SEXUALIDADE FEMININA: DE DANTE E PETRARCA…A M. BANDEIRA!
(Da condenação medieval, passando pela idealização, até o maior ALUMBRAMENTO)
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“…Eu vi os céus! Eu vi os céus!
– Eu vi-a nua… toda nua!”
M. BANDEIRA NO SANATÓRIO DE CLAVADEL

Tenho certeza de que o poeta acharia um exagero ver seu nome ao lado de Dante e Petrarca… Sem qualquer intenção de comparação, especialmente em função de importância dos Renascentistas na história da poesia, penso que nunca o encontro harmônico entre os aspectos artificialmente separados em “SAGRADOS e PROFANOS” da sexualidade feminina alcançou tamanha beleza. Nas quatro primeiras estrofes, o poeta associa essa sexualidade a maravilhas da Terra: nuvens brancas, neve, espumas do mar, cantadas de maneira bucólica! Subitamente ele “decola” para o Universo; “…o vento desapruma” parece ser a senha. As múltiplas reticências e versos como: “Súbito… alucinadamente…”; “E vi a Via Láctea ardente…” como que obrigavam ao crescendo e acelerando…Foi como senti…!
ALUMBRAMENTO
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!
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Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela… e sinto-a pura…
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Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!
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Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma…
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Eu vi a estrela do pastor…
Vi a licorne alvinitente!…
Vi… vi o rastro do Senhor!…
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E vi a Via Láctea ardente…
Vi comunhões… capelas… véus…
Súbito… alucinadamente…
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Vi carros triunfais… troféus…
Pérolas grandes como a lua…
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
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– Eu vi-a nua… toda nua!
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Há que ter em mente: TODAS as mulheres estavam ali representadas, assim como para Dante e Petrarca em relação às suas amadas. Sim! Somente o resgate da importância da mulher poderia salvar a humanidade das TREVAS e apontar para a superação de muitos horrores atuais!
“Sem tristes pejos e sem véus…”, era como tudo teria que começar: afastando…suavemente… aquilo que costuma atrapalhar a elevação dos espíritos (mas não somente), especialmente a vergonha* e a dissimulação. A impressão da “angélica brancura” resultaria da visão do que nunca era exposto ao sol, impressão aguçada pelo contrate dos pelos pubianos! Sim…Até “…o rastro do Senhor”… estava ali à frente…! Por fim…depois dos 7 Tercetos, a REVELAÇÃO: “—Eu vi-a nua…toda nua!” (Clavadel, 1913). Tinha o poeta 27 anos e tentava se curar, na Suíça, de uma tuberculose que todos julgavam mortal. Quem escrevera esse poema haveria de vencer todas as mortes, inclusive a do esquecimento: “Duas vezes se morre: Primeiro na carne, depois no nome…”.
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DEPOIS DO “RENASCIMENTO”…A “REFORMA”!
“…A pobre Virgem Maria estava condenada a sofrer os furores civis e religiosos. A estátua, perfurada em 20 pontos, era uma demonstração do zelo dos huguenotes em destruir o que chamavam “imagens pagã”….Quando o protestante acertava na pontaria julgava ter aniquilado a Besta do Apocalipse e destruído a idolatria”. “Crônica do Reinado de Carlos VII”, P. Merimée (1829)**.
O período que ficou conhecido por RENASCIMENTO marcou o resgate do papel da Virgem Maria; das mulheres em geral e de grandes personagens femininas: a Beatriz (1266-90) de Dante Alighieri (1265-1321) e Laura (1310-48) de Francesco Petrarca (1304-74)…Todas muito idealizadas. Nenhum dos dois interagiu com as amadas, mas Laura sabia da existência de Petrarca, enquanto a pobre Beatriz nunca soube de Dante, cujo amor foi o mais platônico que se pode imaginar: ele teria 9 anos quando a viu pela primeira vez e Beatriz 8…E ainda duvidam da sexualidade infantil! Sua imagem é tão etérea que parecia mesmo incapaz de viver neste mundo. Já Laura, teria sido casada e gerado 11 filhos, morrendo em uma das situações mais terríveis por que passou a humanidade: a PESTE NEGRA ! Com sua morte, o Canzoniere de Petrarca passou a ser dividido em dois períodos: In vita di Madonna Laura e In morte di Madonna Laura, marcado pela melancolia e progressiva espiritualização da imagem da amada.
Desde então, a sexualidade feminina (das suas expressões mais platônicas até o erotismo propriamente dito) tem sido fonte de inspiração para os maiores poetas, especialmente os LÍRICOS, como H. Heine e C. Baudelaire (nem sempre tão lírico)! Seriam necessários, porém, muitos séculos para que o encontro entre o corpo feminino e sua máxima espiritualização atingisse o “ALUMBRAMENTO”: “Nunca o amor teve altar tão divino!” (do ORATÓRIO “The Fairy Queen”, “Rainha das Fadas” de H. Pourcell, sobre poema de Dorset Garden-1596)…E era do amor pagão e até carnal que se tratava. Seu Deus? O SOL!
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*“Esconda suas vergonhas!” diziam os portugueses quando uma jovem tornava visível sua beleza.
**Chegando a pequenas cidades da França, os “da Reforma” faziam da imagem da virgem alvo de sua pontaria. Quando esteve em Roma, Lutero teria ficado horrorizado: “Onde Deus constrói uma igreja, o Diabo constrói uma capela ao lado… Que ações infames são cometidas em Roma!…Se existe um inferno, Roma é construída sobre ele…Deixe-me sair desta terrível masmorra…”
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