“DIAGNÓSTICO PRECOCE”: PERVERTENDO O SABER PSIQUIÁTRICO

(Aventureiros irresponsáveis lançando rótulos a rodo sobre a vida)

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Reduzir o “Burnout” a um mero esgotamento implica destruir o conceito. Se assim fosse, bastaria enviar a pessoa a um SPA. O termo, muito feliz por sinal, aplica-se a pessoas que sofreram uma espécie de “combustão dos valores”. Afinal, nossa vida é sustentada pelos valores que atribuímos às pessoas, projetos e coisas. 

“Fui gradualmente forçado a considerar a importância da EVOLUÇÃO…no processo de classificação dos transt. mentais”
(E. Kraepelin, “Memórias”)

NOTA: A observação da EVOLUÇÃO, implicando o que se passa APÓS a expressão plena dos sinais e sintomas, marcou o início da Psiquiatria como especialidade. Segundo os critérios de E. Kraepelin (1856-1926), nem diante de sinais e sintomas bem caracterizados, deveríamos precipitar “diagnósticos” para além da SÍNDROME (um dos seus conjuntos) expressão suficiente para o início de tratamentos. Cultivando a HUMILDADE perante o desconhecido, Kraepelin conseguiu organizar um saber que até hoje instrumentaliza intervenções bastante efetivas. Os “ignorantes pomposos” da época (há mais de 100 anos) apelavam a critérios moralistas e “localizacionistas” para criar seus rótulos sem lastro. Os de hoje (sob o patrocínio da mídia e seus patrocinadores), manipulam o desespero de famílias ávidas por respostas para seus dramas pessoais e familiares. Os transtornos que tanto propalam (ver ao final) existem mesmo, mas a não aplicação de critérios claros para o seu diagnóstico impressiona. Com isso e em muitos casos, atropelam os processos naturais de superação de conflitos, estigmatizando os “diferentes” em geral. Quem duvida de que está em curso, nas sociedades em geral, uma tentativa de padronização das expressões humanas?! Trata-se da expressão “moderna” do velho HIGIENISMO, agora de mais difícil caracterização, pois escondida sob a máscara da terapêutica. Se alguém ainda tem dúvidas quanto aos perigos dessa tendência, que observe a expressão utilizada nas escolas para caracterizar alguns de seus alunos: “Os que têm laudo!”

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ESPALHANDO ESTIGMAS SOBRE OS “DIFERENTES” EM GERAL!
Chega a ser irônico ver “aplicadores” de uma especialidade médica—que não dispõe de exames laboratoriais ou de imagem conclusivos para o diagnóstico dos seus principais transtornos—defendendo a precipitação de seus diagnósticos! Pior, chegando a dizer que o “Diagnóstico precoce de transtornos mentais garante qualidade do tratamento”*. Não duvidem, as únicas garantias que podemos oferecer são: dedicação, aplicação criteriosa do conhecimento acumulado e cuidados éticos. Há que repudiar qualquer outro tipo de GARANTIA nesse tipo de intervenção. Estaria eu dizendo que a Psiquiatria é inefetiva? NÃO…desde que seus profissionais estejam imbuídos da HUMILDADE imprescindível e consigam lidar bem com dúvidas, inevitáveis durante todo o processo. O saber psiquiátrico é, sim, muito efetivo, assim como seus instrumentos terapêuticos que associam psicoterapia e psicofarmacologia. Por isso mesmo, tem despertado enorme interesse e, em consequência, atraído todo tipo de aventureiro ávido por fama e sem formação digna do nome; daqueles que se “atualizam” através dos próprios laboratórios, muito interessados na aplicação dos tais “diagnósticos” e na venda de seus produtos.

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INFORMAÇÃO…CONHECIMENTO…SABEDORIA…!
Trata-se de uma distinção interessante:
1-A mera INFORMAÇÃO, isolada, sem correlações e referências, só tem alguma serventia para questionar aqueles que (teoricamente) deveriam ter o conhecimento específico. Quando levam a alguma “conclusão”, o resultado é confusão. 
2- O CONHECIMENTO implica desenvolvimento e preparo para intervenções PROFISSIONAIS em áreas específicas, com repercussões para outras áreas, segundo o PRINCÍPIO de GW LEIBNIZ: “O conhecimento é um oceano único!”. Afinal, tudo é ligado na natureza, como os oceanos (e suas águas).
3- Já a SABEDORIAimplica humildade diante da nossa ignorância. Quem duvida de que quanto mais conhecemos, mais nos damos conta do tanto ainda a conhecer? É o “item” que mais tem feito falta na medicina, em geral, e na psiquiatria em particular. A situação é tão delicada que cunhei uma máxima: acertar na clínica implica caminhar entre 2 erros, priorizando a investigação que evita o erro de piores consequências e fazendo correções de rota dependendo do que vamos caracterizando. Dou um EXEMPLO: diante de paralisia em um dos membros, por mais que a aparência seja de um transtorno conversivo, somos obrigados a investigar (de imediato) possíveis causas neurológicas. Em não as encontrando, ainda assim, não podemos concluir tratar-se de uma conversão apenas pelo critério “negativo” (não tem isso e aquilo, logo…). Há que procurar pelas manifestações típicas nesses casos: sugestionabilidade, exageros na expressão, conduta sedutora e infantilizada.

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OS MALES DO ATROPELO…ATRAPALHANDO INTERAÇÕES!
“O que mais interessa em um juízo qualquer não é se ele é verdadeiro ou não, mas se é EDIFICANTE!” (Nietzsche, “A Verdade no Sentido Extra-Moral”)
Aquilo de que as crianças e jovens (mas não somente) mais precisam, particularmente nos seus momentos mais delicados e difíceis, é de um olhar de confiança, especialmente de pais, substitutos e professores. Um dos piores desastres é o de pais que, diante dos fracassos de seus filhos, dizem (afetando capacidade premonitória): “Eu sabia!” ou “Eu não disse?”. Trata-se de uma PROMOÇÃO dos fracassos, não uma premonição. Outro risco é o de atropelar as próprias capacidades dos jovens—-através de intervenções desastradas—na sua busca por novos caminhos. E é esse olhar que vem sendo corrompido pela precipitação irresponsável de “diagnósticos” sem fundamentos razoáveis e bons critérios de aplicação, com os quais se oprimem mentes incautas. Desesperados com situações com as quais não conseguem lidar e ávidos por respostas, pais manipuláveis se agarram àquilo que pode ser sua perdição. Há que desconfiar da aplicação de TODOS os “diagnósticos da moda” e de médicos que tudo fazem para ver seus nomes nas telinhas. Se há uma atividade que com modas não combina, esta é a boa medicina.  

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ALGUNS DIAGNÓSTICOS “DA MODA”: SEU VALOR E RISCOS!
Desde que partamos de PRINCÍPIOS e de sua boa aplicação, não precisamos ser “superespecialistas” (todo cuidado com eles é pouco) para tecer considerações a respeito:
1- TDAH (Transt. por Déficit de Atenção e Hiperatividade): sua manifestação cardinal é a incapacidade para focar a atenção em qualquer atividade, e não apenas nas atividades intelectuais propriamente ditas, como vem sendo considerado. Não devemos esquecer de que, no desenvolvimento de nossos talentos, tudo se inicia pelos sentimentos (ou afetos): é o prazer (ou o medo, como no caso do adestramento de animais) que promove o foco da atenção sobre sua origem levando aos registros mnêmicos posteriores e ao desenvolvimento de capacidades. A pior fonte de erros, na aplicação daquele diagnóstico, é a tomada do desempenho escolar como principal ou única referência de adaptação e desempenho de uma criança. As crianças podem ter fortes razões para não suportar os bancos de escola. Ouvi do pai de uma ginasta brasileira, muito famosa, a seguinte sentença: “Ela quebrava todos os móveis da casa pulando prá lá e prá cá. Um dia alguém me sugeriu sua matrícula na ginástica….”. E que não me venham duvidar da necessidade de focar a ATENÇÃO naquela atividade. A hiperatividade, por si só, não autoriza a atribuição daquele diagnóstico. Há muita vida, prazer e POTÊNCIA para além dos bancos escolares!

2- ESPECTRO AUTISTA: sempre apreciei o conceito de “ESPECTRO”**, mas seu uso sem critérios tornou-o mais um problema do que uma solução. A última que ouvi de gente da área foi: “todo mundo tem um pouquinho de autista”! Aqui as coisas se complicaram muito, especialmente pela falta generalizada de critérios e pelos “benefícios” (imediatos, mas potencialmente desastrosos para a vida de alguém) que o “diagnóstico” tem implicado. A maior exigência que a SOCIEDADE deve fazer aos que se dizem especialistas da área é a produção de um CONSENSO quanto aos PRINCÍPIOS aplicados e a aplicação de critérios restritivos.

3-BURNOUT”: aqui o erro fundamental é sua confusão com o simples ESGOTAMENTO ou EXAUSTÃO. Nesses casos, bastaria a pessoa ir a um SPA e tudo estaria resolvido. É bom lembrar de que a palavra “STRESS” (típico do simples esgotamento) tem sua origem na Engenharia: “Stress do material”, excesso de peso sobre uma coluna, por ex. O termo “burnout” (combustão ou incêndio) foi de uma felicidade extrema e precisamos estar à sua altura. Implica uma espécie COMBUSTÃO DOS VALORES (e do sentimento de potência) de alguém. É sempre bom não esquecer de que nossas vidas são sustentadas por VALORES e certamente não os contábeis. A condição foi primeiro descrita (1974, H. Freudenberger) entre pessoas que trabalhavam com usuários de drogas. Sua expressão implicava “…três dimensões: exaustão emocional (sensação de esgotamento de recursos físicos e emocionais), despersonalização ou cinismo (reação negativa ou excessivamente distanciada…e baixa realização pessoal (sentimentos de incompetência e de perda de produtividade)”. Isabela Vieira e Jane Russo, ver em:
https://www.scielo.br/j/physis/a/57RLsw3NPS4YRKzMLHPGyTy/?format=pdf
         Dou um exemplo com um caso do IPUB (década de 1990): um gerente de banco, de origem humilde e extremamente dedicado—que galgou todos os postos com o maior sacrifício—foi sequestrado (em casa, com mulher e filhos) e obrigado a abrir o banco. Na investigação do assalto, tornou-se ele o maior suspeito. Depois de muita humilhação, foi inocentado, mas afastado da atividade. Foi quando veio a “combustão” de seus valores, projetos e POTÊNCIA, até porque, aquela atividade estivera no centro de sua vida. Não é demais dizer que a associação de CINISMO*** na sua expressão é critério muito importante.

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*https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/diagnostico-precoce-de-transtornos-mentais-garante-qualidade-do-tratamento/30951
** Parte do princípio de que algo que julgávamos único é, em verdade, constituído de múltiplas gradações. Seu melhor exemplo é o da luz que se apresenta branca até ser passada através de lentes que separam os raios que a compõem. Ou seja: não é uma COMPOSIÇÃO ou AJUNTAMENTO que geram aleijões conceituais. Aplica-se, sim, ao Autismo, mas quanto “ajuntamento” sem critério tem a ele sido acrescentado!
***No sentido da escola filosófica da decadência grega, cujos membros cultivavam a indiferença perante as situações mais dramáticas da vida: “…a apathheia” perante as vicissitudes da vida eram os ideais do cinismo”. Seu tratamento é muito mais difícil e complexo do que o das depressões.

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