QUINTANA: UM TANGO PARA UM SONETO
(A inspiração que um rio, um choro e um canto podem provocar em um poeta)
Arranjo de VANDRÉ VIDAL, músico, musicoterapeuta, fundador dos “CANCIONEIROS DO IPUB”.
SONETO XII DE “A RUA DOS CATAVENTOS”
Tudo tão vago… Sei que havia um rio…
Um choro aflito… Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
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O Menino dormira… Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
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E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria, junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…
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Eras tu… que ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…
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A inspiração para a canção me veio enquanto ouvia “Oblivion” (“Esqueço”) de A. Piazzolla com Yamandu Costa e Richard Galliano. Lembrei-me, de imediato, do soneto de Quintana, mas ali todo o esforço é exatamente o contrário: de lembrar>reviver>imaginar; em um enriquecimento enorme! Havia uma afinidade impressionante entre os dois poemas, apenas que a partir de contrários: a mesma atmosfera fluida inicial com resultados opostos. E então me veio a exclamação, em melodia, do primeiro verso do SONETO que foi se desenvolvendo muito impregnada pela canção inspiradora, mas com autonomia, julgo eu. Não consigo imaginar algum acompanhamento sem o espírito daquela gravação. Se me fosse dado escolher apenas UM poema de Quintana para me acompanhar à eternidade, seria esse.
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“OBLIVION”: MÚSICA, POEMA E FILME!
A canção “Oblivion” foi tema de um filme e a origem da sua letra é um tanto obscura. Seu original, apresentado em francês, tem afinidades surpreendentes para com o soneto de Quintana: iniciado por “Tudo tão vago…”, já nos versos de “Oblivion”…: “Tout devient flou” (“Tudo se torna vago”). Mas Quintana parte do “Tudo tão vago” para uma plenitude de difícil descrição, enquanto em “Oblivion” as recordações vão como que se esvanecendo e as ligações se perdendo. Em Quintana tudo é reencontro, depois de passar pelos LUTOS (bem para além de simples dores) inevitáveis e enriquecedores; aqueles que “trabalham” em nós para fixar e consolidar os objetos perdidos do amor. E tudo isso desperta com um choro infantil; um rio…a correnteza…o canto…natural como as águas…em seu curso. E o poeta, em estado muito especial de consciência* “embarca” nas mais belas e líricas associações que podemos imaginar: a voz da mãe; Maria lavando as roupas de Jesus menino e, por fim, a voz da amada morta a acalentar, do céu, seu sono.
Em “Oblivion”, contrariamente, os objetos do amor vão se esgarçando progressivamente**… como se restasse apenas a esperança do seu esquecimento para fugir da dor. Não nos desesperemos, porém! Trata-se do primeiro momento de uma perda e de um luto sentido como quase mortal. De início, todos tentamos deles nos defender através da negação. A arte benfazeja haveria de fazer a sua parte também no Oblivion! Não para “espantar” a tristeza (“Quem canta…”), como no dito popular e na marcha de carnaval, mas para vivenciá-la na plenitude. Há que aprender, com Quintana, a não fugir das dores, antes tentar lhes dar uma dimensão estética; cada um segundo as suas possibilidades. Nosso poeta não quer espantar dor alguma. Pelo contrário, quer sofrer cada uma delas na sua plenitude para integrá-las todas. Afinal, como disse seu grande amigo Manuel Bandeira: “…a saudade/É um bem maior do que a felicidade/Porque é a felicidade que ficou”
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*Escrever poesia no que é conhecido por “estado segundo” da consciência (hipnoide) é uma constante em QUINTANA. Quem sabe esse é o segredo da sua beleza e profundidade?
**”Quando eu me esquecer de amar o nosso amor…./…As pessoas se separaram, eu esqueço, esqueço (Les gens se séparent, j’oublie, j’oublie)…./Tudo se torna vago/E eu esqueço, esqueço/….Em uma plataforma de trem, eu esqueço, esqueço…” Falas como essas,….em uma plataforma de trem, fazem pensar em alguém à beira do SUICÍDIO. O sentimento de VAZIO talvez seja aquele mais associado ao ATO…bem mais do que as DORES…inevitáveis quando se ama.