…E LIMA NÃO VIU A ECLOSÃO PLENA DA CULTURA POPULAR!
(Morreu sem perceber que antecipava a superação do militarismo e seus aduladores)
…………………………………
POLICARPO: “…Levara toda a vida atrás da miragem da pátria…a pátria que quisera ter era um mito…um falaz ídolo”. “Sua sensação era de fadiga, não física, mas moral e intelectual*. Tinha vontade de não mais pensar, não mais amar…”
Pouco depois, M. de Andrade daria a resposta pela qual L. Barreto tanto procurara: CULTURA é tudo, já a tal pátria…artifício!

“Brasil amado não porque seja minha pátria,/Pátria é acaso de migrações e do pão nosso onde Deus der…/Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,/O gosto dos meus descansos,/O balanço das minhas cantigas, amores e danças./Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada…”(“O Poeta Come Amendoim”).
…………………………………
O sentimento de solidão dos últimos anos de L. Barreto encontra poucos paralelos na história (A. Gramsci, talvez). E, no entanto, a nossa CULTURA, com o protagonismo dos afrodescendentes, estava sendo gestada, prestes a “explodir” pelo país afora, especialmente no Rio e na Bahia. Tão melancólico quanto o desânimo de Policarpo, é o desalento do próprio LIMA no seu “Gonzaga de Sá” (1919). Saltando do bonde no Campo de Santana, onde uma multidão apreciava uma parada militar: “…Vi regimentos, batalhões…bandeiras do Brasil, sem emoção, sem entusiasmo, placidamente a olhar tudo aquilo, como se fosse uma vista de cinematógrafo. Não me provocava nem patriotismo nem revolta. Era um espetáculo, mais nada…”. Nosso LIMA conseguiu sintetizar, nessa última sentença, o que se passa quando não sentimos a CULTURA de um povo sustentando aglomerações (tornadas “massa amorfa”), por mais espetaculosa que seja uma apresentação qualquer, como temos visto com frequência na praia de Copacabana. Seu uso da palavra “REVOLTA” (ainda que no sentido da não presença) indica claramente o quanto aquilo já o incomodara! Mas tudo isso ia mudar! Dali a alguns anos, seriam as ESCOLAS DE SAMBA a reunir multidões, agora plenas de INDIVIDUALIDADES; todas elas artífices do que acontecia por ali…sob a inspiração e proteção da TIA CIATA. E quanta resistência tiveram que vencer, pois as manifestações da CULTURA africana tinham sido banidas de apresentações públicas! As “autoridades” sabiam de onde vinha a ameaça a seu poder. Enquanto isso: no Estácio cantavam-se sambas; Donga já gravara o “Pelo Telefone” e, no Catumbi, a casa de PIXINGUINHA acolhia “Chorões” criando algumas das nossas mais belas canções.. Mas a eclosão plena da POTÊNCIA da nossa CULTURA (com sua matriz e matiz predominantemente africanos), abarcando e abrangendo quase todas as suas manifestações dignas de nota, teria que esperar pela SEMANA DE 1922. Nunca mais nossa gente simples se reuniria para “apreciar” desfiles militares! Suas plateias se resumiriam aos “órfãos culturais”, gente que age como “filhos de chocadeira”.
…………………………………
TERIA NOSSO LIMA CLAREZA QUANTO AO PAPEL DA CULTURA POPULAR?
“O Brasil não tem povo. apenas público. Povo luta por seus direitos, público assiste de camarote.” (jun 1922 “A CARETA”)
Para ser consequente, qualquer luta de um povo passa pela AFIRMAÇÃO de sua CULTURA…POPULAR por definição. Como todos os negros que tinham se destacado até então—Cruz e Souza (1861-98), M. de Assis, Pe José Maurício (1767-1830)—, Lima se formara através da Cultura Europeia, nela se destacando como poucos europeus. Abordando nossa cultura popular, há em sua crônica “O Morcego” (1915), uma homenagem ao CARNAVAL: “O carnaval é a expressão de nossa alegria. O barulho, o tantã, espancam a tristeza que há em nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer…Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e prazer…”. Há aqui o mesmo preconceito de O. Bilac quando disse da “MÚSICA BRASILEIRA”: “Flor amorosa de três raças tristes”. Intelectuais não eram bons em avaliar a ALEGRIA POPULAR…Não a alcançavam**! CAETANO resolveu a questão: “O samba é pai do prazer/O samba é filho da dor/Um grande poder transformador”. Voltando à crônica, de início, tudo se passa como se o papel do carnaval se resumisse a ALIVIAR tensões e dores. Logo adiante, porém, Lima aprofunda sua importância através de um personagem, funcionário dos Correios que sempre se fantasiava incarnando o espírito do carnaval; quem sabe da nossa CULTURA POPULAR? “…Morcego é uma figura e uma INSTITUIÇÃO que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves. Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do Sr Teixeira…A vida não se acabará na caserna positivista, enquanto os ‘morcegos’ tiverem alegria…”. Eis um GRITO DE INDEPENDÊNCIA e afirmação muito maior até do que o proferido por Pedro I! LIMA e POLICARPO, porém, não tiveram a sorte e o tempo para consolidar essa clareza súbita. Pela Pátria, “…o que não deixara de ver, de gozar, de fruir na sua vida?...Não brincara, não pandegara, não amara—todo esse lado da existência…ele não vira, não provara , não experimentara.”
…………………………………

POLICARPO À PROCURA DOS ELEMENTOS E SINAIS DE NOSSA CULTURA!
“Lembrou-se das suas cousas do tupi, do ‘folk-lore’, das suas tentativas agrícolas…o tupi encontrou incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio…onde estava a doçura de nossa gente?”
A intuição da necessidade de uma CULTURA—sem a qual “muita gente” é mero AJUNTAMENTO—estava muito presente em Policarpo. Sua distância, em relação às fontes das quais ela haveria de se impor, porém, era enorme. Por consequência, seus esforços soavam artificiais e até ridículos, especialmente quando ao receber amigos, “…Desandou a chorar, a arrancar os cabelos…” Diante da surpresa generalizada disse: “Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra…chorar quando encontramos amigos, era assim que faziam os tupinambás”. Há nisso um quê do “Cavaleiro da Triste figura”, D. Quixote. Mas é no seu louvor à “Sinhá Chica, uma velha cafusa…” (significativamente, fruto da miscigenação: povos originais/negros) que Lima antecipa o poder de uma CULTURA prestes a ocupar seu espaço: “Não havia quem, como ela, soubesse rezar dores, cortar febres, curar cobreiros e conhecesse ervas medicinais…era ela o forte poder da terra. O vigário ficava relegado ao papel de funcionário…”. Dos nossos povos “invisíveis”, até o elemento sertanejo Lima atraiu para sua obra, Ricardo Coração dos Outros (debochando do “Coração de Leão”? Tão Brasil!): “…lembrava-se da sua infância, da sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos…”. Era um violonista refinado (em sua simplicidade) e desempenhou papel central na tragédia de Policarpo, acompanhando-o até o fim. Estavam ali todos os elementos para o surgimento de uma grande CULTURA. E a amálgama se fez!
…………………………………
“O QUE SERÁ QUE SERÁ/QUE ANDAM COMBINANDO NO BREU DAS TOCAS/…ACENDENDO VELAS NOS BECOS…”!
Em plena ditadura militar (1976) Milton e Chico lançaram uma canção que antecipava sua queda e a afirmação de nosso povo. Estava sendo gestada uma nova e inevitável eclosão. Aquela que LIMA antecipara (sem saber) talvez tenha sido ainda mais dramática, pois foi a matriz das que se seguiram: “O que será que será/Que todos os avisos não vão evitar/Porque todos os risos vão desafiar/Porque todos os sinos irão repicar/Porque todos os hinos irão consagrar/E todos os meninos vão desembestar/E todos os destinos irão se encontrar/E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/Olhando aquele inferno, vai abençoar/O que não tem governo, nem nunca terá/O que não tem vergonha nem nunca terá/O que não tem juízo”. Estava dado o traço essencial de nossa CULTURA: REBELDIA e não aceitação de cabrestos e controles dos “poderosos” de ocasião! Pois se nem o Padre Eterno ousou enfrentar! Por fim, se há algo que caracteriza uma GRANDE CULTURA é a continuidade no curso de sua EVOLUÇÃO! Apesar de todos os ataques da “GLOBALIZAÇÃO pasteurizante”, cujo melhor exemplo é o “Rock in Rio”, nossa gente tem conseguido resistir. Hoje eles mais têm tentado se aproximar de nossa cultura do que o contrário.
…………………………………
*Trata-se da melhor descrição do processo pelo qual alguém chega ao “Burnout”: colapso dos valores que deram sentido à vida de alguém até ali, não um mero “esgotamento físico” como até gente da área anda repetindo. O próximo passo costuma ser o desenvolvimento de CINISMO nas relações pessoais e para com projetos.
**“Entre nós, tudo é inconsciente, não dura…” (Policarpo- II)…Quanto desânimo! Pois eu afirmo: nossas inclinações culturais se firmaram exatamente por serem profundamente arraigadas; inconscientes. A Razão tem o seu papel na consolidação e nas disputas teóricas com adversários; nunca na origem dos processos. É bem conhecida a cena na qual Villa-Lobos se levanta em uma plateia e contesta violentamente um pernóstico que ousou falar mal de nossa música popular.
…………………………………
LIMA BARRETO… (Samba apresentado ao Bloco “Tá pirando”)
O nosso bloco, eu te prometo,
Vai brilhar nessa avenida
Louvando o teu grande talento
Gênio da raça,
Feriu o orgulho dos pernósticos
Que lhe deram um diagnóstico
Tentando toldar a sua luz.
AHH! Tanta trapaça na imprensa
Apontou no seu “Caminha”
E se ela já de longe vinha
Continua aí como uma cruz.
…………….
Mas a tarefa se mostrou grande demais…
Como “POLICARPO” só na morte teve paz.
Foi internado no hospício de Pedro II
Mesmo de lá seguiu fustigando o mundo
Que os reacionários vivem puxando para trás…
Mas…A sua morte foi um novo nascimento…
LIMA tá aqui nesse momento (PAUSA-suspensão)
E o poder sua obra tá crescendo mais e mais.
…..REFRÃO
Vamos cantar as travessuras
Do belo menino mulato
Seu brilho na literatura
Prá muita gente é desacato.
Buscando aquele humor cortante
Que Lima usou mais de uma vez
Com quem se faz de importante
Fingindo que fala JAVANÊS
…………………………………