ARISTÓTELES: APOLOGIA DA SUBMISSÃO A PODERES CONSTITUÍDOS!

(O silêncio das “ACADEMIAS” diante das deformações de seus “ídolos de mármore”?)

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NOTA: Entre as OBRIGAÇÕES morais e profissionais das academias (especialmente as modernas) estão: 1- promover investigações e discussões para que o saber avance e evolua; 2- formar pessoas para sua própria continuidade; 3- tornar o conhecimento mais acessível às pessoas em geral. Infelizmente, não é o que tem se passado em relação à FILOSOFIA. Quase todos se surpreenderão com as reflexões, preceitos e conselhos contidos nas principais obras ligadas à moral de Platão e Aristóteles (“A REPÚBLICA” e “ÉTICA PARA NICÔMACO”). E, no entanto, não me consta que acadêmicos se dediquem à sua discussão. A leitura de incontáveis textos, provindos de academias, nunca me prepararam para o que encontrei quando do aprofundamento naquelas obras. Àqueles que argumentarão com o “não julgar o passado a partir de critérios atuais”, respondo que não se trata de PASSADO, pois os preceitos ali defendidos são ATEMPORAIS. Somente uma espécie de APRISIONAMENTO mental pode explicar sua não discussão.

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“ESCOLA (ou ACADEMIA) DE ATENAS” (RAFAEL).
Platão e Aristóteles são antípodas: Platão defendia o distanciamento da filosofia em relação à vida/sociedade (PLATONISMO), enquanto Aristóteles tudo fez pela OBJETIVIDADE e concretude. Os 2 se encontram em seu esforço de paralisar a evolução dos seres humanos na luta por AUTONOMIA. Para se ter uma ideia, Aristóteles chamou “ESCÂNDALO FILOSÓFICO” o enfrentamento de Sócrates aos PODERES DE ATENAS dos quais se tornou mais um INSTRUMENTO.

“… os preceitos e hábitos do pai, nas cidades…assim como nas famílias, têm ainda mais (força)…devido aos benefícios que conferem; porquanto os filhos têm…uma afeição natural e disposição para obedecer…”.“Ética para Nicômaco” (ARISTÓTELES)

Considerando que o pai e o filho de Aristóteles se chamavam Nicômaco, a sua ética era mesmo um assunto de família! Difícil imaginar algo mais perverso e a ser superado permanentemente. A tendência à tomada da família como referência costuma implicar defesa de interesses de grupos contra a sociedade. Os mafiosos tiveram algum critério na adoção do termo “Famiglia” para tratar seus membros. Alguns dos piores abusos na história foram cometidos em nome da “família”, como recentemente no Brasil.

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Trata-se de um livro com 10 longas partes preenchendo centenas de páginas nas quais não encontrei qualquer ideia original; antes, inúmeras repetições, prescrições e conclusões rasteiras. O livro se inicia por aquilo que parece ser uma exaltação da política, mas, em verdade, trata-se de um elogio aos detentores do poder e uma defesa da submissão“…a política é dessa natureza (“arte mestra”), pois é ela que determina quais ciências devem ser estudadas num Estado; quais são as que um cidadão deve aprender e até que ponto…” (LIVRO-I)Sentenças desse tipo, saídas da pena de um pensador, são altamente comprometedoras, especialmente aquele até que ponto…”. Para Aristóteles, a virtude nada mais seria do que algo adquirido pelo HÁBITO, como a higiene corporal, por ex.: “Nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza…somos adaptados, por natureza, a recebê-las…” (II-1); PASSIVAMENTE, como se fôssemos mesmo “tábulas rasas”*. Dramas morais; conflitos entre inclinações e concepções passam longe do pensador. Sequer é feita a pergunta quanto a de onde viria o “passo inicial” em direção ao que ele chama virtude. E se tudo tivesse se iniciado por um grupo (ou um homem e pai) que, por regra, praticasse atos como os que chamamos PERVERSOS? Estaria aquela sociedade condenada à perversão pela eternidade? Se tudo é uma questão de hábito e aprendizado, essa seria a conclusão lógica. Nesse caso, porém, o criador da LÓGICA não a aplicou. Em verdade, tudo ali parece se resumir a: “Obedeça e você será feliz”.

MORAL “JUST-MILLIEU”: “COLUNA DO MEIO”

A definição de Aristóteles para a virtude é o melhor exemplo daquilo que Schopenhauer ironizou chamando “Moral Juste-Millieu“A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consiste numa mediana”. Como consequência, sua obra transpira um bulário insípido de como não se afastar do meio termo. Trata-se de uma antecipação do que denominaram “Inteligência emocional”: apologia do “camaleonismo moral”; como se adaptar a qualquer custo. O complemento da formulação do “meio termo” (Aristóteles) vem pouco depois: “a virtude moral é um meio termo…entre dois vícios…a virtude se relacionará com prazeres e dores…ora, o castigo é uma espécie de cura…”(II-3). Dessa apologia da RAZÃO só poderia resultar uma condenação às PAIXÕES em geral (grifos meus): “…há uma espécie de homem que é arrastado pela paixão, contrariando a regra justa…incapaz de agir de acordo com a reta razão (VII-8). Como gosta de retas o filósofo! Mas a VIDA está longe de seguir caminhos retos! Nunca a associação do excesso de racionalidade à decadência de um povo (Nietzsche) teve um exemplo tão candente.**

SUICÍDIO: UMA SOCIEDADE DE ESCRAVOS DO ESTADO?

Quando fala de JUSTIÇA e do papel das Leis ficamos pensando em que mundo viveu o pensador! A propósito de condenar os SUICÍDIOS, diz: “…a lei não permite expressamente o suicídio; e o que a lei não permite, ela o proíbe” (V-10). O absurdo é tão grande que deve ser revista nos originais. Em todas as sociedades que esboçaram LEIS o princípio aplicado foi exatamente o oposto: um Estado não pode condenar atos que a LEI não proíbe expressamente. Caso contrário, os seres humanos teriam sido reduzidos a quase bonecos repetidores da sentença que as crianças usam em jogos infantis: “Mamãe…posso ir? Quantos passos?”. Assim, completa o pensador “…o Estado pune os suicidas, determinando sua perda de direitos civis, pois ele trata o Estado injustamente”. Seria aquela uma sociedade de escravos? Somente isso poderia explicar o PREJUÍZO a que ele se refere. Sim, aos seus donos, um SUICÍDIO acarretaria prejuízo. Ao ESTADO, e com frequência, suicídios servem como DENÚNCIA: na RDA, Tunísia e Colômbia, por ex., onde: POVOS ORIGINAIS começaram a se atirar do alto de penhascos (anos 1990) quando da prospecção de petróleo em suas terras sagradas.

ARISTÓTELES: TRAGÉDIA COMO UM “ESGOTO DAS PAIXÕES”

ARISTÓTELES (384-322)

A mente capaz de acalentar essas ideias, desumanizando pessoas e sociedades, só poderia dizer disparates na abordagem da arte em geral, especialmente das TRAGÉDIAS, tão importantes na afirmação da cultura grega. Segundo Aristóteles, seu efeito “benéfico” se daria em função da “catarse” de emoções tidas como “negativas”, resultando em “purificação” individual e coletiva: uma espécie de “banheiro coletivo”, dotado de um esgoto muito especial, pois sem a necessidade de água. E tanta gente “graduada” ainda repete essa tolice por aí! Quanta diferença para a formulação da Nietzsche (“A Origem da Tragédia no Espírito da Música”), para quem implicariam transbordamento de vida e sua afirmação; a certeza de que, mesmo descendo às piores profundezas dos sentimentos e atos, a vida continuava grandiosa. Haveria ali um processo de superação através da expressão artística, nunca um mero esgotamento. O coro teria por papel a separação entre espetáculo e plateia, verbalizando aquilo que poderia estar se passando nas mentes da plateia e promovendo uma certa quietude. Triste é que a música ali cantada—tão importante naquela cultura—se perdeu.

EDUCAÇÃO ATRAVÉS DO PRAZER E DA DOR…!

O que diz ele sobre a Educação? “…ao educar jovens, nós os governamos com os lemes do prazer e da dor…”. Nem nas relações com os animais esse olhar é mais aceito ou defendido (continua em “A MORAL E A ÉTICA NA FILOSOFIA”,  a publicar)

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*Assim definiu Aristóteles a mente humana, tese que foi ampliada pelos empiristas ingleses: “Tudo o que está na mete passou pelos órgãos dos sentidos”. Ao que retrucou Leibniz: “Exceto o que já estava lá”, completando que nem as tábulas era tão rasas assim. Pois se até para se fazer uma escultura, não é toda pedra que a ela se presta. Quanto mais um SER HUMANO!

**Toda sociedade que se apoia na escravidão torna-se, ela mesma, uma sociedade de escravos. Essa relação é tema da peça “ESPERANDO GODOT”

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