A CLÍNICA PSIQUIÁTRICA E O ESFORÇO DE RESSOCIALIZAÇÃO!
(A clínica psiquiátrica é atividade MEIO cujo FIM é a RESSOCIALIZAÇÃO)
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“Por mais complexa, rebuscada e efetiva que seja a CLÍNICA PSIQUIÁTRICA, sempre será uma ATIVIDADE MEIO, cujo FIM é a RESSOCIALIZAÇÃO*”. (sentença que cunhei durante debates a respeito no IPUB).
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Depois de ter formulado a sentença acima, dei-me conta de que seu alcance era maior do que eu pensava. Trata-se de uma característica quase exclusiva da CLÍNICA PSIQUIÁTRICA, em função da tendência à exclusão social que sofrem nossos pacientes. Nas demais especialidades médicas, há muitos esforços de readaptação, a partir de limitações impostas por alguma condição clínica, cirúrgica e/ou pela perda progressiva de capacidades; intervenções envolvendo fisioterapia, fonoaudiologia, praxiterapia, musicoterapia e outras. O único, triste e muito significativo paralelo a ser feito com nossa clínica, deu-se em relação aos antigos (e de triste memória) leprosários. É fácil imaginar as dificuldades enfrentadas no processo de RESSOCIALIZAÇÃO de pacientes “sequestrados”, confinados e afastados das famílias (filhos inclusive): “Em 1949, o isolamento forçado dos hansenianos em leprosários virou lei federal, que vigorou até 1986”. Houve, sim uma outra condição em torno da qual as sociedades quase seguiram um caminho parecido: a AIDS. Em alguns países o confinamento chegou a ser tentado. O poder da comunidade LGBT, porém, não apenas reverteu a exclusão como conquistou mais espaço. Há ainda os condenados a longas penas que, em sua saída, precisariam de algum apoio no sentido da ressocialização. Um dos maiores esforços, nesses casos, seria exatamente tentar evitar uma “medicalização” das situações abordadas.
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ATIVIDADE MEIO: HAVERIA NISSO UM APEQUENAMENTO DA CLÍNICA?
Certamente NÃO! A verdade, porém, é que deve soar mal, aos ouvidos dos colegas mais vaidosos, a ideia de sua atividade ser uma “mera” ATIVIDADE MEIO: aquela que vai ajudar a preparar—desde o primeiro dia e com a participação de outros profissionais—para que a ATIVIDADE FIM (a ressocialização) possa se dar a contento. Nosso objetivo não é que o paciente “fique bom”, apenas BEM o suficiente de maneira a caminhar no sentido da interação social plena. Afinal, por “melhor” (não gosto dessa aplicação da palavra) que um paciente aparente estar, o critério essencial para avaliar a EFETIVIDADE de um tratamento psiquiátrico/psicológico, é a sua ressocialização. É bom não esquecer também das intervenções junto à sociedade para que ela mesma avance no sentido do acolhimento e valorização dos mais frágeis.
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CLÍNICA É EMINENTEMENTE INDIVIDUAL, MAS A VIDA…COLETIVA E SOCIAL!
A palavra CLÍNICA deriva de “clinos” (leito, individual por definição), mas a vida é eminentemente SOCIAL. Por isso, os bons serviços da área precisam integrar suas ações em função das principais exigências de cada fase da intervenção terapêutica. Na fase eminentemente assistencial (especialmente quando da necessidade de internação), o processo precisa mesmo ter o protagonismo médico, conforme previsto na legislação: principalmente quanto a internações/altas e prescrições de medicamentos. Não custa lembrar: quando de cobranças LEGAIS, serão os médicos a responder pelos procedimentos daquela fase. Há que respeitar o PRINCÍPIO: Aquele que deve responder pelos atos executados precisa ser quem toma a decisão! (o que não exclui outros agentes no processo de discussão/deliberação). Vencida essa fase, em um processo natural de transição, o protagonismo na condução do processo deve passar aos mais preparados para promover a ressocialização. Todo esse processo poderia fluir muito facilmente e em harmonia caso as competências de cada grupo profissional fossem vistas como complementares e respeitadas pelos demais. Há que superar os interesses e as idiossincrasias individuais em função de valores maiores: INSTITUCIONAIS e de interesse público.
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*Os graus de exclusão social e familiar variam—-em alguns casos, ela nem ocorre—e nossa ação precisa ser calibrada segundo a necessidade. Os casos mais extremos são ainda encontrados em hospitais de longa permanência, gerando situações parecidas com as que levaram E. Kraepelin a criar o conceito de “Degeneração Psicológica” (ver sua AUTPBIOGRAFIA). Apontava ele o mal que o isolamento provocava: a perda progressiva do que chamamos o “eu social” de uma pessoa. Era um avanço considerável em relação aos franceses, com a sua “DEGENERAÇÃO MORAL”. Anos depois, Lima Barreto denominaria esses asilos “Cemitério dos Vivos”. Havia um paralelo com o conceito de Kraepelin.