QUINTANA E A MAIS INGÊNUA DAS CIRANDAS!

Quadro de ARACY (naif): Essas muitas RODAS CONCÊNTRICAS DE CIRANDA foram o que mais imaginei para as areias de Copacabana nas viradas de ano. 

(Quintana cantando…sentindo e poetando como um menino)

Márcio Amaral (arranjo musical de Vandré Vidal)

“Em verdade vos digo que, se não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Cristo: Mateus 18-3)*

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SONETO XXIV DO CICLO “A RUA DOS CATAVENTOS”
A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo, cantava…

Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo…
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo…

E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo…
E quando a ciranda por fim terminava

E o silêncio, em tudo, era mais profundo,
Nosso Senhor esperava… esperava…
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

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Nas primeiras leituras do poema, considerei-o simples demais; até por sua tendência à repetição e inversões. Repetições, em poesia, implicam MÚSICA…mais especificamente, como M. Bandeira já o dissera. Bastou que me viesse a melodia para que tudo ficasse claro (para mim, é claro): mais uma vez, o menino Quintana tomara posse do poeta, da caneta e escrevera outra maravilha. Bandeira sintonizara com seu “… menino que sustenta esse homem/O menino que não quer morrer,/Que não morrerá senão comigo…” (“Versos de Natal”); mas Quintana conseguiu SER sempre o menino que um dia fora…ali estava o seu bem maior.

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Uma CIRANDA rodando é sempre o meio do mundo…pelo menos para os que ali rodam, especialmente para as crianças…ou adultos que conseguem sintonizar com as crianças que os sustentam. Naquele momento, a ciranda é uma espécie de “umbigo do mundo”, como os povos andinos lidavam com CUSCO (na língua quéchua). Aliás, qualquer espaço-cenário-palco para algo sentido como transcendental, nos sentimentos e nas artes, torna-se um “centro do mundo” em torno do qual tudo como que gira. Já o “fim do mundo”, na infância, costuma ser o para além de montanhas ou mares. Para mim era para lá de um morro no qual findava minha rua no “Pé Pequeno” em Niterói. Mas ali, para o menino Quintana, esse fim do mundo era só algumas quadras adiante…onde tudo haveria de como que afundar num valo profundo. 
Enquanto isso “Nosso Senhor”…à distância, cuidadoso e “cuidando o seu mundo”, sem interferir ou atrapalhar (o Deus da “Harmonia Pré-estabelecida” de GW Leibniz?)…Esse seria o Deus dos sonhos de quase todos**, exceto para aqueles que usam a imagem de um Deus atuante e ameaçador no cotidiano para justificar (em paralelo) o poder de reis e seus derivados igualmente espúrios.***. 

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E A BARBA DE PEDRO II?
Enfim…não posso deixar de dizer algo sobre um grande personagem da nossa história. Andam tentando apequenar Pedro II (sempre voltado a grandes causas). De uma coisa, porém, a ninguém é dado duvidar: o amor que a gente simples do povo lhe dedicava. Não conheço paralelo no mundo e a ausência de muros altos, seteiras, pontes levadiças, jacarés (e outras proteções contra o povo e contra o mundo) nas suas moradias sugerem que havia alguma harmonia por aqui…até que veio o primeiro golpe militar e seus múltiplos massacres.

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*“Quando menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino…logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (S. Paulo, Coríntios- versículo 11). Quanta distância para Cristo! Seria Saulo/Paulo um cristão?
**Todos os que sofreram com a impaciência dos pais e outros “poderosos”, um dia sonharam com outros que simplesmente esperassem… esperassem…com um olhar de confiança.
***“…o grande segredo do regime monárquico…é manter os homens enganados e disfarçar, sob o especioso nome de religião, o medo…para que defendam a servidão como se fosse salvação e acreditem que não é vergonha, mas a maior das honras, dar o sangue e a alma pela vaidade de um só homem” (B. SPINOZA: “Tratado Político Teológico”).

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