TOLSTÓI…KUROSAWA…M. BANDEIRA E O ÚLTIMO MOMENTO!
(Um samba para a “ÚLTIMA ALFORRIA”…não deixa de ser uma libertação)
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“SONHOS” de A. KUROSAWA
É prática corrente entre os meus colegas médicos promover a sedação de pacientes terminais para “aliviar sua dor”. É uma espécie de antecipação da morte. Alguns sobreviventes desse tipo de situação contam coisas muito interessantes sobre suas vivências, mas é preciso ter cuidado com mistificações. Penso que os cuidadores deveriam promover algum alívio da dor, acessível ao pac. e aguardar. Curiosamente, foi assim a assistência à mãe durante o trabalho de parto da minha filha mais nova, na Suécia. Tinha, à disposição e ao alcance da mão, uma máscara com um gás anestésico. Estou absolutamente convencido de que a sedação dos médicos se dá muito mais pelos próprios profissionais não suportarem assistir à transição. Prefiro ficar com o PRINCÍPIO: vivenciar tudo o que me é apresentado e me inspirar nos grandes artistas. Engana-se quem vê passividade no verso “Deixa a vida me levar…”. Apenas a clareza de que somos atirados em uma corrente na qual precisamos “aprender a nadar” e influenciar. É uma louvação da vida e da coragem.
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A ÚLTIMA ALFORRIA
É assim que eu quero seguir vivendo a minha vida
Respeitando tudo aquilo que o meu corpo mandar
Comigo mesmo ser sincero…as paixões nada contidas
Encarando as partidas que toda lida apresentar
E já faz tempo que aprecio ver a vida me levar
“Vida leva eu (4x)
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Eu não sei mais o que faço prá instigar a juventude
Não sou bom de passo a passo e tenho sido até rude
Quando não brigam por espaço, buscando acomodação
E quando seguem de outros os passos..! Quase quebram a evolução
Vocês não sabem o que eu passo temendo a queda do bastão
“Vida leva eu…”
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Mas eu sei também que um dia a vida há de me pesar…
Na hora da última alforria que não me venham atrapalhar.
Já suportei muitas das dores, as de lá acho que aguento…
Vou repassar todos amores à luz do último momento
E se eu estiver muito calado, ainda assim vão escutar
Minha voz já quase do outro lado: “Deixa a morte me levar!”.
“Morte leva eu, morte leva eu
Na derradeira despedida
É assim que eu vou louvar a vida
“Vida leva eu…”..
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“A MORTE DE IVAN ILIÍTCH”, TOLSTÓI
“….’E a dor?’, perguntou em seu íntimo. ‘Que fim levou? Onde estás minha dor?…Ah! Ei-la! E daí? É deixá-la doer. E a morte, onde está?’. Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. ‘Onde ela está? Que morte?’.
Não tinha mais medo porque também a morte desaparecera de sua frente. Em lugar dela via luz.“Então é isso!”exclamou de repente em voz alta. “Que alegria!…”* (Abaixo as últimas linhas da novela)
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“SONHOS”: AKIRA KUROSAWA
O cineasta japonês deu nova dimensão à morte em pelo menos dois momentos: “VIVER” (“IKIRU”)e em “SONHOS” no qual a morte aparece sob a forma de uma donzela linda e suave a um homem quase submerso por uma tempestade de neve, junto com seus amigos exploradores. Ele vai se entregando à donzela com prazer, quando uma força vital o desperta subitamente. Passa a balançar a todos já adormecidos, despertando-os para a luta. Sem isso, todos morreriam. Eis que o nevoeiro se dissipa e eles estão a poucos metros do acampamento.
/www.youtube.com/watch?v=2TbDSi_K-FY
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“O HOMEM E A MORTE”: M. BANDEIRA
O homem já estava acamado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte,
Porém ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
– Quem bate? ele perguntou.
– Sou eu, alguém lhe respondeu.
– Eu quem? torna. – A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou
Guardou-se de abrir a porta
Antes, ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver – uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
Figura toda banhada
De suave luz interior
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
– Tu és a Morte? pergunta.
E o Anjo torna: – A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
– Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror…
És mesmo a Morte? ele insiste.
– Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o anjo foi se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe compôs
Depois, com o maior carinho
Os dois olhos lhe cerrou….
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.
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*…Foi tudo isso obra de um instante…Para os que o cercavam, porém, sua agonia durou ainda duas horas. Seu peito estertorava e o corpo esquelético estremecia. Pouco a pouco, os estertores e tremores foram rareando…“A morte acabou“, disse a si mesmo.“Não existe mais”.
Aspirou o ar, deteve-se em meio a um suspiro, INTEIRIÇOU-SE e morreu.” Ser INTEIRO: o grande desafio na vida.