CLÁSSICOS URBANOS*: NOSSA CULTURA EM OUTRO PATAMAR!
(A UFF reafirmando seu compromisso com a BRASILIDADE e com nossa CIDADE!)
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Quarteto de Cordas da UFF

Assisti e participei—cantei no Coro da Pró-Arte e outros por décadas—de inúmeros concertos em minha longa vida, mas esse me atingiu de maneira muito particular…e não somente pelo alto nível das performances e do seu programa! Poucas vezes vi a BRASILIDADE tão amplamente representada e abrindo novos caminhos. Nas primeiras peças, com o Quarteto de Cordas da UFF: “Brasileirinho”, “Aquarela do Brasil”, “Noites Brasileiras”, “Gaúcho”, “Corta-jaca”…(respectivamente: W. Azevedo, Ary Barroso,, L. Gonzaga, Chiquinha Gonzaga), ouvimos belos e expressivos arranjos muito bem executados. Até ali, porém—e por melhores que fossem os arranjos e as execuções—, tudo soava como uma nova “roupagem” para canções imorredouras; aquelas que afirmaram nossa música URBANA (associada ao início da divulgação radiofônica). A transcendência viria em seguida; algo de verdadeiramente novo na música brasileira, arrisco-me a dizer! As 3 canções seguintes trouxeram de volta o maior lirismo das décadas de 1950/60/70: “Manhã de Carnaval” (L. Bonfá), “Valsinha” (Vinícius e C. Buarque) e “Canto de Ossanha” (Baden e Vinícius). O bom gosto e a sintonia do arranjador e solista (Alexandre Caldi) com as canções tocaram profundamente a plateia!
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De repente, um quase sobressalto (eu não lera muito bem o Programa e nada foi dito antes da execução): o Prelúdio da Quarta Bachiana de V. Lobos! Se soubesse antes…ficaria preocupado. Sou um tanto conservador nessas situações e havia um risco considerável. Foi a peça daquele ciclo que me convenceu da propriedade do termo “BACHIANA”, tal sua profundidade e equilíbrio formal. Já a escutei por diversas formações, mas essa não tem paralelo. Marcelo Caldi tem o dom de HARMONIZAR e não somente na música, tenho a impressão (acompanhando seu trabalho). As múltiplas apresentações do tema principal (quase obsidente), os solos e as variações na expressão de sentimentos extremos ficaram a cargo das cordas que as realizaram à altura. Fomos como que capturados pela tensão alcançada nos “accelerando-ritardando”; “crescendo-diminuendo” e outras sutis variações, até a distensão do final! Foi também um grande momento do Quarteto da UFF! Dando sustentação e ainda mais consistência a tudo o que se desenvolvia…uma SANFONA! Que fenômeno teria sido esse que nos fez esquecer de orquestras? Villa já elevou a GAITA (harmônica de boca) a instrumento solista de orquestra com um belo Concerto. M. Caldi elevou a sanfona à HARMONIZAÇÃO junto a um quarteto de cordas…tudo muito discretamente. Com um piano seria totalmente diferente; um órgão…certamente demais e talvez distante (!). O intimismo fez muito bem ao nosso Villa!
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UM BIS…ALGUM VIRTUOSISMO E UMA BOA DOSE DE HUMOR!

Por fim, muitas outras belas canções, harmonizadas também pelos irmãos e algumas de suas composições que impressionaram muito bem. Encerrado o programa veio a dose de humor: uma ponta de deboche para com o formalismo habitual dos concertos muito formais. Os músicos representaram (tenho a impressão) não saber se saíam ou ficavam enquanto a plateia não parava de aplaudir. Alguns saíram e voltaram, enquanto outros saíam em descompasso aparente e parando como que perplexos. Como disse M. Bandeira: “Tão Brasil!” (“Não sei Dançar”). Tendo retornado aos seus lugares, um dos irmãos falou no ineditismo da peça que apresentariam, era…..”CARINHOSO” de PIXINGUINHA. E não é que tinha um quê de inédito mesmo…daquela maneira e naquela formação. Foi o momento em que o sanfoneiro exercitou algum virtuosismo em sua execução, sempre em função da EXPRESSÃO. Saímos todos dali, estou certo, com o espírito elevado e acreditando um pouco mais na humanidade. Em uma de suas composições, Alexandre imaginou como será “O Brasil de Antônio e Júlia” (filho e sobrinha, de 5 e 3 anos). Mais do que apenas uma indagação, havia ali um caminho que daria nova dimensão à nossa CULTURA em geral e a nossa MÚSICA em particular…Isto é, se os gestores, pelo Brasil afora, se convencessem de que a CULTURA é eminentemente REGIONAL (tornando-se UNIVERSAL somente depois de reafirmada) e parassem de financiar “globalizações pasteurizantes” que atrapalham a formação do bom gosto em arte pelos mais jovens, “bombardeados” que são pela mídia.
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*A expressão é ótima! Eu apenas gostaria de ver ali também referência às RUAS e PRAÇAS, pois é nelas que se desenvolvem Culturas. O “problema” é que, como assinalou M. Bandeira, a palavra RUA tem conotação muito negativa em português: “rua da amargura”; “RUA!” (grito para humilhar e expulsar); “No olho da rua”; “menino de rua”… Bem…Estava eu em Portugal quando o Brasil venceu a Inglaterra (2002) e ouvi um menino dizer: “Ronaldinho foi mandado à RUA!” (fora expulso). Quintana resolveu o problema, ao dizer do quanto gostaria de ter sido um menino DA rua, o que acabou sendo tema de um SONETO seu (IV de “A Rua dos Cataventos“): “Minha rua está cheia de pregões/Parece que estou vendo com os ouvidos/”Couves! Abacaxis! Caquis! Melões”/Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos…”,para o qual ousei uma marchinha como se pode ver:
**Havia muitos outros ritmos “não urbanos” pelo Brasil afora (ou a dentro; no interior), resgatados principalmente por M. de Andrade e V. Lobos.