PESQUISAS TOC: INCONSCIENTE “DELETADO”!

(Ciência capturada pela “Razão Pura” e “sem animalidades”…ou “CRÍTICA”)

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“…É do consciente que provém uma multidão de enganos…Se o laço preservador dos instintos não fosse de tal modo mais poderoso…a humanidade teria sucumbido fatalmente sob o peso dos seus juízos absurdos…; do seu consciente , considerado a ‘unidade’ do organismo...” F. Nietzsche, “A GAIA CIÊNCIA”.

A PROPÓSITO: “…apesar da oposição dos médicos…que consideravam sua vontade de amamentar algo funesto, Natasha teimou e, desde então, amamentou seus filhos”, L. Tolstói, “GUERRA E PAZ”.

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INTRODUÇÃO

A evolução dos conhecimentos sobre o TOC apresenta curiosidades: 1- uma investigação psicológica exaustiva, gerando um saber consistente, mas muito poucos instrumentos terapêuticos efetivos, o que me levou a comparar a situação com os versos de M. Bandeira: “…músico/Falhado(engoliu um dia/Um piano, mas o teclado/Ficou de fora)” (“Auto-Retrato”)*; 2- o desenvolvimento de psicofármacos que vêm se mostrando efetivos, o que pode ter levado as mentes “muito práticas” a negligenciar outras investigações, certamente consideradas “ociosas e/ou nebulosas”. Os próprios termos que têm sido por eles aplicados (ver abaixo) apontam para a desconsideração de investigações psicológicas dignas do nome. O que dizer, ainda, da tentativa de ignorar nossa ancestralidade animal—sequer entra nos seus raciocínios—,como se a razão tivesse descido do céu sobre nossas cabeças? Como desconhecer a diferenciação dos hemisférios cerebrais e o muito frágil “poder” do HEsquerdo (mais analítico e racional) tentando inibir as expressões do HD (intuitivo, globalizante e impulsivo). Costumo pensar nas obsessões, que tanto assustam a alguns, como expressões de REBELDIA contra os impedimentos da expressão da NATUREZA em nós: “Ainda que expulses a natureza com um forcado, ela voltará a aparecer…” (Horácio)…apenas que escamoteada e PERVERTIDA, como é a regra nos nossos dias. Assim, afirmo sem medo de errar: a proposta dos pesquisadores da área passa por uma espécie de MUTILAÇÃO MENTAL. A discussão aqui travada vai se pautar pela procura e aplicação de alguns PRINCÍPIOS alcançados na filosofia.

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NADA NO UNIVERSO É ALEATÓRIO, APENAS IGNORAMOS SEUS DETERMINANTES!

B. Spinoza (1632-77)

Se há uma conduta que deveria envergonhar quem se diz cientista é a de considerar aleatórios fenômenos e acontecimentos cuja origem não consegue compreender de imediato. Ouviram falar no PRINCÍPIO DA CAUSA EFICIENTE (Aristóteles, ampliado por Leibniz): aplicado na investigação científica e para desmoralizar milagres? Aliás, TODAS as ciências se iniciaram pela associação de SINAIS (“semion”) que pareciam “aleatórios”; sem correlações. O primeiro passo para a construção de uma CIÊNCIA está na associação desses SINAIS. O que dizer, ainda, da expressão “pensamentos intrusivos” (vindos de fora…só da razão) e do tratamento que a eles tem sido dado? Mais do que apenas “aleatórios”, são considerados “negativos” e até “danosos”; como “corpos estranhos”. Talvez B. Spinoza tenha resolvido a questão há mais 300 anos (antecipando o conceito de “Determinismo Psíquico”):

…a maioria crê que os insensatos (loucos) perturbam a ordem da Natureza…Julgam que a alma humana, longe de ser produzida por causas naturais, é imediatamente criada por Deus, e independente do resto do mundo.” Tratado Político” Cap II-§ 6.

F. Nietzsche (1844-1900)

Para ficar apenas na questão do MÉTODO, quem pode duvidar de serem todos os pensamentos produções de uma mente?…Mente essa que, por mais passiva que possa parecer, tem um papel fundamental no processo! Como não reparam, ainda, que tratá-los como “negativos” e/ou “danosos” implica repetir as crenças religiosas com seus “anjinhos e diabinhos”? O que chamamos razão—tão recente na história do nosso planeta—não determina a UNIDADE (tão almejada) de um organismo. O “Torna-te o que és!”  (Nietzsche) implica sintonia de alguém com suas próprias disposições profundas, inclusive talentos. Afinal, a razão surge bem depois do nascimento e apenas sob influência social (ver o “Menino Lobo” e outros), sendo apenas uma superestrutura frágil e, com frequência, arrogante. Se estamos à procura de uma UNIDADE ela certamente será encontrada nas nossas INCLINAÇÕES e disposições mais profundas—para não falar de INSTINTOS—e não nas múltiplas transformações, arranjos e até disfarces a que a vida social nos obriga. Mas as coisas podem piorar (no sentido da violência contra PRINCÍPIOS), pois aqueles pesquisadores estão repetindo: “Você é o que v. faz, não o que pensa!”, esquecendo-se de que, à exceção dos atos automáticos, os demais sofrem intermediação mental, até mesmo os associados a Dist. do Controle dos Impulsos. Percamos o medo de nós mesmos! “Dominar as paixões é apenas um meio, nunca um fim…caso contrário, crescerá todo tipo de erva daninha no terreno fecundo…com mais impetuosidade ainda” (Nietzsche, “O Caminhante e sua Sombra”). O que dizer dos esforços para sua aniquilação?

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PENSAMENTO: TODA ATIVIDADE MENTAL QUE PASSA PELA CONSCIÊNCIA!

No seu processo evolutivo, as ciências esbarram com a necessidade de DEFINIR (aquilo que existe previamente), CONCEITUAR (fruto de nossas concepções: como as virtudes e pecados, por ex.) e CLASSIFICAR. Com a nossa atividade não poderia ser diferente. Há, sim, muita atividade mental subjacente ao que chamamos consciência, mas pensamentos seriam apenas aqueles: 1- decorrentes de intenção específica (trabalhos intelectuais ou manuais, associados a algum nível de concentração); 2- uma espécie de flutuação na mentecomo nos momentos iniciais da inspiração nas artes** (implicando imaginação); 3- os que parecem parasitar a mente, à revelia dos esforços racionais em contrário. Sendo assim, aquele corte abissal entre pensar e fazer, além de artificial, atrapalha a investigação. É bom não esquecer ainda do quanto pessoas com TOC deixam de agir sobre o mundo pelo medo de consequências desastrosas, ainda que só imaginadas. Aquela ressalva (“V. é o que faz”) pode ser tranquilizadora quanto a riscos concretos e imediatos, mas deve servir para preparar a investigação (dependendo dos esforços do próprio paciente, é claro). De minha parte sempre vou partir do PRINCÍPIO de que algo em nós está tentando nos comunicar alguma coisa através daquela imposição de ideias e/ou imagens e também que tentar fugir de nós mesmos, além de empobrecedor, tende a não funcionar. As religiões fizeram algo parecido e só produziram PERVERSÕES, pois a NATUREZA (em nós) há de lutar por se expressar (Horácio), apenas que escamoteada e PERVERTIDA, como é a regra nos nossos dias. Assim, a proposta dos pesquisadores da área parece passar por uma espécie de “MUTILAÇÃO MENTAL”. 

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DESCARTES: A CLAREZA COMO CRITÉRIO PARA A VERDADE…!

“…não pode ocorrer que eu me engane; pois toda concepção clara e distinta é, sem dúvida, algo de real e positivo” (“MEDITAÇÕES”)

Por falar em mutilação…tão obcecado estava Descartes com o MÉTODO em geral—uma novidade da maior importância—que foi por ele como que “devorado”: passou a tratá-lo como o objetivo em si e não um meio para a investigação. E quantos absurdos produziu em função disso! Assim, o RISO e o CHORO seriam determinados, respectivamente, pelo “…sangue…inflando de súbito e repetidas vezes os pulmões” “somos incitados a chorar quando os pulmões estão cheios de sangue e a suspirar quando se acham quase vazios…”. Já no ÓDIO: “…algum suco estranho…sobe do coração para o cérebro a provocar na alma essa paixão…” (Descartes, “As Paixões da Alma”, pavimentando o caminho reducionista até os “pensamentos intrusivos”!

Por fim, uma anedota contada pelo mais respeitado pesquisador em psicofarmacologia no Brasil, muito ilustrativa do quanto a CIÊNCIA precisa de um contraponto permanente com a FILOSOFIA: “o pesquisador parece alguém sob um poste, com uma chave, tentando abrir um carro que não está ali. Alguém passa e diz ‘Mas v. não está vendo que o carro não está aí? Sim, mas aqui tem luz'” (ouvida em apresentação pública). A experimentação, em particular, necessita da criação de “campos controlados e iluminados” que, por definição, não abrangem a vida propriamente. Assim, suas descobertas (frequentemente da maior importância) precisam de uma dimensão maior, a posteriori, que somente a abordagem filosófica lhes pode dar. Os fenômenos da natureza se dão em cadeia e não nos é dada a escolha por qual dos seus elos a pesquisa vai “entrar”; inicia-se pelo elo acessível naquele momento e dependendo dos instrumentos disponíveis. Quando falamos de mecanismo de ação de uma substância, por ex., estamos nos referindo a uma certa ação sobre alguns dos receptores do organismo. Observando o número crescente de receptores que estão sendo caracterizados, deveríamos concluir sempre haver algo para além do nosso conhecimento: uma METAFÍSICA (GW Leibniz, admirador de F. Bacon, o “Pai do Método Experimental”).

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*Alusão a uma dentuça que estava sempre um tanto “de fora”.

**L. van Beethoven dizia que sua arte implicava 10% de inspiração e 90% de transpiração. Tudo passando por formas de pensar.

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