QUINTANA: MARCHA FÚNEBRE PARA UM SONETO REAFIRMANDO A VIDA!
(Vivendo na transição “vida-morte” como nenhum outro poeta)
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A “Fase Azul” de Picasso é associada à morte em geral e ao suicídio de um amigo! Há ali o azulado do uivo do lobo solitário (sinestesia obrigatória) de “A Hora do Lobo” (I. Bergmann). Significativamente, há trabalhos sugerindo relação desse horário com suicídios. Que à “Fase Azul” tenha se seguido a “Fase Rosa”—da AURORA, o “Céu de opala” (M. Bandeira)—é quase uma confirmação da tese. Em “Coronel Chabert”, Balzac pergunta: “É a morte, principalmente FRIA, ESCURA OU SILENCIOSA?”. Para Quintana, não há dúvidas: a morte é fonte de inspiração…para a vida!
NOTA: a partir dos “Lieder” alemães (F. Schubert é seu expoente máximo), foi criada a tradição (não “oficialmente” verbalizada) de que poemas consagrados, quando tornados canção, precisam de acompanhamento por piano ou orquestra (com ou sem coro). Sem conseguir me libertar de todo dessa possível “tradição”, apreciei muito que pelo menos 3 das canções que tenho produzido obriguem a um acompanhamento por piano. Uma delas é esta MARCHA FÚNEBRE, aqui antecipada “A capella” (se é que a expressão se aplica) apenas para registro e antecipação de contato com um compositor pianista). Pode sofrer variações na repetição, especialmente no sentido de ser mais suave e resignada. Aqui privilegiei por demais o confronto. Quem sabe esse trabalho será mais respeitado depois que algum pianista e compositor julgar merecer ele um investimento do seu próprio talento?
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SONETO XXII de “A RUA DOS CATAVENTOS”
Vontade de escrever quatorze versos…
Pobre do Poeta!… É só pra disfarçar…
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.
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Quem sabe lá que estranhos universos (QUASE PIANO)
Que navios começaram a afundar…
Olha! os meus dedos, no nevoeiro imersos, (PAUSA após o “Olha!”)
Diluíram-se… Escusado navegar!
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Barca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios…
Oh! dá-me a tua mão, Amigo Morto! (PAUSA pós “Oh” piano na continuação)
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Que procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios… (AFIRMATIVO, RALENTANDO NA REPETIÇÃO)
Vamos andando… Nada mais existe!…
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Não trabalho com a ideia de uma “arte pessimista”! A própria criação artística (ou sua intenção) implica afirmação da vida e esse SONETO é seu melhor exemplo. Por outro lado, nunca ter se questionado quanto à sua própria existência sugere superficialidade. No primeiro verso, a palavra VONTADE aponta para uma afirmação, mas a redução da poesia (e seus versos) a um número (14), aproxima-a da morte: “…é esse danado número Um/Que matou Cristo e que matou Tibério!” (A. dos Anjos). Talvez por isso, a minha inspiração para a MARCHA FÚNEBRE foi imediata e já nos seus primeiros versos, sentidos como muito afirmativos, apesar de tudo. O poeta parece estar falando pela morte, com a dureza de quem procura por verdades e delas não quer fugir, mas… se saltarmos para o final do soneto, encontraremos uma das maiores louvações da vida em arte que conheço:
“Vamos andando entre os nevoeiros frios…/Vamos andando… Nada mais existe!…” (Vamos andando…!)
Como qualquer um pode constatar, para quem está em um nevoeiro, ele é único, não admitindo plural. A própria preposição “entre” implica pelo menos 2 elementos. A princípio pensei na intenção da rima com verso anterior, a maravilha poética dos “cântaros vazios”. Seria um preciosismo exagerado e desnecessário no sentido do SOM (“rima é igualdade de som”, M. Bandeira). Vejo ali, porém, algo muito mais elevado; que atravessa a falsa barreira metafísica da transição vida/morte: o simples caminhar dos dois amigos, com o seu CALOR (simbólico, mas também palpável) vai dividindo ao meio o nevoeiro frio. Voltando acima, depois da apercepção de inúmeros mistérios e presságios, surge a bela expressão em relação aos dedos: “Diluíram-se…Escusado navegar!”. Impossível simbolismo mais belo para a perda de capacidade de atuar sobre este mundo…navegar, no caso. Restaria flutuar ao léu.
O poeta parece retornar, na lembrança, a seu longo “processo de morrer” (e renascer, tão frequente nesses SONETOS): a “Barca perdida que não sabe o porto” fala de uma mera existência vazia, como os cântaros que carrega sem destino ou finalidade. Mas isso não vai durar, ainda que se apresse o naufrágio. Quem sabe seus cântaros serão descobertos, séculos depois, no fundo de outros mediterrâneos; eles que tanto afirmaram a vida, carregados de vinho, azeite…ou mesmo vazios? Quintana, como a barca, consegue flutuar na transição entre a vida e a morte como ninguém e essa talvez seja a chave da profundidade de sua poesia. Eis que dá a mão ao “Amigo Morto”—com maiúsculas, como um nome próprio a representar TODOS os seus amigos mortos (Gadêa, Pelichek, Sebastião...do SONETO XXI)—e ninguém sabe quem vai puxar quem para o “seu mundo”. Quintana continuará a trazê-los mesmo depois da sua própria morte…até a eternidade, junto com seus versos…também eternos. Por alguns momentos e para eles mesmos, porém,: “nada mais existe!…”.Mas isso está longe de ser por algum vazio! Quem se lembrar de sua própria infância (mas também de seus amores) reconhecerá que, nos momentos mais sublimes, “nada mais existiu”…por alguns momentos, pelo menos. Sorte de quem consegue, como o poeta, reviver essa sensação por toda a vida. Por fim, há que assinalar as reticências depois do “final”! Para Quintana não há finais! O andarilho, suas canetas e seus sapatos continuarão a andar e escrever por esse mundo afora, sempre AFIRMANDO A VIDA!
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