VORTIOXETINA: UM PERIGO RONDANDO O TRATAMENTO DAS DEPRESSÕES!?-I
(“São necessários estudos de farmacovigilância para monitoração desse fármaco”, de artigo analisado na META-ANÁLISE)
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NOTA: Consultado por duas CRIMINALISTAS sobre o acautelamento de um menor, em função de atos ameaçadores (com instrumento perfurocortante)—contra um desconhecido, em um Shopping de sua região (outro Estado)—interessei-me pela situação e passei a investigar. A consulta inicial era apenas em função do seu diagnóstico prévio: “Transtorno Opositor e Desafiador”, excrecência que mistura, sem critérios, expressões da vida com a CLÍNICA, mas que teve alguma utilidade em função de sua possível associação com elevação de risco para o desenvolvimento de T. Bipolar do Humor. Assinalei os cuidados com que observações não fundamentadas em ENTREVISTAS e EXAMES PRESENCIAIS devem ser tomadas. Os dados que colhi, entretanto, sobre a droga por ele tomada nos três dias anteriores ao acontecimento, eram tão candentes que ousei encaminhar as considerações abaixo. Foram aproveitadas e anexadas ao PROCESSO, aguardando pronunciamento da JUSTIÇA.
PRIMEIRAS INFORMAÇÕES SOBRE A SITUAÇÃO!
Desde o meu primeiro contato e tendo sido informado dos detalhes do acontecimento, considerei as condutas do paciente tão bizarras e inconsequentes, que deveriam resultar de um ESTADO PSICÓTICO (perda da capacidade de julgar a realidade de forma coerente e compartilhada) de natureza a investigar. Considerando a relação do diagnóstico a ele atribuído anteriormente com um possível risco elevado para o desenvolvimento de TRANSTORNO BIPOLAR DO HUMOR, a prescrição de VORTIOXETINA—administrada desde TRÊS dias antes da ocorrência—colocava o paciente em situação de risco. Mas a questão não se reduzia a algum erro individual. A situação é muito mais grave: a droga, por ela mesma, é de alto risco e não acrescenta nada à enorme gama de antidepressivos, efetivos e seguros, à disposição. Os LABORATÓRIOS parecem um tanto desesperados por lançar “novidades” sem avaliação suficiente de seus riscos.
MEDICAÇÃO UTILIZADA PELO PACIENTE TRÊS ANTES!
Revendo a bibliografia a respeito, fiquei impressionado com a correspondência entre as ADVERTÊNCIAS dos próprios LABORATÓRIOS (estranhamente omitidas nas comunicações aos médicos) e o que ocorreu com o paciente. O problema é que se tratam de manifestações que colocam VIDAS EM RISCO (não “boca seca, prisão de ventre…” como com outras substâncias). Mais adiante, levantei bibliografia e me deparei com uma META-ANÁLISE sobre a substância que foi preocupante, como tentarei demonstrar. Dizem as publicações dos próprios LABORATÓRIOS:
a-“…pode causar pensamentos suicidas ou depressão…mudanças repentinas de humor…mais comuns no início do tratamento ou após alteração na dose”.
b-“…pode causar agitação, irritabilidade…em adolescentes e jovens adultos. …e um agir de forma imprudente”.
c-“Informe o médico se você ou alguém da sua família sofre de transtorno bipolar (mania-depressiva) ou tentou suicídio.”
META-ANÁLISE SUFICIENTE PARA RETIRADA DO MERCADO?
https://www.oasisbr.ibict.br/vufind/Record/UNICSUL-1_97c84a5cf17a63482d66a0fd6598bf61
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Trata-se de um tipo de investigação muito utilizada: reunião de diversos trabalhos mantendo o FOCO sobre UM dos aspectos a estudar. A aqui estudada, de enorme importância e bem realizada, deu-se em 2021. Considerando: 1- seu FOCO nos efeitos indesejáveis; 2- o curto período desde a entrada da droga no Brasil (2015), os casos de exaltação extrema do humor, por ela provocados, devem ter sido muito frequentes e graves. Para se ter uma ideia, dentre as manifestações mais típicas dos episódios MANÍACOS (T. Bipolares do Humor) estão várias que podem colocar vidas em risco, especialmente quando associadas à irritabilidade: perda do juízo crítico e da noção de direitos dos demais; marcante desinibição e impulsividade; sentimento de onipotência; incontinência emocional, com disparo de condutas lesivas que somente cessam por forças externas. Dirão alguns não podermos ter certeza quanto à relação suspeitada. A esses respondo: pessoas responsáveis costumam adotar medidas PREVENTIVAS em situações do gênero. Vejamos algumas das observações da META-ANÁLISE:
a-“…Foram observados episódios de mania/hipomania após o uso da Vortioxetina em todos os estudos…” Esse dado dispensa comentários. Estranho é ver situações de tal gravidade sendo abordadas, até hoje, de forma tão banalizada.
b-“…o estado eutímico (retorno à situação anterior) foi alcançado após a descontinuação do antidepressivo”. Aqui uma observação da maior importância: foi estabelecida ESPECIFICIDADE na relação entre a Vortioxetina e as síndromes apresentadas.
c-“…são necessários estudos em farmacovigilância para monitoração deste fármaco…ressaltar a necessidade de novos estudos e o risco de um episódio de mania…”
Aqui, confesso que não resisti a introduzir um pouco de humor. A estranha expressão “monitoração deste fármaco” indica o quanto os autores do artigo estudado estão preocupados com o potencial lesivo da droga em questão, mas não ousaram sugerir sua retirada do mercado. Convenhamos: MONITORAR uma substância como se ela fosse uma criminosa em potencial…! Diante de tudo isso, sua RETIRADA do mercado me parece obrigatória. Afinal, há que resgatar o velho PRINCÍPIO de medicina: “primum non nocere” (antes de tudo, não causar dano).
TENTANDO INFLUENCIAR A EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO!
Costumo dizer: mais importante do que aquilo que nos acontece é o que fazemos com os acontecimentos! O PODER PÚBLICO (representado pela nossa JUSTIÇA) exerceu e, dadas as condições aqui discutidas, exercerá seu papel por muito tempo na vida dos envolvidos. Tendo eu trabalhado por muito tempo na assistência à população sob CUSTÓDIA por doenças mentais—fui Coordenador de Saúde do DESIPE-RJ—sei muito bem que muitas pessoas (e pacientes) precisam sentir o PODER DO ESTADO, especialmente quando este não perde a dimensão humana e se empenha na recuperação daqueles que deverá acompanhar de perto. Ficou muito evidente estar, há muito anos, a vida do paciente em questão um tanto “à deriva” e sem projetos. Esse foi, e é, o “caldo de cultura” para a maior parte dos males individuais e da sociedade. Talvez seja hora de cuidar para que não se perca o melhor momento para o início do processo de sua recuperação: reintegração familiar/social e retorno a atividades; apenas que em novas bases! INSTITUCIONALIZAÇÕES prolongadas, de todos os tipos, costumam ser desastrosas para quem sofre de algum Transtorno Mental. Não por acaso, Lima Barreto intitulou sua obra sobre o tempo passado em uma instituição psiquiátrica: “CEMITÉRIO DOS VIVOS”. Já o fundador da psiquiatria moderna, Emil Kraepelin, criou o conceito de “degeneração psicológica” para nomear a forma como o EU individual de cada paciente se deteriorava, depois de algum tempo nos asilos.
(CONTINUA)