UM SCHOPENHAUER LÍRICO E POÉTICO?!

(Todo o fel que derramou sobre o mundo escondia um lirismo insuspeitado!)

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“Deveríamos nos admirar de que um tema, que representa na vida humana um papel tão importante, tenha sido até agora abandonado pelos filósofos, sendo aqui apresentado como matéria nova”(“O Amor, As Mulheres e a Morte”) – A. Schopenhauer, Casa Editora VECCHI)

“O verdadeiro critério para o julgamento de cada homem é ser ele propriamente um ser que absolutamente não deveria existir…O que se pode esperar de um tal ser?” Parerga e Palipomena, vol II cap. 12) 

Desde a primeira leitura de obra principal do pensador (“O Mundo como Vontade e Representação”), julguei-o muito mal, apesar de reconhecer sua importância. A partir de um livro seu muito pouco conhecido, porém, ampliei bastante minha compreensão sobre seu papel: o que vou tentar demonstrar é que Schopenhauer foi também vítima das suas próprias ideias. Sua linguagem no livro aqui discutido (para além das ideias que expressam) deixa transparecer um lirismo subjacente insuspeitado. Todo seu fel seria fruto do rancor e da decepção por não poder dar a ele vazão, em função de uma verdadeira TAREFA que sentia ter para com o futuro da humanidade: atirar aos rostos de todos os homens e mulheres (especialmente os que ainda cultivavam um Romantismo já extemporâneo) os horrores que a própria humanidade produzira e continua reproduzindo. Findas as guerras napoleônicas, e sepultados os ideais da REVOLUÇÃO FRANCESA, tudo era desolação na Europa! E foi nesse ambiente que suas ideias floresceram como plantas carnívoras, devorando qualquer expressão de fragilidade e pieguice à sua volta. O AMOR, por exemplo, segundo Schopenhauer, nada mais seria do que uma armadilha usada pela natureza para se reproduzir, e outras tantas sentenças que condenavam a humanidade a um purgatório sem fim ou finalidade.

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NIETZSCHE: DA ADORAÇÃO AO REPÚDIO DE SCHOPENHAUER!
Por muito tempo, julguei ter sido uma das maiores tarefas de Nietzsche o resgate do lirismo depois daqueles ataques, apenas que em um outro nível Sim! Aquelas afirmações quanto ao amor ser apenas uma armadilha da natureza eram verdadeiras. E foi aí que se deu um dos seus grandes saltos: ao que ficou conhecido por OTIMISMO TRÁGICO. Essa ligação profunda com a NATUREZA; o fato dela viver em nós, sem nada de divino associado, tornava todo o processo ainda mais elevado, poético e lírico; acrescentava beleza e tragédia à própria vida! O que tentarei demonstrar, discutindo o livro citado acima, é que o próprio Schopenhauer tinha já se reencontrado com esse lirismo e poesia bem antes de Nietzsche. Apresentava-se quase como um continuador de Kant, mas é impossível imaginar duas naturezas tão diferentes. Suas atitudes em relação à música, por exemplo, são opostas: enquanto Kant a menosprezava, Schopenhauer, que era músico, nela via uma expressão bem para além dos fenômenos: “A linguagem da coisa em si”: dos sentimentos.

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Apesar da procura exaustiva e leitura de biografias, não consegui determinar o ano de sua primeira publicação. Há várias citações da obra, mas não encontrei considerações a respeito.

AMOR SAGRADOXPROFANO? NÃO! UMA ÚNICA DIMENSÃO!
​”…quanto à essência, o amor é sempre o mesmo e quanto mais individualizado tanto mais poderoso. É tanto mais forte quanto mais, em virtude de suas qualidades e maneira de ser, a pessoa amada é capaz de corresponder às aspirações de alguém”. (idem)
Schopenhauer abriu o caminho que levou Freud à concepção da sexualidade infantil, um dos grandes saltos na sua formulação teórica. Não por acaso, foi a tese freudiana que encontrou maior resistência, pois feria profundamente as concepções religiosas e um tanto hipócritas (com suas “mulheres ideais” e seus “anjinhos sem sexo”). Está, hoje, plenamente confirmada a tese, especialmente a partir da descrição do que ficou conhecido por “ATRAÇÃO SEXUAL GENÉTICA”: pais e filhas; mães e filhos; irmãos e irmãs (e outras combinações, também entre pessoas do mesmo gênero), quando separados na primeira infância tenderiam a sofrer paixões avassaladores e carnais quando de um encontro na idade adulta, independentemente de saberem ou não da relação de parentesco. Sem a oportunidade da sublimação, tenderia a se impor uma atração ORIGINAL, de natureza sexual quase irresistível. Estaria associada à necessidade do preenchimento de um vazio insuspeitado, o que quase refuta a ideia de que “pai ou mãe é quem cria” e dariam ainda mais substância ao COMPLEXO DE ÉDIPO. Nessas situações, a sexualidade se expressaria atropelando todas convenções sociais. Conclusão: a fonte do amor seria mesmo ÚNICA e precisa da sublimação que só a convivência pode promover. 

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OS 3 CAVALEIROS QUE ACUDIRAM TEREZINHA DE JESUS!
A natureza se esmerou em  nos pregar peças terríveis; uma espécie de punição por nossa ousadia em desenvolver a razão. A mais difícil delas é lidar com a sexualidade. Por mais que julguemos poder submetê-la a códigos superficiais, a natureza em nós haverá sempre de se vingar; caso não seja respeitada. Poucas manifestações artísticas (se é que há outra) expressam tão bem a necessidade da sublimação quanto a nossa singela cantiga de roda (autoria anônima) “Terezinha de Jesus”. Vejam que, mesmo sendo “Teresinha” e “de Jesus” (mais religiosa impossível),“…deu a queda, (to fall in love“caidinha”…)...foi ao chão”(ficou sem defesas pela necessidade de amar); “Acudiram 3 cavalheiros”/Todos 3…chapéu na mão! (Ah! se fosse sempre assim!) /O primeiro foi seu pai/O segundo, seu irmão/O terceiro foi aquele/A quem Teresa deu a mão

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UM SCHOPENHAUER POÉTICO E LÍRICO!
“Quando de uma paixão violenta, sejam quais forem os obstáculos, os dois se pertencem por mandato da natureza…por direito divino, apesar das leis e convenções humanas” de N. Chamford (1740-94), citado por Schopenhauer que completa citando “a espantosa indulgência de Cristo para com a mulher adúltera”.
Vejam que o amor estaria acima de tudo! Haveria um mandato (ou mandado, os 2 servem) da NATUREZA, que precisaria ser reconhecido e respeitado até pelo direito DIVINO! Nem B. Spinoza foi tão longe nessa associação direta entre Deus e a Natureza! Há tanto lirismo nesse livro, que sou obrigado a atribuir boa parte do mau julgamento dos contemporâneos sobre o pensador ao seu inconformismo com a perda de suas próprias ilusões “vazias”. Mas, sem elas, como viver? 
Digam o que disserem, há aqui uma empatia profunda para com o amor e os apaixonados em geral. O mandato da natureza em nada os diminui. Pelo contrário, acrescenta poesia ao processo: “…é da paixão…que procede o colorido tão poético e sublime que reveste os pensamentos; nessa elevação transcendente e sobrenatural(o apaixonado) recebeu a missão de fundar uma série indefinida de gerações…a vontade do homem caiu no torvelinho da vontade da espécie” (idem). Tudo ali está muito distante do sarcasmo ou deboche. Nietzsche levará ao extremo essa valorização das forças da natureza vivendo dentro de nós, mas parece não ter conhecido esse livro, pois ele abria os caminhos pelos quais o próprio Nietzsche haveria de caminhar. Além disso, Schopenhauer fala como quem conheceu o amor e as mulheres também profundamente. O pensador sabia dos estereótipos que se criariam à sua volta e os provocou ao extremo. Nessa obra, porém, há uma outra verdade, certamente mais profunda, que só aparece quando a pena (que escreve) corre livre das penas da razão.

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Sim! Terei a pretensão de interpretar Schopenhauer em sua luta para não ser arrastado pela pieguice do mundo à sua volta, caso continuasse a falar como se segue: “…na paixão, o indivíduo não persegue seu próprio interesse…mas o de um terceiro ser que deverá nascer desse amor. Tal desinteresse, que tem a grandeza associada, dá ao amor apaixonado um aspecto sublime, fazendo-o digno objeto da poesia“. O que dizer ainda de: “…na paixão, é a parte imortal de um ser que se exalta, ao passo que todos os outros desejos só se referem ao seu ser fugidio e mortal. Essa aspiração viva e ardente, dirigida a certa mulher é o penhor da indestrutibilidade da espécie. Considerar essa continuidade como coisa insuficiente e insignificante é um erro...”. O pensador parece reafirmar, quase gritando aos ouvidos moucos de sua época (mas não somente), a importância das paixões! Há ainda quem tente dissociar as expressões individuais (e poéticas) em relação aos determinantes biológicos que sempre atualizam nosso compromisso com a vida e a espécie através da paixão*.

Capítulo do livro: “A MORAL E A ÉTICA NA FILOSOFIA” ( Ensaios Críticos Sobre o Tema na obra dos Maiores Pensadores) em vias de finalização.

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*Arrebatamento de um ser humano pelas forças da natureza que nele mesmo vivem impondo-lhe atos aos quais sua razão não consegue resistir. Implicam grandes momentos em nossas vidas, mas a maioria das pessoas, especialmente as mulheres, delas (das paixões) se envergonham posteriormente.

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