QUINTANA: MARCHA FÚNEBRE PARA REENCONTRAR UM AMIGO

(Arte pessimista…? Não há! A arte sempre afirma da vida)

“E, apenas onde há vida há também vontademas não vontade de vida,e sim...vontade de poder”. Zaratustra

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Nevoeiro por Mario Quintana

“– Parece que estiveram passando borracha na paisagem.” 

SONETO XII DO CICLO “A RUA DOS CATAVENTOS”

Vontade de escrever quatorze versos… 
Pobre do Poeta!… É só pra disfarçar… 
Andam por tudo signos diversos
 Impossíveis da gente decifrar. 
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 Quem sabe lá que estranhos universos 
Que navios começaram a afundar… 
Olha! os meus dedos, no nevoeiro imersos, 
Diluíram-se… Escusado navegar! 
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Barca perdida que não sabe o porto, 
Carregada de cântaros vazios… 
Oh! dá-me a tua mão, Amigo Morto! 
………………..
Que procuravas, solitário e triste? 
Vamos andando entre os nevoeiros frios… 
Vamos andando… Nada mais existe!…

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VONTADE é uma das palavras mais afirmativas da língua portuguesa. Não apenas por suas implicações, mas também por sua sonoridade. Seu uso em um poema, que fala de um movimento intencional em direção à morte gera uma aparente contradição só resolvida pelo sentimento de uma transição muito natural entre a vida e a morte. É o que explica o plural em “Vamos andando entreos nevoeiros frios”. Afinal, e para quem está em um nevoeiro, ele é sempre único. Assim, a distinção entre a vida e a morte seria nada mais nada menos do que uma “troca de nevoeiros”. Quando da primeira leitura, julguei que a o plural se dera em função de alguma rima, artifício frequente em poesia. Tolice! Quintana está muito para além de artifícios…Ainda mais poesia sobre o que era já extremamente poético. Todo o soneto, até ali, com seus “…signos diversos/Impossíveis da gente decifrar…”, preparava essa longa transição até o reencontro com o amigo morto. E então, mais uma afirmação da vida em “Vamos andando…”. Tudo coroado pela maior sensação de interesse sobre algo ou uma pessoa: “Nada mais existe”.

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TRANSITANDO ENTRE A VIDA E A MORTE: TEMA RECORRENTE!
Quem é que me espera,/Que ainda me ama,/Parado na beira/do Cais do Outro Mundo? (“O Cais”)

Se eu já afirmara não existir arte pessimista, faço-o de novo e agora com muito mais convicção. Afinal, passar a um “além da vida” para encontrar um amigo morto e com ele caminhar por entre nevoeiros frios é o máximo dessa afirmação. Por isso, aquele esforço que tenho feito de entender os porquês da inspiração musical que me atingiu para cada soneto, aqui não me pareceu necessária. Ela me veio desde o primeiro verso, bem antes das associações aqui expostas. O que dizer da redução da vida a números—os 14 versos do soneto—tão frequente no “nevoeiro de cá”: na nossa vida cotidiana e até por parte dos muitos “cientistas” reducionistas? Era um prenúncio do caminho até a morte. Quintana,  porém, não o repudia, como Augusto dos Anjos: < i>”…é esse danado número Um/Que matou Cristo e que matou Tibério!”. O “só prá disfarçar” teria sido a a partir da RAZÃO fria (como parece) ou seriam expressão dos próprios SENTIMENTOS ávidos por tudo experimentar…de nada fugir…quem sabe antecipar? Terminemos aplicando a Quintana as palavras do poeta Charles Baudelaire dirigidas a um outro artista:“…um homem-criança…dominado…pelo gênio da infância, um gênio para o qual nada é indiferente” (“Sobre a “Modernidade”). Uma criança capaz de imaginar até mesmo um além da vida, independente de religiões..

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