“TOADA DO PAI DO MATO”, CANÇÃO SOBRE POEMA DE M. de ANDRADE

(“PAI DO MATO”: Protetor das Florestas…Estamos precisando muito dele!)

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“TOADA DO PAI-DO MATO” (Mário de Andrade)

A moça Camalalô 
Foi no mato colher fruta. 
A manhã fresca de orvalho 
Era quase noturna. 
– Ah… Era quase noturna… 

Num galho de tarumã 
Estava um homem cantando. 
A moça sai do caminho 
Pra escutar o canto. 
– Ah… Ela escuta o canto… 

Enganada pelo escuro 
Camalalô fala pro homem: 
Ariti, me dá uma fruta 
Que eu estou com fome. 
– Ah… Estava com fome… 
 
O homem rindo secundou: 
– Zuimaalúti se engana, 
Pensa que sou ariti? 
Eu sou o Pai-do-Mato. 
Era o Pai-do-Mato!

VERSÕES SOBRE A LENDA

Há várias versões da lenda. Algumas falam de um gigante, mas, em se tratando de gigantes, não somos lá tão bons. Nossos personagens folclóricos são muito ricos, ingênuos e até divertidos, como Ziraldo tão bem personificou em seus quadrinhos! Quase todos são, muito significativamente, guardiões das florestas e de seus animais…um sinal de RESPEITO, antes de tudo. É o caso do PAI DO MATO, que só se tornaria agressivo quando diante de ataques à natureza. M. de Andrade, porém, acrescentou uma nota de sensualidade ao personagem. O que se passaria entre a “moça Camalalô” e o “Pai do Mato”, depois dele ter se anunciado na madrugada—negando ser apenas mais um jovem (Ariti) da tribo—fica por conta da imaginação de cada um. A imagem aqui reproduzida me pareceu a mais de acordo com as descrições lidas, inclusive pelo porco do mato que tem sido um empecilho ao avanço do AGRO NEGÓCIO.

INSPIRAÇÃO MUSICAL SINTONIZADA COM O POEMA?

Deixando de lado juízos de valor, fica a certeza de haver uma SINTONIA entre a melodia e o poema; única exigência que se deve fazer nesses casos. Todo o trabalho precisa também obedecer à inspiração original, tentando evitar artifícios. Qualquer preocupação com: valor artístico, sucesso e “efeitos” deve ser posta de lado. De uma boa dose de autoengano, porém, não é possível abrir mão! Digo-o inspirado no próprio M. de Andrade, que afirmou sentir-se, enquanto escrevia, como se estivesse compondo a QUINTA de Beethoven. Depois de terminada a obra, tendia a julgá-la muito mal. Somente muito depois conseguia fazer uma avaliação razoável. 

A canção foi concebida para acompanhamento com piano usado como aquilo que realmente é: instrumento de PERCUSSÃO e com seus ritmos muito bem demarcados. Nos últimos versos das estrofes: “—Ah……” a atmosfera muda e o andamento fica “ad libitum”: à vontade dos intérpretes. A última estrofe é um quase recitativo, no qual o provocar medo se associa à sedução, como costuma acontecer em muitos casos.

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Gravada aqui em Ré menor, as duas primeiras estrofes têm melodia praticamente idêntica. Na terceira, entretanto, no verso: “Enganada pelo escuro…”, parece ocorrer uma modulação (mudança de tonalidade), resultando em um “escurecimento” da melodia. Não foi intencional; simplesmente se impôs. As modulações, em canções, costumam se apoiar no piano ou outros instrumentos harmônicos (violão, acordeom e outros). Sem eles pode ocorrer alguma instabilidade. Na última estrofe, quando o “Pai do Mato” toma a palavra e canta: “Zuimaaluti se engana…”, a tonalidade original é retomada e a instabilidade se desfaz; O poder e o controle da situação se estabelecem plenamente.

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