A SEXUALIDADE NA ATENAS DE PLATÃO!
(Discorrendo com naturalidade sobre o que hoje classificamos como PEDOFILIA!)
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“Os pensamentos de Platão…são a pedra fundamental de todas as escolas…tudo o que foi escrita e discutido por todos os pensadores. Nele se encontram nossas originalidades (!)...A bíblia de todos os instruídos durante 22 séculos…Platão é a filosofia e a filosofia é Platão“. R. W. Emerson em “Homens Representativos”. São palavras um tanto chulas, mas representam bem o que foi cultivado por séculos.
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NOTA: a discussão aqui proposta vai surpreender muita gente. Isso se dá, porém, apenas pela omissão daqueles a quem ela caberia: os acadêmicos, talvez por uma CENSURA instintiva. Afinal, Platão é tão idealizado…! Ao estudar épocas distantes, precisamos nos resguardar contra julgamentos, especialmente se de tendência moralista. Simplesmente calar, porém, sobre questões tão delicadas não me parece razoável. Há ali referências à prática e aceitação pela sociedade de condutas que hoje atribuiríamos a PEDÓFILOS: “Seria preciso haver uma lei proibindo que se amassem os meninos…”. A ACADEMIA moderna precisa descer de seus balcões, especialmente na discussão da ACADEMIA original: a de Platão.
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“…estendi-me por sob o manto deste homem (Sócrates) e, abraçado com estas duas mãos a este ser verdadeiramente divino e admirável, fiquei deitado a noite toda…Ora, não obstante tais esforços, este homem desprezou minha juventude, ludibriou-a, insultou-a justamente naquilo que eu pensava ser alguma coisa” (Alcibíades, conhecido por sua beleza, ao que tudo indica embriagado. Em “O BANQUETE”, Platão)
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Há uma unanimidade quanto a Sócrates ser o filósofo da RAZÃO por excelência, mas tenho a impressão de que nenhum outro foi tão assediado pelos apelos da sexualidade. Não é razoável avaliar pessoas a partir do que dizem delas mesmas. Nunca é um bom método. Apelando à boa dialética*, não há paradoxo algum em alguém fazer apologia do controle das condutas através da racionalidade e, ao mesmo tempo, ser terrivelmente acossado pelo oposto! A energia voltada a esse controle racional deriva exatamente dele. Em “O BANQUETE”, mas também no “FÉDON”, Platão não poupa palavras a respeito e precisamos cuidar para não dar vazão a julgamentos estreitos e preconceituosos. Como nos banquetes em geral, todos estão um tanto embriagados. Alcibíades expressa ciúmes, pois Sócrates parece se interessar mais por um jovem: “… com Sócrates presente, é impossível a um outro conquistar os belos…Como ele soube encontrar uma palavra persuasiva fazendo esse belo se pôr a seu lado!”. A fórmula utilizada por Sócrates para alcançar esse poder vem adiante pelas palavras do mesmo Alcibíades: …”nada me é mais digno do que me tornar o melhor possível e, para isso, creio que nenhum auxiliar me é mais importante do que tu”. Está capturado pela procura de um falso EU IDEAL. Esse parece ser o maior instrumento aplicado por Sócrates. Essa tendência parece se dar e a compreensão do processo foi pouco explorada. É bom não esquecer, porém, do quanto Platão usa seus personagens para falar do que se passa com ele mesmo.
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DOIS TIPOS DE AMOR: CELESTIAL x VULGAR
Haveria dois tipos de AMOR: o primeiro a partir da deusa Urânia, que não fora gerada por MÃE (!), por isso mesmo foi chamado AMOR CELESTIAL**. O outro seria inspirado por Afrodite, filha de Zeus e Dione (ou seja, com a “interferência” de uma mulher), chamado AMOR POPULAR (ou vulgar, na tradução francesa), pois: “…faz o que lhe ocorre. É a ele que os homens vulgares amam…não menos às mulheres que aos jovens...”. Já do amor de Urânia “…não participa a fêmea…é a deusa mais velha, isenta de violência…”. E então vem a frase que mostra o que os gregos tendiam a pensar sobre as “mulheres de Atenas”. Os inspirados pelo “amor celeste”: “…voltam-se ao que é másculo… afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência (os homens, salvo melhor juízo). Depois de menosprezar o amor carnal heterossexual, Platão discorre sobre o amor “celestial”: “…ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência…Não amam eles, com efeito, os meninos, mas os que começam a ter juízo…o que se dá quando lhes vem chegando as barbas…começam a amar para acompanhar por toda a vida e viver em comum…não a enganar e, depois de tomar o jovem em sua inocência, ludibriá-lo e partir à procura de outro. Seria preciso haver uma lei proibindo que se amassem os meninos...pois é incerto o destino desses meninos; a que ponto do vício ou da virtude chegam em seu corpo e sua alma”. Platão está mesmo preocupado em legislar a respeito, e não deixa ninguém de fora***: “…Se os homens de bem (os que promovem o “amor celeste”), impõem-se voluntariamente essa lei, seria necessária sua imposição também aos amantes vulgares (do “amor vulgar ou popular”), assim como os forçamos (“contraint”) a se abster de amar fêmeas de condição livre (não escravas, segundo o entendimento do tradutor). Tudo isso resulta na maior apologia do HIGIENISMO que se pode imaginar, verbalizado através da fala de um grego considerado médico (Erixímaco): “A natureza dos corpos comporta esse duplo Amor: “…Um é, portanto, o amor sadio e o outro é mórbido…a isso é que se dá o nome de medicina”.
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PLATÃO REPRESENTA ATENAS COMO IMAGINAMOS?
Costumamos abordar os escritos de Platão como expressões muito aproximadas do que se passava na Atenas da época. Confrontado, porém, com tudo o que reportei, comecei a pensar que talvez seja um grande erro tomá-los dessa forma. A impressão que fica é de que o grande isolamento de Platão, em relação ao “mundo sensível”, já começara e ele resolveu se vingar do mundo que frustrou suas expectativas. “A REPÚBLICA” soaria como uma espécie de testamento. Mas tudo isso conheceria uma certa “Ressurreição” pela Igreja Católica. Platão inspirou (depois de “saneadas” certas passagens de seus escritos) as tendências moralistas e higienistas por ela promovidas . Ou seja: sua obra estava longe de ser algo isolado na evolução do mundo.
“…Somente a Platão se pode aplicar a sentença de Omar defendendo o Corão e a queima da biblioteca de Alexandria: ‘Queimem todas as bibliotecas, pois seu valor está nesse livro'”. Do mesmo Emerson, considerado um pensador por alguns.
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*Aquela que defende o choque permanente entre opostos em tudo na natureza.
**Na edição francesa (Librairie Garnier Fréres, PARIS, 1950) é traduzido por “Aphrodite céleste” e “Aphrodite populaire”, o que não me parece razoável. Não tenho condições de julgar traduções, especialmente do grego, mas se são dois tipos de amor, as referências do tradutor brasileiro (em “Os Pensadores”) me parecem absolutamente naturais. Além disso, na tradução francesa, “Amor” é traduzido por “Eros”, o que também não me parece razoável.
***A tradução do trecho a seguir encontra-se na edição francesa.
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