B. PASCAL E A IMAGINAÇÃO: ADEUS “INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL”!

(Por que os poderosos do mundo tudo fazem para embotar nossa imaginação?)

NOTA: Segundo sua irmã e mais para o fim da vida, PASCAL (1623-62) teria passado a mortificar a própria carne com um cinto de cilício que apertava com o braço sempre que era tomado por algum prazer ou “mau pensamento”. A sentença de Lutero: “Você não pode impedir que as aves de mau agouro voem sobre sua cabeça; não deve permitir que elas nela façam ninho”, certamente o teria ajudado. O pior de todos os medos talvez seja o de nós mesmos; como podemos observar nas pessoas que sofrem de T. Obsessivo Compulsivo (trecho do livro “A MORAL E A ÉTICA NA FILOSOFIA” em vias de conclusão)

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“A imaginação tem todos os poderes do mundo: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes” (Pascal:)

Não restam dúvidas de que a imaginação é o instrumento que pode nos conferir “todos os poderes do mundo”, apenas que do mundo HUMANO; do nosso mundo individual. Basta lembrar de que não somos máquinas de registros frios e “perfeitos” do experimentado para que a sentença ganhe a sua dimensão. Tudo, em nosso caso, passa por uma atuação, intencional ou não (na maior parte das vezes). Costumamos pensar em atuação apenas quando dependente de intenção específica e racional. Se assim fosse, morreríamos bem antes do que costuma acontecer, tantas são as atuações salvadoras e “não intencionais” que nosso corpo promove, seja através dos reflexos (caso mais típico e demonstrável), mas também da integração de imagens fora do foco de nossa visão e ainda dos sentimentos disparados intuitivamente que desmascaram intenções malévolas disfarçadas. Quando lembramos, ainda, que a consolidação da memória (implicando criação de narrativas) se dá principalmente nas fases mais profundas do sono; fases essas associadas à ocorrência de sonhos, a influência da nossa imaginação, em todas as nossas funções mentais, ganha uma dimensão ainda maior. Ela é tão poderosa, que precisamos desenvolver um esforço contínuo e respeitoso de disciplina e método no sentido de alguma criação: de todos os tipos, independentemente de seu alcance.

Curiosamente, quando assinalou ter a imaginação “todos os poderes do mundo”, Pascal antecipou a desmistificação da muito mal denominada “inteligência artificial”. Sem a imaginação, ela é quase nada. Seu melhor destino há de ser tornar-se nada mais do que um instrumento das inteligências verdadeiras, mais ou menos criativas e dotadas de imaginação. Para demonstrar o quanto a imaginação tem papel determinante em todas as nossas atividades, deixemos as artes de lado e olhemos apenas para aquele que é tido como o mais racional de todos os campos do conhecimento humanos: a matemática. O que são todos os seus símbolos senão frutos de nossa imaginação? Existem eles na natureza ou foram criados pela imaginação de maneira a possibilitar nossa atividade mental na procura por relações entre objetos e fenômenos da própria natureza? Convençamo-nos: sem a imaginação seríamos um quase nada. Para que a tal IA consiga se aproximar do que se passa na mais simplória das mentes humanas seria necessário que essa mesma mente se rebaixasse mais e mais. Talvez seja esse o principal esforço em curso no mundo por parte de grupos que controlam as sociedades: embotar nossa IMAGINAÇÃO. Afinal, dela depende nosso esforço por INDIVIDUALIZAÇÃO E AUTONOMIA.

Mas essa relação entre razão e imaginação ganhou contornos ainda mais dramáticos, como quando Pascal afirmou: “A razão, por mais que grite, não pode negar que a imaginação estabeleceu no homem uma segunda natureza”. Haveria nisso um reconhecimento de derrota? Provavelmente, mas seria necessário também inverter a ordem dos fatores, afinal, a imaginação é anterior à razão propriamente. A rigor, podemos pensar que a imaginação foi até mesmo a responsável pelo desenvolvimento da razão, em um contraponto muito enriquecedor. Nesse caso, a razão estaria sempre um tanto atrasada e, por isso mesmo, muito longe de ser nossa “primeira natureza”. É o que se depreende de outra sentença de Pascal, essa muito repetida: Um coração tem razões que a própria razão desconhece”.Parece ele estar em luta permanente contra a apologia da razão pelos cartesianos, talvez porque nela visse um perigo para o Deus cristão: “É o coração e não a razão que sente a Deus. Há verdades que são sentidas e verdades que são provadas…conhecemos a verdade não só pela razão, mas pela convicção intuitiva…A verdade pode estar acima da razão e não ser contrária a ela”.Estaria Pascal tentando resgatar a metafísica, tão abalada por Descartes, pelo avanço da investigação científica e da experimentação em geral? Nesse sentido, um trabalho mais consequente e fundamentado teria que esperar por algumas décadas até a publicação do “Discurso da Metafísica”, por Leibniz, em resposta ao “Discurso do Método” de Descartes, em cujos “princípios” encontrou erros fundamentais, como veremos adiante (no livro). 

IMAGINAÇÃO…DOPAMINA…EXERCÍCIO DA POTÊNCIA!

Associar a DA diretamente ao prazer e à recompensa implica amesquinhar o processo que (ao que tudo indica) é por ela intermediado. E foi esse espírito midiático, contaminando até pesquisadores ávidos por fama, que ajudou a promover o uso perverso de substâncias que a liberam de várias formas. Pensemos em todos os nossos projetos e planos! O que os mantém ativos em nossa mente, por vezes até a nossa morte, sem que a recompensa nos chegue em vida? A resposta é simples: a imaginação. Esse tipo de recompensa se daria perante o mais importante de todos os “tribunais”: o da nossa própria autoestima. Vejamos o caso de Moisés: o que seria a Terra Prometida (na qual ele nunca entrou) perante aquela por ele mesmo imaginada? Sua própria luta, naquela bela e dramática caminhada, implicava, ela mesma, a maior de todas as recompensas, sempre associadas à sensação de POTÊNCIA. E como ele exerceu essa potência, segundo PRINCÍPIOS e de forma inclusiva! Assim, e homenageando a lucidez de Pascal, tudo começa pela imaginação e é por ela sustentado, especialmente nos nossos momentos mais difíceis.

Em relação aos nossos projetos e de forma um tanto esquemática, diria: 1- o que chamamos inspiração, para alguma realização, se inicia por imaginaçãoassociada à liberação de DA2- durante todo o desenrolar do processo de execução (no qual a razão se esmera em tornar possível o que foi imaginado), é também a imaginação que nos “catapulta” (em um processo de “realimentação” de ânimo e disposição) permanentemente à possibilidade de um possível final mais ou menos feliz; 3- considerando ter ocorrido um sucesso na empreitada, a DA passaria ter o papel de consolidação dos caminhos percorridos, através dos vários tipos de memória de que somos dotados (declarativa ou não e outras). É o que chamamos “adquirir experiência”. Até aqui, tudo o que foi dito se refere ao sentimento de POTÊNCIA. Já a relação da DA com a recompensa precisa ser demonstrada. Em alguns casos, o sucesso pode ser acompanhado até de uma espécie de luto. As tentativas da precipitação do que chamam recompensa têm resultado em desastres de toda natureza. Em homenagem a Pascal e Nietzsche, cujo “encontro” consegui aqui promover, precisamos tentar estar à sua altura.

Muitas das formulações de Pascal são fundamentais nas reflexões sobre MORAL e ÉTICA, como por exemplo, quando afirma: toda virtude se apoia em dois vícios! Tentar arrancar um deles faria com que caíssemos no outro. Estamos diante de um primor de abordagem DIALÉTICA do mundo, com a qual os positivistas deveriam aprender. Suas mentes toscas e seu afã de controlar os demais, porém, acabam por predominar na abordagem da vida. Na sua vida pessoal, porém, Pascal não conseguiu aplicar esses mesmos princípios. Sua condenação a todo prazer e às conquistas, amorosas ou não, paralisou investigações cujos lampejos a nós chegaram através de PENSAMENTOS rascunhados sem objetivo específico de publicação: “Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne…”Segundo sua irmã (uma freira) ele teria morrido virgem: “Fora, até então, preservado…de todos os vícios da mocidade”. Não é muito razoável, porém, acreditar em afirmações de uma irmã, especialmente com a formação que tivera. A procura da “perfeição” é receita garantida para os piores sofrimentos, ao próprio e aos que o cercam.

Falar em superioridade de uma religião sobre outras costuma ser algo completamente distorcido. Quando, porém, essa superioridade é defendida em função da valorização desta vida (a única garantida e de todos nós), conquista toda a minha simpatia. É o que se passa quando Pascal afirma que a valorização do PRÓXIMO implica uma superioridade do cristianismo em relação às demais religiões. Afinal, como ele mesmo afirma, todo tipo de abuso já teria sido cometido “em nome de Deus”. Muito significativamente, as correntes “cristãs” ditas PENTECOSTAIS não se referem ao PRÓXIMO. Contrariamente, tornaram-se um instrumento de opressão de outros povos para tomada de suas terras. Já por aqui, certo dia vi um caminhão em cuja traseira estava escrito:

“Procurei por mim mesmo e não me encontrei.

Procurei por Deus e não O encontrei.

Procurei pelo PRÓXIMO e encontrei os TRÊS”.

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