“CANTADORES DO NORDESTE”: UM BAIÃO PARA MANUEL BANDEIRA!

(Seriam, nossos “Cantadores Nordestinos”, herdeiros dos RAPSODOS da Grécia antiga?)

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“Não há nada no mundo de que eu goste mais do que de música”– Bandeira, “Itinerário de Pasárgada”.
“Assim como gosto de ser musicado, gosto de ser traduzido (no fundo, é quase a mesma coisa… (IDEM)
M. Bandeira foi o meu primeiro ALUMBRAMENTO em poesia…vieram outros, que serviram apenas para reforçar ainda mais o primeiro. Foi através de seus poemas, e de forma não intencional, que brotou em mim a “veleidade” (a princípio, pelo menos) de compor melodias para poemas. A primeira se deu com SOLAU DO DESAMADO*. Corria o ano de 1990 e eu estava como que mergulhado nos LIEDER de F. Schubert e nas canções de Villa-Lobos (na interpretação de Aldo Baldin), quando, diante do poema e iniciando por um recitativo, me apercebi de uma melodia como que se libertando e se desenvolvendo em minha mente. Mas foi nas repetições, com sutis variações (por mim julgadas expressivas) que fui invadido pela surpresa acompanhada de certeza : “Mas isso é uma canção!”. Conhecia muito bem toda a obra de Bandeira e parti para releituras de seus poemas, alguns agora associados a melodias que tenho de cor (e gravadas, apenas para que não se percam de todo). A apresentação desse BAIÃO (somente com percussão, de BAIÃO 80bpm) não me causa qualquer constrangimento ou inibição, contrariamente a outros poemas. Afinal, o próprio poema foi inspirado e criado a partir de ritmos populares NORDESTINOS, que tanto aprecio e valorizo. O poema não tem subdivisões. A impressão de ter encontrado, na melodia, “pequenos desfechos” de seções, me fez fazer seu registro com o símbolo #

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CANTADORES DO SERTÃO” (“Não sou poeta não….”?)

Anteontem, minha gente, 
Fui juiz numa função 
De violeiros do Nordeste. 
Cantando em competição, 
Vi cantar Dimas Batista 
E Otacílio, seu irmão. 
Ouvi um tal de Ferreira, 
Ouvi um tal de João. 
Um, a quem faltava um braço, 
Tocava cuma só mão; 
Mas, como ele mesmo disse 
Cantando com perfeição, 
Para cantar afinado, 
Para cantar com paixão, 
A força não está no braço: 
Ela está no coração. 
#Ou puxando uma sextilha 
Ou uma oitava em quadrão, 
Quer a rima fosse em inha, 
Quer a rima fosse em ão, 
Caíam rimas do céu, 
Saltavam rimas do chão! 
Tudo muito bem medido 
No galope do sertão. 
#A Eneida estava boba; 
O Cavalcanti, bobão, 
O Lúcio, o Renato Almeida; 
Enfim, toda a Comissão. 
#Saí dali convencido 
Que não sou poeta não; 
Que poeta é quem inventa 
Em boa improvisação, 
Como faz Dimas Batista 
E Otacílio, seu irmão; 
Como faz qualquer violeiro 
Bom cantador do sertão, 
A todos os quais, humilde, 
Mando a minha saudação. 

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OS CANTADORES DO NORDESTE E OS RAPSODOS GREGOS!
Tudo no poema é tão claro e evidente que dispensa maiores considerações. Em relação, porém, a dois de seus versos, penso haver algo a dizer. “Saí dali convencido/Que não sou poeta, não…”. O poeta parece ter descido subitamente às origens da própria poesia e se sentido pequenininho diante da grandeza vislumbrada. Racional e intelectualmente, ninguém conhecia o tema como Bandeira, mas aquele teria sido um momento “de mergulho” nessas origens, encontradas, aliás, na própria região de onde ele mesmo provinha. Para o bem da própria poesia, aquele encontro foi eternizado através de um poema. Quem sabe houve ali um sentimento profundo de ser, ele mesmo, apenas um continuador de uma história que remonta aos gregos homéricos?…E tudo isso reproduzido em nossos sertões!! Pelo menos duas marcas essenciais daquela poesia original estavam ali plasmadas: seu vínculo “umbilical” (ou siamês)  com a música e a espontaneidade da poesia falada e não escrita. Sim, os Rapsodos gregos eram analfabetos, como bem o demonstrou Nietzsche. A própria palavra alemã para designar poeta: “DICHTER” (aquele que dita para que outros escrevam) demonstra essa ligação com a música; ritmos com toda a certeza e melodias, provavelmente. Os gregos eram, em sua maioria, analfabetos e sua cultura eminentemente verbal, inclusive sua FILOSOFIA (sob a forma de diálogos), o teatro (com seus coros) e outras manifestações. A música seria seu elemento central, mas não há dela registros confiáveis autorizando sua reprodução (não havia escrita musical, propriamente). Ela certamente está entre nós de múltiplas outras formas, sem que a identifiquemos. 

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*Em trabalho conjunto, estava eu esboçando uma adaptação do D. Quixote para o teatro. Perto do final da obra (Livro II-1615). A família do personagem monta para ele uma “armadilha bem sucedida”: outro “Cavaleiro Andante” (“…Da Lua Branca”) vai desfiá-lo a um duelo. O derrotado teria que abandonar sua missão e retornar à sua casa. O referido cavaleiro espera D. Quixote em seu caminho dedilhando um violão e cantando canções da época. Lembrei-me do “SOLAU DO DESAMADO” e iniciei um quase recitativo…foi o suficiente! Há testemunhas, mas isso vai me obrigar a outra publicação.

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