A MORAL NA FILOSOFIA (livro a publicar)
(Revisão crítica das obras dos pensadores que se debruçaram sobre o tema desde a Antiguidade)
……………………….
NOTA: trata-se de material apresentado em tese de Doutorado sobre o tema que estou revendo e ampliando para apresentar brevemente em um livro. Penso não precisar falar de sua atualidade…permanente. Apresentarei aqui algumas de suas passagens. A escolha do momento será fácil de compreender na leitura.
……………………….
MICHEL DE MONTAIGNE (1533-92)

Montaigne foi, a exemplo de Sócrates, um pensador que se preocupou quase que exclusivamente com o ser humano, seus costumes, sua história e mesmo com a tentativa do entendimento mais profundo dos móveis de seus atos; sempre a partir da auto observação. Viveu ele e escreveu em um dos períodos de maiores transformações na história da humanidade, o século XVI. Foi aquele o período áureo das grandes navegações, da Reforma Luterana e da Revolução de Copérnico. Todos os dogmas cultivados durante a idade média caíram por terra e Montaigne é o pensador que melhor anuncia a nova era que se abria para o mundo. Se Descartes (1596-1650) é considerado o marco inicial da filosofia moderna, foi Montaigne quem fechou uma época e abriu novos caminhos para a filosofia, significativamente abandonados e até repudiados pelos que viriam no século seguinte. Talvez ele tenha chocado a muitos com as verdades que revelou até sobre ele mesmo
A contemporaneidade (pois sua sinceridade a clareza tornam tudo ali muito atual e para qualquer época) de suas reflexões impressiona. Discorreu sobre sua vida sexual e seu início muito precoce: “Pareceria milagre e infelicidade confessar a que ponto era jovem quando, pela primeira vez, me vi escravizado às suas leis (do sexo). Em outros momentos sugere fortemente o quanto foi manipulado, ainda adolescente, por mulheres da corte. Perto do fim da vida, debochou dos moralistas que condenavam a volúpia. Ridículos são: “…quando afirmam que a volúpia é brutal e indigna ao sábio; que o único prazer que se deve usufruir com uma jovem esposa é o de cumprir o ato natural, como o de calçar botas para uma longa cavalgada…Por isso, acredito que a aliança entre o prazer e a necessidade, que os deuses sempre procuram impor, é uma união de grande alcance e conveniência. Por que desmembrar e divorciar tais elementos de uma associação tão fraterna?”. Posso imaginar o mal-estar que o pudico Kant sentiu ao ler isso, se é que chegou até o fim, pois é o último dos “Ensaios”, escrito já perto da morte: “Da Experiência”. Não por acaso, Kant tentou desclassificá-lo como filósofo; Montaigne teria produzido apenas uma espécie de antropologia. Alijar-se deste mundo, perdendo-se nas nuvens à procura de um deus moralista era, para Kant e outros, uma condição para a filosofia. A verdade, é que Montaigne já encontrara seu próprio Deus: “No presente que Deus nos oferece não há nada indigno do nosso cuidado…Afinal, é com o traseiro que nos sentamos nos mais elevados tronos do mundo”. Com relação aos tronos celestes, não me arrisco a fazer considerações.
Montaigne foi o melhor exemplo de um pensador cuja formação se deu na vida do dia a dia e no exercício de funções públicas. Por isso mesmo tem muito a nos ajudar, principalmente através das reflexões que provoca (“Do Útil e do Honesto”, Ensaio): “Quando jovem, enfiaram-me na vida pública até as orelhas; meu destino era fazer carreira, mas, desde cedo, me desvencilhei dos cargos”. Bem depois e por duas vezes, foi eleito prefeito de sua cidade (Bordeaux, mas a contragosto); e parece ter se saído muito bem. Fez da capacidade de lidar com a própria franqueza, sempre associada à honestidade para consigo mesmo, seu mote principal: “…detesto enganar e me repugna que se enganem a meu respeito…não escondo minhas opiniões, por duras que sejam e me mostro como sou, mais disposto a fracassar do que a enganar…meu falar franco me poupou a suspeita de dissimulação…exprimo-me com energia, não hesitando no que me cumpre dizer, por severo e duro que seja”. Como lidou com reis e príncipes, seu desafio foi manter a dignidade nessas relações: “Digo-lhes desde logo até que ponto os posso servir, pois entendo não ser escravo, senão da razão (antecipando Spinoza) e, ainda assim, mal o consigo”. Foi o que, certamente, limitou muito seu alcance em atividades de interesse público, expressão por ele mesmo utilizada várias vezes: “…A inocência não poderia, em nossa época, dispensar a dissimulação, nem negociar sem mentir. Daí não serem os cargos públicos do meu agrado…”
E foi nesse ambiente e envolvimento figadal (no sentido de visceral) com o interesse público que se desenvolveu o pensador com quem eu escolheria de me encontrar pessoalmente (se me fosse dada essa chance) e com quem mais me identifico. Em um pequeno parágrafo, resume ele o tema principal deste livro: “A justiça em si, em seu estado natural, é universal e tem ditames diferentes e mais elevados do que as situações especiais e nacionais, sempre condicionadas às necessidades de governos… Há crimes autorizados pelos editos do senado e por plebiscitos (citando Sêneca)”. Grande surpresa provoca uma sua observação sobre a cultura egípcia, tão menosprezada pelos ocidentais: “Devemos jurar a nós mesmos o que os faraós do Egito exigiam de seus juízes: que não se desviariam nunca do que lhes ordenasse a consciência, ainda que recebessem instruções do soberano”. Já entre os imperadores romanos e nos reinados ocidentais, inúmeros são os horrores por ele descritos, alguns dos quais testemunhados. A uma jovem virgem a ser executada, o que era proibido segundo a lei romana, determinou-se ao carrasco que a deflorasse: “…atendia-se, desse modo, à letra da lei…exigindo do carrasco que emporcalhasse sua própria alma”.
Para que se tenha ideia do quanto a questão do interesse público era importante para Montaigne, seria a única justificativa para alguém violentar sua própria consciência: “Nenhum interesse particular, mas tão somente o interesse público, pode nos levar a contrariar nossa consciência”. Mas é bom assinalar estarem essas palavras em total oposição ao uso hipócrita de uma pátria qualquer como desculpa para as maiores perversões: “Há coisas que um homem de bem não faz, nem em defesa do rei, da ordem ou da lei, ‘pois a pátria não destrói todos os deveres (para com a nossa consciência) e a ela mesma convém ter cidadãos que honrem seus pais’ (Cícero)”. Aos que fazem apologia da força e da violência nesses embates, tão em voga diz: “Soneguemos aos perversos e sanguinários esse pretexto (da pátria, etc.) para se entregarem a seus instintos; há que desprezar essa falsa justiça atentando para exemplos mais humanos”.
Montaigne antecipou o “Cogito” de Descartes e sua apologia da dúvida, apenas que com uma boa dose de ironia em relação aos arrogantes em geral. Ironizando os filósofos Pirrônicos, que haviam feito da dúvida a regra de sua conduta escreveu:
“Precisariam de outra língua; a nossa, inteiramente formada de afirmações, opõe-se à sua doutrina, de sorte que quando dizem: “duvido” poderíamos objetar que incorrem em contradição, pois afirmam que sabem que duvidam.”
As suas referências antropológicas e culturais são exaustivas e ele dá ênfase especial aos costumes mais bizarros descritos nas mais diferentes culturas, como por exemplo comer os próprios parentes quando mortos, hábito de alguns povos da índia, ou comer seus prisioneiros como entre aborígenes americanos, não esquecendo de assinalar (como ele fez em “OS CANIBAIS”) ser isso muito menos brutal do que o hábito de assar vivos os seus oponentes, prática que entrara em voga na Europa pós-Reforma. Nesse “Ensaio” descreve ele a Baía da Guanabara e seu entorno, enaltecendo muito a vida de nossos povos originais (a partir de descrições e do contato com três deles em Paris), especialmente o cuidado e respeito que tinham para com as mulheres. Relata também o quanto assombrou a todos os europeus sua saúde, beleza e vitalidade. Não viram: “…algum epiléptico, remeloso, desdentado ou curvado pela idade”. O efeito dessas observações sobre a crença de que os cristãos europeus eram os “povos escolhidos” foi enorme. Para “salvar” seu narcisismo, trataram de amesquinhar nossos povos!
Montaigne parece perplexo com algumas das suas próprias ideias. Por um lado, acha que se deve seguir os costumes e as leis do seu país, mas pensa que isso implica dizer “… que nosso dever se subordina ao acaso…” continuando:
“…o meu juízo não tem flexibilidade para aceitar tal solução. Em que consiste esse bem que amanhã já o não será e que a simples travessia de um rio modifica? Que verdade será essa que é uma aquém e outra além das montanhas?”
Em suas reflexões infindáveis sobre o tema introduz de passagem a ideia de uma moral para cada espécie animal: “…os princípios de moral e as leis são tão indispensáveis para vivermos em comum como seriam para os grous e as formigas”.
A ideia é muito interessante, mas a se aplicar a obediência (sem conflito racional) a um instinto ou inclinação (de maneira automática e sem conflitos internos), não se poderia falar em moral propriamente dita. Por fim e sem chegar propriamente a uma conclusão, Montaigne abre o caminho para todos os investigadores do que se costuma chamar MORAL.
“É possível que haja leis naturais como ocorre com certos animais, mas nós as perdemos porque nossa bela razão humana em tudo se intromete para dominar e comandar, perturbando e confundindo a fisionomia das coisas ao seu talante, segundo sua vaidade e inconstância.”
O papel que Montaigne esperava exercer em relação a todo conhecimento que o antecedeu e que se seguiu é dado por ele mesmo em uma passagem singela e aparentemente despretensiosa:
“Não deixo de sondar e verificar o que minha capacidade não consegue descobrir; e em amassando essa matéria nova, virando-a e aquecendo-a, dou a quem vem depois certa facilidade em tirar dela partido, fazendo-a mais flexível e manuseável. O mesmo fará o segundo para o terceiro e disso resulta que não devo desesperar de minha incapacidade, a qual é somente minha.”