VORTIOXETINA: LABs DANDO O TOM PARA A PSIQUIATRIA…DANÇAR-II

(“Multimodal”? “Aprendizes de Feiticeiro”, atenção à Dopamina!)

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NOTA: plenamente consciente de quão temerárias podem ser as observações abaixo, mas apoiado: 1- em META-ANÁLISE que bem caracterizou vários casos da maior gravidade associados diretamente ao uso da substância nos primeiros 5 anos depois de sua introdução no Brasil (entre 2016-21); 2- no caso de um menor, ainda acautelado, que adotou atitude agressiva um tanto bizarra, no ambiente de um shopping, após 3 dias de seu uso (ver texto anterior); 3- na preocupação com os destinos da profissão, por mim abraçada com a maior dedicação (a PSIQUIATRIA), que pode estar perdendo alguns princípios a partir da manipulação sofrida pelas novas gerações a ela dedicadas, apresento o questionamento que segue. Foi inevitável alguma discussão farmacológica; dispensável para alguns.

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KRAEPELIN E A AUTONOMIA DA PSIQUIATRIA EM RELAÇÃO À NEUROLOGIA

Um dos momentos mais determinantes, no processo de afirmação da PSIQUIATRIA como especialidade autônoma, foi a campanha de E. Kraepelin para sua separação e autonomia em relação à NEUROLOGIA (ver Autobiografia). Pois bem, o processo está se invertendo e a psiquiatria sofrendo sérios riscos. Os grandes laboratórios (espécie de “Barões dos LABs”), através de muito dinheiro e adulação, parecem estar em campanha feroz para sermos como que “fagocitados” e tornados cada vez mais dóceis; uma espécie de “bedel de carimbo”! É o que podemos ver nos vídeos de propaganda do antidepressivo VORTIOXETINA, nos quais a psiquiatria foi reduzida ao papel de coadjuvante ou mesmo simplesmente suprimida em uma discussão de condição de natureza estritamente psiquiátrica. A tentativa é antiga e seu momento mais ridículo foi quando do anúncio da “Década do Cérebro” (1990), logo após o sucesso alcançado pelo “Década do Coração”. Disse o presidente do NIMH (“National Institute of Mental Health”), Thomas Insel, que seu sonho era ver, ao final daquela década, as doenças mentais passarem a ser chamadas doenças do cérebro. Faltou completar que, com isso, completaria sua tarefa de “CAVALO DE TROIA” na psiquiatria. Foi-se a década e nada de “transcendental”, que colocasse a psiquiatria em risco como especialidade, foi descoberto. Pelo contrário, nossa especialidade tem se mostrado tão importante que muita gente anda tentando “tirar uma casquinha” do seu sucesso…quando aplicada por pessoas preparadas para tanto.

NIMH-T. INSEL: CAVALO DE TROIA DA PSIQUIATRIA

 “…stop thinking about “mental disorders” and start understanding them as “brain disorders.”

“MULTIMODAL”: A MISTIFICAÇÃO DA MODA?

A Vortioxetina tem sido apresentada como “multimodal”, implicando atuação em múltiplos sistemas que têm certos neurotransmissores como referência. Considerando que o saber, em relação a esses sistemas, está “engatinhando” e que não se tem um controle razoável das consequências dessas “múltiplas ações”, essa propriedade deveria ser olhada mais como um problema do que uma solução. A elevação do risco do disparo de efeitos incontroláveis me parece óbvia. A rigor, TODAS as substâncias seriam, de alguma forma, multimodais. Vejam os tricíclicos, por exemplo. A princípio, seu mecanismo de ação foi caracterizado como sendo o de inibição da recaptação de neurotransmissores (principalmente NA), depois da sua liberação na fenda sináptica, implicando contato mais intenso e demorado com os receptores pós-sinápticos. Como, porém, essa ação é imediata, como explicar o surgimento de resposta terapêutica cerca de 14 dias depois? Somente um rearranjo nas relações entre os diversos sistemas o poderia explicar. Não deixa de ser uma ação “multimodal” apenas que bem lenta!

Com o passar do tempo, o foco passou de quantidade e tempo de neurotransmissores na fenda sináptica, para a sensibilidade dos receptores pós-sinápticos, especialmente os BETA adrenérgicos. Como os processos desencadeados em nosso corpo tendem a se dar “em cadeia”: A-B-C-D-E…, e nós não escolhemos por qual de seus elos entrar—entramos através do que a tecnologia permite—prefiro falar apenas em ações bem caraterizadas de uma substância qualquer, não em mecanismo de ação propriamente dito: sabemos de algumas de suas ações, mas não podemos a elas atribuir O efeito desejado. Com a mudança de foco para os receptores, foi desencadeada a descoberta de inúmeros. Para os da SEROTONINA, por ex., foram caracterizadas dezenas deles de diversas “famílias” cujo papel está ainda em estudo, como podemos ver no texto abaixo:

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0163725814001272

NENHUMA PALAVRA SOBRE O RISCO DE PROVOCAR EXALTAÇÃO DO HUMOR

Trata-se de um longo texto abordando tanto aspectos específicos em farmacologia, quanto estudos clínicos com a vortioxetina. Muito estranho é que não exista ali registro da sua associação com o surgimento de episódios de exaltação do humor (Síndrome Maníaco) e seus sérios riscos para a segurança dos próprios pacientes e demais, como no caso do menor acautelado.

Outro dado que chamou muito a minha atenção, citado apenas de passagem foi“Seis pacientes (de um total de 4.972 tratados com vortioxetina) morreram durante os ensaios clínicos: 2 por câncer, 1 por suicídio, 1 por overdose de morfina e 2 por acidentes”. A pergunta, em relação aos que sofriam de câncer, é: por que fizeram parte das amostras e até que momento? Já para os demais (4) e as condições de suas mortes, podemos supor uma relação com a vortioxetina. Todos os tristes desfechos assinalados costumam estar associados a oscilações súbitas do humor (disforia), impulsividade, perda da capacidade de bem julgar as situações e outras expressões muito típicas dos assim chamados síndromes maníacos. Não seria demais lembrar que o risco de seu disparo pela vortioxetina é assinalado nas bulas dos próprios laboratórios e registrado na META-ANÁLISE citada. Não tenho condições de julgar se esse número de ocorrências fatais, durante ensaios clínicos de uma nova droga, é aceitável. Há que considerar, ainda, a magnitude da amostra e a duração dos ensaios. Não me lembro, entretanto, de ter lido sobre outros com aquele número de casos fatais.

LIBERANDO DOPAMINA…ELEVANDO O HUMOR E O RISCO DE PSICOSE!

“A vortioxetina aumentou a DOPAMINA (DA) extracelular no córtex pré-frontal medial agudamente, após 3 dias de administração*..” Além disso, continuam: “...a estimulação dos receptores 5-HT 1A (típica da vortioxetina)…é bem conhecida por aumentar os níveis de DA extracelular.”  (2.2.1)

Não é preciso ser um especialista na área para saber da relação entre DA e elevação do humor. Além disso, todas as substâncias que têm ação antipsicótica inibem a função dopaminérgica. Drogas como cocaína, anfetamina e outras atuam por elevação dos níveis de DA no cérebro. Por isso chegaram a ser usadas (a cocaína) para tratar depressões. É bem conhecido o entusiasmo de S. Freud, no início de sua clínica, com seus efeitos iniciais e a decepção com as evoluções desastrosas de alguns pacientes, até mesmo para a morte. O objetivo inicial seria, segundo ele: “…elevar a atividade psíquica…” “Aquela seria a promessa da cocaína para a psiquiatria…” 

(Ver em https://www.scielo.br/j/rlpf/a/BxsvwKrNPXjzxKvpwgJcmHw/?format=pdf&lang=pt

Por fim, estou convencido de que a droga em questão não foi bem sucedida no teste final: o uso generalizado a partir do mercado. Não tenho condições de avaliar bem a relação RISCO/BENEFÍCIO que justifique seu uso. De uma coisa estou certo: seus riscos; as restrições a seu uso e os alertas para sua identificação precoce devem ser muito enfatizados. Significativamente, constam apenas de bulas, não de vídeos que assisti e de material dirigido aos médicos. Está em curso um processo de embotamento do saber psiquiátrico!

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*Quem leu o texto anterior deve ter observado que o ATO bizarro do MENOR se deu exatamente 3 dias após ter iniciado a VORTIOXETINA. O registro é muito anterior às descobertas de agora. Pode ter sido mera coincidência, mas em CIÊNCIA nunca devemos aceitar a ideia de uma “coincidência”. Quando do encontro de 3 variantes em UM PONTO (como no GPS), podemos estar quase certos da correlação: 1- Diagnóstico anterior sugerindo maior risco de T. Bipolar; 2- Tentativa prévia de suicídio; 3- início da substância 3 dias antes do ato ilícito. 

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