EXPLOSÃO DO KRAKATOA (535 dC) E A “IDADE DAS TREVAS” (I)

(PAPA GREGÓRIO-I ajudou a reerguer a Europa da miséria e fome que se seguiram)
Márcio Amaral (trecho do livro “A MORAL E A ÉTICA NA FILOSOFIA”, a publicar)

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“O vulcão Krakatau…entre Java e Sumatra…sofreu um grande colapso por volta de 535 d.C. formando uma caldeira de 7 km de largura…”.

(Bulletin of the Global Volcanism Network, vol. 47, no. 5 2022 by A. Elizabeth Crafford.)

Como assinalei de início (no livro), não me senti em condições de discutir as obras dos pensadores medievais, o que não significa falta de interesse. Pesquisando sobre a expressão “IDADE DAS TREVAS” (em referência ao período medieval), deparei-me com aquele que teria sido um dos maiores desastres naturais da história da humanidade: uma erupção/explosão do vulcão Krakatoa, em 535 dC., que teria coberto a luz do sol por cerca de 18 meses, provocando uma catástrofe humana de proporções inimagináveis. O que dizer ainda do “inverno vulcânico” que se seguiu? O próprio FEUDALISMO, com seu esforço de derrotar a natureza teria sido uma consequência dessa catástrofe (ver na continuação) É bem conhecida uma outra dessas explosões na mesma região, em 1883. Seus efeitos foram também sentidos em todo o mundo, mas todos sabiam sua origem. Não deixava de ser uma “luz”. Já em relação a 535 e na Europa, tudo se reduziu a cinzas e trevas, agora constatadas também nas comunidades Vikings, segundo pesquisas recentes*. Até mesmo suas incursões na Inglaterra, França e outras regiões teriam também se dado em função da fome que também os atingiu.

AS TREVAS NÃO FORAM APENAS FORÇA DE EXPRESSÃO!

A caldeira por ela deixada teria sido muito maior do que a de 1883 (ver imagem) e é fácil imaginar as toneladas de dióxido de enxofre atiradas na atmosfera, provocando uma esterilidade generalizada e duradoura. A fome que teria provocado, sobre a qual há inúmeros registros (sem associação direta com o a erupção), pode ter sido o fator determinante no processo de reorganização social e econômica que se seguiu. Vi-me, então, obrigado e repensar os possíveis fatores que levaram ao “império do ascetismo” (abstinência sexual, culto à pobreza, sacrifício e privação) a partir da ascensão de GREGÓRIO-I (papado entre 590 a 604) e seu papel na superação da tragédia que se abateu sobre o ocidente: “Gregório-I foi um excelente administrador; reformou a administração pontifícia, cuidando para que os bens fossem utilizados com retidão e sem excessos.” Curiosamente, o que mais chamara minha atenção sobre o personagem tinham sido os “Cantos Gregorianos” com sua máxima simplificação da música (mais uma expressão do ascetismo?). Havia ali um esforço enorme (e mal sucedido) de abolir o ritmo e, em consequência, a dança, com sua sensualidade inevitável. Aqueles cantos, independentemente de sua beleza, soam como um gemido quase infinito, certamente expressando a situação do mundo. Tornou-se uma espécie de “fundo musical” para os séculos seguintes! Pairava no ar um sentimento de que somente o ASCETISMO poderia salvar a humanidade.

GREGÓRIO-I: ADMINISTRADOR R ATÉ CONTADOR!

E então, eu que (a partir de “A Genealogia da Moral” de Nietzsche) atacava o ascetismo e—em consequência, aquele que o levara às “penúltimas” consequências—descobri que, ao lado de sua teologia promotora das sombras e trevas nos séculos vindouros, demonstrou ser também um homem extremamente prático, com enorme capacidade de organizar esforços para distribuir alimentos e minorar as dores do povo desvalido. Até um esboço de contabilidade, nesse esforço de organizar as ações, ele teria conseguido executar. Seu ASCETISMO era, em verdade—em vez de algo gratuito ou tendo um fim nele mesmo—uma resposta à extrema penúria em que vivia a cristandade. Gregório chegava a dizer que não podia comer enquanto soubesse haver alguém que não o pudesse fazer. E eis que, dessa investigação, surgiu um grande homem: aquele que é capaz de desenvolver caminhos para enfrentar as situações mais difíceis por que passa uma comunidade qualquer. 

REVENDO RESENHAS DOS PONTIFICADOS DESDE ENTÃO!

Nesse esforço de associação entre a erupção de 535 e as trevas/inverno e fome que se seguiram, fiz a revisão das resenhas de todos os Pontificados a partir 537 DC. O método é discutível, mas deu resultados interessantes: verifiquei diversas referências a situações de fome generalizada, guerras e revoltas a partir de então. Eu, que já havia associado o início da “idade das trevas” a Gregório-I, vi reforçada a impressão, apenas que, agora, como uma consequência e não causa. Gregório-I nasceu em 540, sob o signo de uma “punição terrível”, uma espécie de “doença da Terra”. Nunca vivenciou algo diferente. A conclusão de estar em curso uma punição pela “devassidão humana” era quase obrigatória. O qu e dizer, ainda, da assim chamada “Praga de Justiniano” (Imperador de Roma entre 527-565), ocorrida em 541: “provocada pela bactéria Yersinia pestis que, mais tarde, causaria a Peste Negra…com impacto devastador: estimativas de mortalidade entre 25 e 50 milhões de pessoas”. Diante disso, é fácil entender a dificuldade da humanidade para superar esse medo de “novas trevas” (mesmo depois de superadas as condições que as geraram), e também a longa crença em um inferno físico no qual os “pecadores” seriam queimados pela eternidade.

REFERÊNCIAS SOBRE OS PAPADOS NO PERÍODO:

1- “…a população vivia na maior das misérias. O Papa Virgílio (538-555) tentou enviar navios carregados de trigo a Roma, (de Constantinopla), mas foram capturados pelo inimigo…”. ; 

2- “...Papa Pelágio (556-561) distribuiu a sua fortuna privada em benefício das vítimas da fome e esforçou-se para conseguir uma trégua junto do rei…“; 

3- “Papa Bento-I 575-579 (segundo o Liber Pontificalis) “…Em seu tempo a guerra trouxe a praga da fome: ‘houve tão grande miséria, que muitas fortalezas se renderam aos bárbaros, só por um pouco de alimento…'”…Justino-II (imperador de 565-578) fez mandar do Egito navios carregados de trigo'”;

4- “Quando Gregório tornou-se papa em 590, a Itália romana encontrava-se em ruínas…a cidade estava lotada com refugiados…nas ruas sem nenhuma condição de saúde ou alimentação…”.

O método aqui aplicado pode não ser muito confiável, mas a leitura das resenhas de dezenas de pontificados, entre 400 e 537 e entre 650 e 800, quase não fazem referência a miséria e fome. Além disso, há que inverter a equação causal de que as guerras teriam causado a fome. Provavelmente foi o contrário. Há outro caso paradigmático, a partir de uma seca extrema (por mais de 100 anos) na Era do Ferro (em torno de 1200 aC), quando os assim chamados “Povos do Mar” destruíram as culturas em torno do Mediterrâneo, provocando migrações para o Egito, com as águas do seu Nilo sempre fluindo**. Tendemos a reduzir o desconhecido para caber nos limites do conhecido: a guerra é velha conhecida da humanidade, já o que se passou nesses períodos estava muito para além da capacidade de compreensão. 

(continua: O COLAPSO DAS CIDADES: FEUDALISMO “DERROTANDO” A NATUREZA!

“…os camponeses…erguiam diques, derrubavam florestas, construíam canais e estradas…A Europa moderna é criação sua…Venceram a…natureza, erguendo os alicerces econômicos da vida moderna…” (“A IDADE DA FÉ” Will Durant)

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* O que chamam “Era Viking” teria sua origem bem anterior aos anos 600 d.C. (como se julgava anteriormente). Apenas teriam começado a invadir outras terras a partir de então, o que também é significativo.

**A grandeza do Império Egípcio teria resultado desse encontro de inúmeras culturas. Também a grandeza da cultura grega, atingida tempos depois, teria resultado do encontro entre inúmeras culturas. 

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