enquanto Kant a menosprezava, Schopenhauer, que era músico, nela via uma expressão para além dos fenômenos.

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SAGRADO X PROFANO?! NÃO! O AMOR TEM DIMENSÃO ÚNICA!

​(amor vulgar x amor divino?) “…quanto à essência, o amor é sempre….o mesmo…e quanto mais individualizado tanto mais poderoso. É tanto mais forte quanto mais, em virtude de suas qualidades e maneira de ser, a pessoa amada é capaz de corresponder às aspirações de alguém”. (idem)

Essa foi a senda que levou Freud à concepção do amor/sexualidade infantil, o grande salto na sua formulação teórica e, ao que tudo indica, totalmente original. Não por acaso, foi a sua tese que encontrou maior resistência, pois feria profundamente as concepções religiosas e um tanto hipócritas (com suas “mulheres ideais” e seus “anjinhos sem sexo”). Está, hoje, plenamente confirmada, especialmente a partir da descrição do que ficou conhecido por “ATRAÇÃO SEXUAL GENÉTICA” (na origem da paixão entre os “desconhecidos” Édipo e Jocasta): parentes em primeiro grau, quando afastados na primeira infância (pais e filh@s; irmãos e irmãs) tenderiam a sofrer paixões esmagadoras em um encontro, independentemente de saberem ou não da relação de parentesco. Sem a oportunidade da sublimação durante a infância, a atração e a sexualidade se expressariam em sua plenitude atropelando convenções sociais. Poucas manifestações artísticas (se é que há outra) expressam tão bem o processo e a necessidade da sublimação quanto a nossa cantiga de roda “Terezinha de Jesus”: mesmo sendo “Theresinha” e “de Jesus” (mais religiosa impossível),“deu a queda” (to fall in love“caidinha”…)…“foi ao chão” (ficou sem defesas pela necessidade de amar, como tende a acontecer);“Acudiram 3 cavalheiros”/Todos 3…chapéu na mão! (Ah! se fosse sempre assim!)/O primeiro foi seu pai/O segundo, seu irmão/O terceiro foi aquele/A quem Teresa deu a mão”. A natureza se esmerou em pregar peças terríveis aos seres humanos por sua ousadia em desenvolver a razão e a civilização. Pior, passaram a julgar que poderiam submete-la aos seus códigos superficiais. A natureza em nós haverá sempre, caso não seja respeitada, de se vingar. Difícil imaginar um drama mais profundo.

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UM SCHOPENHAUER SURPREENDENTEMENTE POÉTICO E LÍRICO!

“Quando de uma paixão violenta, sejam quais forem os obstáculos, os dois se pertencem por mandato da natureza...por direito divino, apesar das leis e convenções humanas” (N. Chamford,1740-94), citado por Schopenhauer que completa com: “a espantosa indulgência de Cristo para com a mulher adúltera” (“atire a primeira pedra”), supondo a mesma “falta” em todos os humanos.

O que dizer, ainda, do paralelismo entre o mandato (ou mandado) da NATUREZA e o direito DIVINO? Nem Spinoza foi tão longe nessa associação direta entre Deus e a Natureza! Há tanto lirismo nesse livro, que sou obrigado a atribuir boa parte do mau julgamento dos contemporâneos sobre o pensador ao inconformismo com a perda das ilusões vazias e de idealizações que diminuíam os seres humanos reais. Digam o que disserem, há aqui uma empatia profunda para com o amor e os apaixonados, cuja associação com mandato da natureza em nada diminui. Pelo contrário, acrescenta poesia ao processo como se pode ver na citação que se segue. Nietzsche levará ao extremo essa associação com as forças da natureza em nós. Além disso, Schopenhauer fala como quem conheceu o amor também profundamente. O pensador foi bem além dos estereótipos em torno dele e por ele mesmo estimulados. Sabia da incompreensão inevitável e a provocou ao extremo. Nessa obra, porém, há uma outra verdade mais profunda, que só aparece quando a pena (escrita) corre livre das penas da razão. Sim! Terei a pretensão de interpretar Schopenhauer e sua luta para não ser arrastado pela pieguice.

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(da paixão) “…é que procede o colorido tão poético e sublime que reveste os pensamentos; nessa elevação transcendente e sobrenatural…(o apaixonado) recebeu a missão de fundar uma série indefinidas de gerações…a vontade do homem caiu no torvelinho da vontade da espécie” (idem). O uso das palavras grifadas traz implícitos admiração e respeito. Tudo ali está muito distante do sarcasmo ou deboche.

(na paixão) “…o indivíduo não persegue seu próprio interesse…mas o de um terceiro ser que deverá nascer desse amor. Tal desinteresse, que tem a grandeza associada, dá ao amor apaixonado um aspecto sublime, fazendo-o digno objeto da poesia“. Aqui, e para esse trabalho, não importa se ele está certo ou não, mas a elevação dos sentimentos do pensador. Percebo ali até alguns exageros românticos. 

(na paixão) “...é a parte imortal de ser que suspira, ao passo que todos os outros desejos só se referem ao seu ser fugidio e mortal. Essa aspiração viva e ardente, dirigida a certa mulher é o penhor da indestrutibilidade da espécie. Considerar essa continuidade como coisa insuficiente e insignificante é um erro...”. Aqui o pensador parece gritar aos ouvidos moucos das mentes piegas de sua época (mas não só) que dissociam as expressões individuais dos determinantes biológicos que sempre atualizam nosso compromisso com a vida…E como consegue injetar ainda mais poesia no seu raciocínio!

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De “herói romântico” a um velho cínico e irascível

ESTARIAM AS “UVAS PODRES”? TEMA PARA BIÓGRAFOS!

As uvas da raposa da fábula estavam verdes e as de Schopenhauer?! Quem desfrutou dos prazeres de cada época da vida tende a ser mais compreensivo para com a ingenuidade (essencial para um certo tipo de desfrute) e os transbordamentos dos mais jovens***. A mistura de louvor e fel que o pensador desfia no final do livro em questão deixa uma dúvida no ar: 1- haveria aqui ressentimento pelo que passou sem ter sido aproveitado; 2- é o resultado de uma tarefa em relação à humanidade: aniquilar os excessos de uma decadência alongada quase ao infinito****?

“…Durante o tempo em que possuímos os 3 grandes bens da vida: saúde, juventude e liberdade, não temos deles consciência. Não os apreciamos, senão depois de tê-los perdido, pois são bens negativos, só apreciados quando da dor e sofrimento” (idem). Vejam que ele poderia ter usado: “3 ilusões, enganos, embustes, etc.”, mas usou o indiscutível “3 grandes bens”; ou seja, eram ainda sentidos como tais e nos momentos em que sua pena corria livre de outras penas. E a palavra “liberdade”! Em outros momentos, contrariamente, diz que somente no não desejar pode haver liberdade. Há uma ali dicotomia artificial: considera impossível haver jovens capazes de associar o desfrute da “vida-dádiva” (pois ela o é) com a consciência da finitude dos grandes bens. E assim “aprisionou” os jovens, como o do conto. Nietzsche libertou-se dele a tempo e louvou a vida com suas agruras como ninguém antes*****.

Por fim, a POESIA, louvada e desfrutada à época, hoje e sempre: “A vida nunca é bela. Só são belos os quadros da vida alumiados e refletidos pelo espelho da POESIA, sobretudo na juventude, quando ainda desconhecemos o que é viver” (idem)De novo, a pena escapou das penas, especialmente na palavra “ALUMIADOS”: quando escapam da RAZÃO devoradora. De novo, Nietzsche se apoiou em tudo isso para louvar a vida, a poesia e a infância. Que, no seguimento, Schopenhauer chame a vida um “campo de matança”“penitenciária” em nada diminui o louvor à vida que lhe “escapa” na linguagem. Aliás, estou convencido de que nenhuma OBRA DE ARTE ou FILOSOFIA é pessimista, pois seu autor não consegue escapar de estar, ali e naquele momento, afirmando a VIDA.

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*Maupassant compara seu papel com o de Voltaire, saindo esse bem diminuído na comparação.

**Como podemos ver nessa série, essa omissão nem é tanta assim. O problema maior parece ter sido dos “seguidores” dos pensadores que tentaram ignorar um “tema menor”.

***A impaciência com crianças sempre cheira a ressentimento. O som de crianças brincando soa como música a meus ouvidos.

****Significativamente, Maupassant coloca um livro de Alfred de Musset, talvez o mais romântico dos poetas franceses, nas mãos do interlocutor do tuberculoso. Era uma proteção?!

*****“Da Capo!”. Teria respondido se lhe propusessem passar por todas as dores novamente, quase como um “Prometeu Acorrentado”.

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