A. FREUD: APOLOGIA DO SUPEREGO E CULTO À SUBMISSÃO!

(Desprezando a clarividência de um menino de 8 anos…!)

“Maturidade: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar” (“Além do Bem e do Mal”)

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NOTA: Trata-se de trecho de livro a ser publicado: “A Moral e a Ética na Filosofia”. Antes de Freud, a expressão “consciência moral” era aplicada para a instância psicológica responsável por inibir algumas condutas. É bem mais interessante, pois indica algo entranhado em nós e a ser cultivado. Mas não tem o mesmo apelo que o termo “superego”, que sugere algo acima de nós; não de todo incorporado e, por isso mesmo, mais frágil, como bem o demonstrou o colapso da “educação prussiana”

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ANNA FREUD (1895-1982)

Um estudo sobre “Introdução à Psicanálise para Educadores” (EDIT. PAIDÓS, B. Aires 1950). Ano de publicação, 1930″.

Costumamos associar o nome de S. FREUD, à conquista de maior autonomia individual e coletiva. Não é o que resulta da apologia da submissão aos poderes constituídos feita por A. Freud (1895-1982), para quem aquela consciência (superego): “…Não é mais do que a sucessor da voz paterna…atuando a partir de dentro. Por assim dizer, o menino a teria ingerido…passando a ocupar um lugar privilegiado no seio de seu próprio eu…uma espécie de ideal ao qual está disposto a se submeter.” Não há ali qualquer palavra ou movimento apontando para, em algum momento, sua superação. Sua contestação por Melanie Klein abriu novos caminhos à psicologia infantil, especialmente quando esta repudiou o esforço de submeter as crianças ao superego e elegeu o ATO DE BRINCAR como a máxima expressão em uma criança. A obra aqui discutida é de 1930 e o espírito nazista já avançava sobre todas as expressões dos povos germânicos.

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A. FREUD E SUA PRÓPRIA PRISÃO AO PAI!

“Quero perder de vez tua cabeça/Minha cabeça perder teu juízo…”(CÁLICE, Chico Buarque e M. Nascimento)     

Em certo momento, a pobre A. Freud parece estar falando dela mesma e de sua própria submissão ao pai: ”…Durante o resto de sua vida, o pobre EGO do menino tem que se esforçar por cumprir as exigências desse SUPEREGO”. Às pessoas que quisessem avançar em suas vidas restaria apenas buscar uma “satisfação interior” pelo “beneplácito do superego sempre que se submetesse à sua vontade”Mas as bases desse processo extrapolariam, em muito, as relações familiares, sendo sentidas na própria educação e no papel dos educadores: “O mestre…enquanto tem em suas mãos a condução de um grupo, assumirá, frente a cada um de seus integrantes, o papel de seu respectivo superego, adquirindo o direito de os submeter à sua vontade”.  Complementando essa seção, veio a formulação das bases nas quais o NAZISMO foi edificado: ”…se o mestre consegue se converter em um superego comum; no ideal de todos, a submissão imposta será substituída por uma submissão espontânea; os meninos de seu grupo se aliarão entre si para formar um conjunto firme e homogêneo, entregue à sua CONDUÇÃO”. Lembrar que a palavra FÜHER significa “o que conduz”. E assim estava formulada a receita para a formação e CONDUÇÃO da JUVENTUDE HITLERISTA.    

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UM MENINO CLAMANDO POR AUTONOMIA!

                     Mas as coisas podiam piorar. Ao final da obra, A. Freud inclui uma página que teria sido escrita por um menino de 8 anos, mas cuja profundidade de crítica levanta dúvidas quanto a essa possibilidade. Começa o menino com uma advertência impressionante: “Ouçam, todos os adultos!…Se é que querem ouvir!…Não andem por aí dizendo: ‘Vocês têm que fazer isso ou aquilo…’”. Continuando, o menino contesta: Ninguém tem que fazer nada, tampouco os meninos!” Trata-se de sentença que costumo repetir, chegando a fazer uma blague: nas relações familiares, quem dissesse “V. tem quê…” deveria pagar uma multa. Mas o menino segue, e com um exemplo impressionante. Quando alguém lhe dá a ordem seca: “Você tem que tomar banho!“, não consegue nada. Propõe, então, a substituição da frase por: ”Se v. não se lavar, todos dirão: ‘Que menino sujo! Por isso precisa se lavar’**. Ouvindo isso, os meninos se lavam”. Por fim, complementa ele com a beleza de sentença: “Os grandes falam demais e não deixam as crianças falarem”.

             E então, A. Freud emite considerações totalmente desconectadas com o texto do menino: “Não é mais do que um pequeno covarde inofensivo, que estremece de terror quando um cão late”. Eis que A. Freud tenta “analisar” a origem da rebeldia do menino, enveredando por interpretações absurdas e estereotipadas. O menino teria sido acossado: “…por uma intensa atividade nos seus órgãos genitais e quedou aniquilado pela influência da educação…Essa angústia o impulsiona a negar toda autoridade”.A. Freud estava mesmo completamente capturada pelas autoridades em geral, especialmente a de seu pai. Quando estudamos a obra, atitudes e condutas de S. Freud e de seu entorno, esbarramos com uma questão que parece insolúvel: como foi possível todo um grupamento humano ter sido, a um só tempo, tão revolucionário na confrontação e superação de conceitos atrasados e arraigados nas sociedades em geral e tão submisso na sua relação com os poderes estabelecidos nessas mesmas sociedades?

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Platão (REPÚBLICA-livro VII) levou o conceito a um outro patamar; como de hábito, premiando a passividade e partindo da descrença na capacidade para a crítica dos seres humanos: “…desde a infância, temos sido apresentados a ternas máximas, sobre o justo e o honesto, nas quais fomos criados como se elas fossem nossos pais, obedecendo-lhes e honrando-as”. O “divino Platão” não apreciava muito os seres humanos.

**Trata-se de outro princípio que aplico na clínica. É comum parentes e colegas dizerem a pacientes: “Se não tomar o remédio, v. vai ser internado!”. A sentença, a exemplo da proposta pelo menino, deveria ser: “Se não tomar o remédio, os sintomas poderão voltar e talvez v. precise ser internado!”.

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