SEIS CANÇÕES SOBRE POEMAS DE “OU ISTO OU AQUILO” DE C. MEIRELES
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Compor canções sobre poemas, especialmente os de valor artístico já plenamente consagrado, exige alguns cuidados:
1- um sentimento profundo de estar como que desentranhando a música pré-existente no poema, embora existam muitas possibilidades.
2- em consequência, que a música tenha uma relação muito intima com o espírito que o teria gerado.
3- um respeito à própria inspiração e a eliminação de qualquer artifício.
Quanto à composição estar ou não à altura do poema, é coisa que só o tempo poderá dizer.
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Engana-se quem julgar que poemas para crianças tendem a ser superficiais. Há poemas extremamente dramáticos nesse ciclo, entre os quais “O VILÃO E O VIOLÃO”: “…Vida de Olívia levada/Por um vilão violento/Violeta violada/Pela viola do vento…”

Igualmente dramático é o poema “FIGURINHAS II”, no qual a morte e a saudade são temas principais: “…E Júlia e Maria e Amélia onde estão?…Em que altos balanços se balançarão”. Para essa canção, quando reparei, estava cantando trecho da canção de F. Schubert “Der Musensohn”, O Filho das Musas .
O poema intitulado “CANÇÃO” gerou um ACALANTO, segundo seu espírito, como se pode ver na relação entre o barco, o braço e o berço.
Por fim, o poema que Bandeira fez em sua homenagem: “Cecília, és libérrima e exata/Como a concha/Mas a concha é excessiva matéria/E a matéria mata…”.
NOTA (14/10/25) somente agora dei-me conta da profundidade do último poema aqui apresentado, (PESCARIA). Reparem no esforço, infrutífero, do mar para resgatar seus habitantes (sem aspas) pescados pelos humanos: o mar sente o cheiro dos peixes enquanto “chora” através da espuma. Subitamente, o mar como que desperta e começa a lutar; a se esforçar para os alcançar…“As mãos do mar vêm e vão…em vão…em vão”. “Não chegarão aos peixes no chão”. Por fim, e “Por isso, chora na areia a espuma da maré cheia”!
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O Mosquito Escreve
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.
O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
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A BAILARINA
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
—
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
—
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
—–
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
—-
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
—-
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
—-
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
—-
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
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LEILÃO DE JARDIM
Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é o meu leilão.)
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Figurinhas II
Onde está meu quintal
amarelo e encarnado,
com meninos brincando
de chicote-queimado,
com cigarras nos troncos
e formigas no chão,
e muitas conchas brancas
dentro da minha mão?
E Júlia e Maria
e Amélia onde estão?
Onde está o meu anel
e o banquinho quadrado
e o sabiá na mangueira
e o gato no telhado?
– a moringa de barro,
e o cheiro do alvo pão?
E a tua voz, Pedrina,
sobre o meu coração?
Em que altos balanços
se balançarão?
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Canção
De borco
no barco.
(De bruços
no berço…)
O braço é o barco
O barco é o berço.
Abarco e abraço
o berço
e o barco.
Com desembaraço
embarco
e desembarco.
De borco
No berço…
(De braços
no barco…)
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Pescaria
Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.
Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.
As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.
As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.
Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.
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