M. BANDEIRA: “SOLAU DO DESAMADO”, PRIMEIRA INSPIRAÇÃO MUSICAL!
(Deixando de lado julgamentos quanto a “transcendências” ou valor artístico)
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NOTA: Um contato e aceitação—por parte de um violonista muito respeitado e voltado à música espanhola—para trabalhar sobre as canções aqui apresentadas me animaram a apresentá-las a capella. O contato foi feito a partir da publicação anterior, o poema de Bandeira “NO VOSSO E EM MEU CORAÇÃO”, inspirado pelo luto na derrota dos Republicanos na Guerra Civil Espanhola. Caso o trabalho se confirme vamos procurar os herdeiros do poeta buscando autorização para apresentações públicas.
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DE COMO ACONTECEU A MINHA PRIMEIRA CANÇÃO!
“Não faço poesia quando quero e sim quando ela, a poesia, quer.” (M. Bandeira, “Itinerário de Pasárgada”)
Durante o esforço de adaptação ao teatro de “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha” (CERVANTES)—em trabalho conjunto com minha ex-esposa, a atriz Ester Jablonski, 1991—, chegamos a uma cena que “pedia” intervenção musical. Bem perto do final da obra (Livro II, Cap.64, publicado em 1615), a família do fidalgo monta uma “armadilha” para fazê-lo voltar para casa. Forjam um outro “Cavaleiro Andante” (“Cavaleiro da Branca Lua”) que o desafiará a um duelo. Seu confronto se daria em torno de qual das amadas teria maior beleza: Dulcineia ou a Dama do Cavaleiro. O derrotado teria que abandonar sua missão e retornar à sua casa. Imaginamos uma introdução da situação na qual o “da Branca Lua” espera no caminho por onde sabe que D. Quixote vai passar, enquanto canta e dedilha ao violão (ou alaúde) canções da época; de adoração à amada. De imediato, lembrei-me do poema “SOLAU DO DESAMADO”, cujo espírito é anterior (Século XIV) ao período da escrita de Cervantes…aliás, como os “Cavaleiros Andantes” e o próprio D. Quixote. Além disso, o verso “Mostra-te ao fulgor lunar” era mais uma alusão ao “da Branca Lua”! Iniciei, então, um quase recitativo que seria acompanhado pelo dedilhar de um alaúde. Somente na chegada à repetição dos 2 primeiros versos (não prevista nesse ponto do poema), pensei “Mas isso é uma canção!”. Essa primeira repetição tinha por objetivo encerrar o interlúdio para o retorno à interação e falas, mas o que se deu foi bem diferente: a melodia como que se “desprendeu” e seguiu seu curso. A continuação, com variações de expressão, aconteceu naturalmente. Como a canção foi pensada para o teatro, nem todos os versos do poema foram nela incluídos. Os pontos de exclusão de alguns versos são assinalados por reticências. Trata-se de um expediente comum entre compositores que, por vezes, excluem estrofes inteiras de poemas longos. O que não é definitivamente aceito nessas composições são inclusões ou modificações nos versos. Cantá-los todos não implicaria dificuldade especial; exigiria apenas pequenas adaptações da melodia. O poema inteiro é facilmente acessível na INTERNET.
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SOLAU DO DESAMADO (canção sobre poema de M. Bandeira)
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar…
…E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia…
…Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia…
….O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar…
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacaneias de invejar…
…Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh’alma blasfema e guaia,
Minh’alma que vais danar…
…— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar…
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CANTAR DE AMOR: UM DE SEUS POEMAS EM OUTRAS LÍNGUAS!
“‘Cantar de Amor’ foi fruto de meses de leitura dos cancioneiros. Li tanto e tão seguidamente aquelas deliciosas cantigas, que fiquei com a cabeça cheia de “velidas” e “ mha senhor” e “ nula ren”…O único jeito de me livrar da obsessão era fazer uma cantiga (a obsessão era sintoma de poema em estado larvar). (“Itinerário de Pasárgada”, ensaio autobiográfico).
Apesar de ter tido acesso a alguns textos sobre este poema e sobre os TROVADORES PROVENÇAIS em geral, não consegui superar duas sérias limitações para com ele trabalhar: não fui apresentado a uma TRADUÇÃO pareada verso a verso e sequer consegui alguma indicação para a PRONÚNCIA em geral. Como verão a língua aqui usada está na origem da própria língua portuguesa, mas a compreensão plena não é imediata. A palavra “senhor”, por exemplo, designa a mulher amada e sempre distante. Felizmente, a linguagem musical (certamente geradora do próprio poema) é universal. Há nela tantas “comunicações” intangíveis pela razão!
Haveria 2 grupos de canções trovadorescas: as de escárnio, usadas para o deboche e “as líricas (Cantigas de Amor e cantigas de Amigo), tendo como temática o amor cantado por um plebeu que deseja uma dama inacessível, ou por uma mulher que sofria as saudades do amigo distante” ( ).
O poema de Bandeira vai ao desespero: perda do sentido da vida e desejo de morte. Mas ficamos todos devendo sua tradução VERSO a VERSO
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CANTAR DE AMOR
Mha senhor, com’oje dia son,
Atan cuitad’e sen cor assi!
E par Deus non sei que farei,
Ca non dormho á mui gran sazon.
Mha senhor, ai meu lum’e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Noit’e dia no meu coraçon
Nulha ren se non a morte vi,
E pois tal coita non mereci,
Moir’eu logo, se Deus mi perdon.
Mha senhor, ai meu lum’e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Des oimais o viver m’é prison:
Grave di’aquel en que naci!
Mha senhor, ai rezade por mi,
Ca per’ço sen e per’ça razon.
Mha senhor, ai meu lum’e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.