DERROTAR A NATUREZA! LEMA DO FEUDALISMO-II
(Pavor generalizado promovendo submissão à igreja, condes, barões…)
Márcio Amaral (trecho do livro: “A MORAL E A ÉTICA NA FILOSOFIA”, a publicar)
O CANTO GREGORIANO quase aboliu ritmo e danças a partir do séc. VII (papa Gregório Magno). Foi uma espécie de “fundo musical” do período posterior ao “Inverno Vulcânico” que arrasou a Europa após a explosão do Vulcão Krakatoa (535dC, ver texto anterior). Somente através do ASCETISMO: “renúncia aos prazeres carnais em busca da perfeição moral”, a humanidade seria salva de outro colapso! Havia que “derrotar a natureza” também em nós…!
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Durante a I. MÉDIA: “…camponeses…erguiam diques, derrubavam florestas, construíam canais e estradas…A Europa moderna é criação sua…Venceram a…natureza, erguendo os alicerces econômicos da vida moderna…No fim da I. Média, todo o continente fora conquistado…(Will Durant “A Idade da Fé”).
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NOTA: O academicismo precisa de passos seguros, quase sem riscos. Considerando que as mais importantes descobertas decorreram de ousadias (a partir de fundamentos ou de sua procura), enfrentemos os riscos! O pavor ao erro tem feito com que os “aprisionados pelo academicismo” se limitem a discorrer sobre o conhecido; mais reproduzindo crenças do que produzindo conhecimentos. Sim! Sinto algum incômodo em “caminhar” sobre associações excessivamente fluidas. Por outro lado, bem pior seria me furtar a dar curso a observações que muito me impressionaram. Não me limito a quaisquer das expressões do academicismo universitário (o que muito me prejudicou), por isso gosto de lembrar que 3 dos pensadores que mais aprecio: Leibniz, Nietzsche e Schopenhauer, não couberam no formalismo academicista das Universidades: o primeiro sequer aceitou convites; os outros dois não tardaram a romper com elas. Já Kant e Hegel se adaptaram muito bem! No mínimo há aqui muitas informações que podem permitir outras associações. Inspirando-me em LEIBNIZ, repito: “…Bacon elaborou normas para experimentação…Boyle demonstrou talento ao pô-las em prática. Todavia, se delas não forem tiradas as consequências acertadas, não se chegará àquilo que pessoa de grande penetração poderia descobrir sozinha”(“NOVOS ENSAIOS” IV-XII)
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FEUDALISMO: UM “DEGRAU” NA EVOLUÇÃO ECONÔMICA?
Por longo tempo, os intelectuais da área, especialmente os de formação marxista, julgaram ser o feudalismo uma espécie estágio imprescindível no caminho das sociedades até sua substituição pelo poder da burguesia. Era uma submissão ao POSITIVISMO. Hoje não se pensa mais assim; e foi um admirador de K. Marx quem o demonstrou. Essa hipótese implicaria “…considerável simplificação do pensamento de Marx e Engels, reduzindo as principais formações econômico-sociais a uma simples escada que todas as sociedades humanas teriam que subir, degrau a degrau, em diferentes velocidades…Sem comprovação científica” (“Formações Econômicas Pré-Capitalistas”, Eric Hobsbawn). O feudalismo só não foi uma “exclusividade” europeia, pois algo semelhante se passou no Japão, em um processo que ficou conhecido por:“…Período Asuka, que durou de 538 a 710 d.C., reconhecido como de transição para o feudalismo” (Wikipedia). Há que assinalar (apenas para registro) a coincidência do período em relação à catástrofe que se seguiu à explosão do vulcão Krakatoa (535 dC). Não encontrei, nesse caso, registros para crises socais da gravidade das documentadas no Ocidente, mas estou certo de que mudanças tão sérias não se fazem apenas por capricho.
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Se a tendência ao feudalismo já avançava no ocidente havia algumas décadas, os acontecimentos aqui narrados e o desespero das populações com a falta de alimentos, certamente exerceram um papel importante na sua consolidação. Havia que, antes de tudo: 1- produzir alimentos; 2- fugir de aglomerações (cidades) que propiciavam contágios pelas pestes que se seguiram. Uma coisa é certa: desde então, foi desencadeado um processo de derrotar a natureza visando seu domínio e controle: “…No começo da I. Média a maior parte do solo europeu era constituída de florestas despovoadas e agrestes…No fim, todo o continente havia sido conquistado… (Foi) a realização mais vital da IDADE DA FÉ” (Will Durant “A Idade da Fé”). Desde então, essa vingança contra a natureza parece nunca acabar. Não por caso, os lenhadores e os caçadores foram os “heróis medievais”, cantados em prosa e verso. Será que precisaremos de outras tantas pragas e pestes para reaprender a respeitar a natureza? Sim, essas agressões à natureza foram, um dia, necessárias. Hoje, porém, essa mesma conduta se tornou uma ameaça até para nós. Apenas mais uma a expressão da força invencível da dialética, com seu choque permanente entre contrários.
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“RENASCIMENTO”…ADEUS ASCETISMO…!
O período que se seguiu, significativamente denominado RENASCIMENTO, foi marcado por uma “explosão da sensualidade”. A fênix da sexualidade, recém libertada, tornou a voar tomando especialmente as artes plásticas com sua exaltação do corpo humano e sua beleza. A “REFORMA” luterana foi uma reação contra essa tendência e as mulheres, especialmente a figura de Maria, suas maiores vítimas. Em relação à evolução da filosofia, porém, o processo de valorização da natureza (também em nós mesmos), só atingiria seu auge com o advento da vida e obra de M. de Montaigne (1533-92); auge esse nunca superado, como poderão ver no capítulo a ele referente. Já para a superação filosófica e fundamentada do ascetismo, a humanidade teria que esperar pela vida e a obra de F. Nietzsche (ver “A Genealogia da Moral”), ele mesmo de hábitos pessoais muito ascéticos.