FENOMENOLOGIA ALEMÃ: DERRAPANDO NA PERCEPÇÃO!
(“Wahrnehmen”: tomou por verdade…verdade é. Adeus semiologia das alucinações)
“Contrariamente à filosofia alemã que desce dos céus…partimos da Terra para atingir o céu” (K. Marx “A Ideologia Alemã”)
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NOTA: a descoberta da origem da palavra alemã “Wahrnehmen”—onde Wahr = “verdade” e nehmen= “tomar por”—designando PERCEPÇÃO (de “percipere” = “tomar posse”) deu-se a partir de uma nota irônica em obra não publicada de Nietzsche. Foi uma “revelação”…ou quase.
Quem pode menosprezar o papel dos assim chamados fenomenólogos alemães no desenvolvimento de uma SEMIOLOGIA para caracterizar sinais e sintomas psiquiátricos? Ocorre, porém, que no mais primário e determinante de todos os processos mentais: a tomada de contato com o mundo externo: sua decodificação e registro (mnêmico), a própria língua alemã os atirou em uma armadilha na qual se debatem até hoje…e não apenas eles. As línguas de origem latina designam aquele processo com palavras derivadas de “PERCIPERE”=tomar posse de alguma coisa (pré-existente, por definição). Quem pode duvidar da existência de um mundo ao qual viemos e no qual vivemos? Por maior que seja o contorcionismo de alguns pensadores (não somente alemães), é impossível negá-lo. Afinal, implicaria negação também daquele que o nega. Quanto contrassenso! Sendo assim, todas as formulações teórico-práticas sobre o ato perceptivo precisam partir daquela constatação. Não é o que sugere a língua alemã. Nunca as críticas à tendência das mentes alemães a tentar viver fora deste mundo tiveram um exemplo tão candente. Não era a filosofia que estava em questão, mas a imposição da mentalidade religiosa, confessada, aliás, pelo iniciador da Fenomenologia: E. Husserl (ver abaixo).
Tudo isso seria mera curiosidade, caso não gerasse problemas conceituais graves, especialmente na Psicopatologia. Dois autores respeitados na área, Cabalero Goás e P. Dalgalarrondo, apontam em suas obras um certo “Paradoxo das Alucinações”: como classificar como distúrbio da sensopercepção uma manifestação cujo critério essencial é sua não associação com alguma SENSAÇÃO? Não há ali sequer o primeiro momento do ato perceptivo: a SENSAÇÃO original. Aliás, caso houvesse uma modificação de algum estímulo, seria apenas uma ILUSÃO. A rigor, as alucinações são “apenas” uma combinação de REPRESENTAÇÕES (de experiências anteriores: vozes de pessoas conhecidas, por exemplo e como costumamos investigar) associadas à habitualmente rica IMAGINAÇÃO dos pacientes. O que têm elas de muito especial? Todas as características de uma percepção real: nitidez, corporeidade, extrojeção, estabilidade e a capacidade de convencimento daquele que a sofre. No caso de não haver esse convencimento, chamamos o fenômeno uma PSEUDOALUCINAÇÃO*.
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FASES DO ATO PERCEPTIVO…DESDE A ORIGEM DAS ESPÉCIES!
“Aos alemães não interessam necessidades reais, apenas as ideias puras…” (K. Marx)
1-órgãos dos sentidos são estimulados a partir do meio circundante.
2-vias nervosas conduzem as informações do meio até os centros integradores cerebrais; até aqui, uma SENSAÇÃO!
3-esses estímulos são decodificados de maneira a reproduzir as formas dos objetos e o meio circundante; tão semelhantes quanto possível aos estímulos do ambiente que iniciaram o processo. Trata-se do fenômeno PERCEPTIVO, a partir do qual sãocriados registros mnêmicos que podem ser reproduzidos mentalmente quando necessário: as REPRESENTAÇÕES (fundamental também no processo de reconhecer: pessoas, ambientes, etc.)
6- por fim, todo esse processo é submetido ao JUÍZO (capacidade de julgar, não exclusiva dos humanos) no sentido de compreender o que está se passando, de maneira a serem geradas (ou não) condutas mais adequadas às situações. A isso se chama APERCEPÇÃO que, no caso dos seres humanos, tem duas vertentes: A- de julgamento da situação externa (como os animais, só que de forma racional, procurando por relações causais e lógicas); B- de avaliação do que se passa com a própria pessoa**: que reações teriam sido em nós provocadas (alegria, medo, raiva, apreensão, outras lembranças etc.) Ao que tudo indica, essa última ação aperceptiva—implicando “escavar” a própria mente, segundo LEIBNIZ—é especificamente humana.
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E. HUSSERL: FENOMENÓLOGO OU MISTIFICADOR!
“Desde seus inícios, a filosofia pretendeu ser ciência de rigor, capaz de satisfazer às supremas necessidades teóricas e de possibilitar uma vida ético-religiosa regulada por normas puramente racionais…a mais alta e rigorosa de todas as ciências, a representante da aspiração imperecível da Humanidade para o conhecimento puro e absoluto”. (“Filosofia como Ciência de Rigor”).
EDMUND HUSSERL (1859-1938)

Difícil imaginar tantos absurdos em tão poucas linhas! O plural em “Seus inícios” chega a ser engraçado. Devia apontá-los. Se o fizesse, porém, confessaria estar tratando a filosofia apenas como uma derivação de religiões (hindu, budista e outras). O que se deu foi o OPOSTO, pois o primeiro registro considerado FILOSÓFICO implicou ruptura com religiões: a apresentação do TODO a partir do mundo físico: “TUDO É ÁGUA” (Thales de Mileto 600 AC). Bem…a confissão específica da intenção RELIGIOSA vem logo a seguir: “possibilitar uma vida ético-religiosa”, afirmação que sugere um PASTOR disfarçado, gerando a pergunta: como foi possível que tanta gente o levasse a sério? O que dizer da mutilação da vida proposta nas “normas puramente racionais”, da classificação da filosofia como “a mais alta e rigorosa de todas as ciências”e do “conhecimento puro e absoluto”. Apenas uma tentativa de superar a METAFÍSICA propondo um retorno à religião. O que dizer da sua sentença: “A filosofia não dispõe de um sistema doutrinal completo..!” (Husserl). A palavra DOUTRINA costuma ser aplicada para religiões, política, Justiça. Na filosofia é um desastre, pois se associa à SUBMISSÃO….tão alemão!
“Os alemães se esforçam por encontrar…como passar do ‘reino de Deus’ para o reino dos homens”(K. Marx).
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VOLTEMOS ÀS PERCEPÇÕES: “INVESTIGAÇÕES LÓGICAS” (HUSSERL)
Consciente de que já cansei os leitores, apresentarei apenas citações da obra e comentarei suas aberrações.. Alguns falarão da impossibilidade de uma tradução confiável, mas tudo aponta para impossibilidades de compreensão na origem e um esforço enorme dos tradutores em busca de sentidos.
1-“As percepções externas, em geral…”.
Somente um alemão poderia dizer isso! Apenas aos objetos externos chamamos percepções. Está ali implícita a crença no oposto: “percepções internas”, outra aberração que virá em seguida.
2-“…o mesmo acontece nos casos onde a representação por imagens desempenha o papel da percepção“.
Isso só se verifica nas ALUCINAÇÕES, nunca no processo habitual. A representações habituais não são nítidas, não são corpóreas, são sentidas como se dando dentro de nós e não são estáveis.
3-“Se a percepção fosse sempre o que pretende ser: a apresentação efetiva e genuína do próprio objeto…só haveria uma percepção…”
Aqui a tolice vai a um nível insuspeitado. Como desconhecer que um observador tende a perceber um mesmo objeto de maneira diferente em 2 momentos, dependendo do seu estado de espírito, da atenção, da luz, etc.!? As sequências pintadas por E. Monet (igrejas e outras) respondem à falsa questão. O observador não é uma câmera fotográfica, gravador ou uma máquina qualquer. Por isso, sempre percebemos os objetos a partir de nossa própria “embocadura”: de maneira seletiva e acrescentando “conteúdos” através da IMAGINAÇÃO. Em que mundo vivia esse pensador?
4- “a percepção enquanto pretende nos dar o ‘próprio’ objeto”.
Isso NUNCA aconteceu, nem nas alucinações, pois costumam causar medo e mal estar.
“Os alemães…nunca tiveram uma base terrestre para a História…” (K. Marx)
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*Alguns aplicam o falso critério do fenômeno se dar no “espaço interno”: vozes ouvidas dentro da cabeça. Essas nada mais são do que alucinações extracampinas: aquelas que se dão fora do campo perceptível.
**O conceito expresso na letra B é totalmente novo em PSICOPATOLOGIA e pode ter desdobramentos em relação a muitas condições psiquiátricas e sua terapêutica: ataques de pânico; TEPT e outros.