NIETZSCHE: AFIRMAR UMA CULTURA É LIBERTAÇÃO-1

(O jovem Nietzsche lutando por uma EDUCAÇÃO voltada para a CULTURA)

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Cultura é, antes de tudo, unidade de estilo em todas as manifestações da vida de um povo. Ter muitos sábios e se ter aprendido muito não é um meio de cultura, nem dela um sinal. Com frequência, representa o contrário da cultura: falta de estilo ou a confusão caótica de todos os estilos…O povo alemão vive em uma caótica confusão de todos os estilos…regozijando-se de sua ‘cultura…de barraca de feira’” (Nietzsche, “David Strauss…” em “Considerações Intempestivas”)

        Há já um bom tempo, dei-me conta de que a Cultura é A referência para tudo o que é humano*. Dessa referência não escapam sequer as pessoas e movimentos que tudo fazem para destruir suas mais ricas expressões. Invertendo o sinal, aqueles que tentam impedir atividades culturais—pois não as conseguem alcançar ou controlar—reconhecem sua importância e expressam seu incômodo com o sentimento de EXCLUSÃO. A explicação para o fato é simples: desde nossas primeiras manifestações, hoje chamadas artísticas ou de pequenas tecnologias, é a criação coletiva que está em jogo: ritmos/percussão, cantos, danças, artesanato e artes em geral. Talvez até de antes, desde os primeiros códigos mais rebuscados de comunicação: o VERBO! Nesse processo, cada grupamento humano foi, durante milênios, consolidando seus próprios traços mais característicos que, por sua vez, aparecem em tudo o que cultivou; sua própria cultura! Também as pequenas tecnologias, como a pedra lascada (desenvolvida para cortar), a pedra polida (para fazer lanças e outros artefatos) e mesmo a pedra no estado bruto, usada como martelo e bigorna, são expressões de uma CULTURA, sempre marcadas pelos traços fundamentais de um certo grupamento humano em particular; pelos quais, aliás, são hoje reconhecidos pelos arqueólogos. Se a tese está difícil de entender, nada melhor do que NOEL ROSA e do verso que chamou menos a atenção na estrofe, aquele “dentro da melodia”:

Batuque é um privilégio/Ninguém aprende samba no colégio/Sambar é chorar de alegria/É sorrir de nostalgia/Dentro da melodia(“Feitio de Oração”)

          Fazendo um paralelo e tendo a música como símbolo ou representante da cultura (talvez seja mesmo sua maior expressão), a cultura está dentro de nós e nós dentro da cultura. Por isso, qualquer tentativa de com ela romper (nunca totalmente ou de forma “bem sucedida”) implica apenas violência de um ser contra ele mesmo. Voltarei muito a NOEL, mas aquele entrechoque da CULTURA com a EDUCAÇÃO (não uma oposição, há que observar) dará muito o que dizer, como verão: 

“…a criação do gênio (grandes talentos)  é o objetivo de toda cultura. (Nietzsche: “Schopenhauer, Educador” terceira das “Considerações Intempestivas”)

 EDUCAÇÃO “VERSUS” CULTURA?    

          Assim, e imaginando um dilema artificial (como quase todos): se eu fosse confrontado para escolher entre CULTURA ou EDUCAÇÃO, ficaria com a Cultura, até porque está na origem da própria Educação. Efetivamente, esse dilema formal não existe, mas se tornou quase uma regra a exclusão do cultivo das manifestações culturais originais nas escolas, especialmente as tidas como “mais avançadas” (incluindo as religiosas). Mesmo nessas escolas, parece haver, nos dias que correm, um movimento incipiente de resgate de nossa (a rigor também delas mesmas) identidade cultural. Nesse caso, porém, percebo um matiz utilitário que fere a própria cultura. Talvez se tenham dado conta da AFIRMAÇÃO da Cultura brasileira e o quanto estamos, através das nossas manifestações, como que “conquistando o mundo” (com ou sem aspas). Como, porém, aquelas pessoas ou escolas nunca cultivaram manifestações culturais (o pleonasmo é só aparente), tudo por ali parece não passar do terreno das “ilustrações e curiosidades”; como no caso das “flores de estufa” a que se referia Nietzsche, discorrendo sobre os artifícios da tão propalada “sabedoria alemã”!

          Dois acontecimentos totalmente associados à questão CULTURAL (nos dias de hoje, no Brasil e no mundo) marcaram o mês de Nov/25: 

1- o ataque do Chanceler alemão ao Pará e ao Brasil, ato típico do representante de um povo que destruiu (ou deixou que fosse destruída) sua própria cultura original, tornando-se completamente cego em relação às maravilhas que as expressões populares originais podem produzir; 

2- a invasão de uma escola em S. Paulo por PMs portando metralhadoras a partir da acusação de um pai (também policial) de que ali “estariam ensinando sobre os ORIXÁS”. Passada a revolta, foi muito bom saber que nossa CULTURA, de origem AFRICANA e dos povos originais, está sendo apresentada e discutida nas escolas de S. Paulo. Em relação aos que têm repulsa à cultura…são apenas uns pobres coitados que se sentem excluídos. No Rio de Janeiro, conheço bem a ligação profunda do Centro Educacional Anísio Teixeira com a nossa cultura, tomada como um dos pilares do próprio processo educacional e não me consta de ter ocorrido algum protesto a respeito.

NIETZSCHE: O FILÓSOFO DA CULTURA

        Um dos qualificativos aplicados ao pensador é: FILÓSOFO DA CULTURA e foi em uma obra da sua juventude (escrita por volta dos 30 anos, 1874), “Considerações Intempestivas”, na qual mais aprofundou o estudo do tema, especialmente na Terceira: “Schopenhauer, Educador”. Em verdade, dois anos antes, havia ele pronunciado 5 Conferências“Sobre o Futuro de nossas Instituições Educacionais” que serviram de base para as teses desenvolvidas. Estava o jovem pensador totalmente tomado pelo esforço de promover uma reforma generalizada da educação alemã, que desembocaria em novas instituições Educacionais, nas quais a CULTURA seria tomada como referência. Era uma bela e quase desesperada UTOPIA (“fora do espaço”), com arroubos de juventude e até convocações para um movimento tentando salvar a Alemanha do militarismo que crescia no vazio cultural visto à sua volta. Fracassou…! O militarismo e a mentalidade industrial venceram. Todos conhecem suas consequências. Ficou a UTOPIA, sempre atual, como poderão ver! Quem sabe cada vez mais próxima de conquistar o seu espaço: a partir do Brasil e se espalhando para o mundo? 

……………………………………………(CONTINUA)

*Reparem que eu não disse “precisa ser”, pois ela o é, queiramos ou não. Quando parece ter colapsado, foi a própria dimensão humana das coisas que colapsou com ela.

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