M. QUINTANA- CANÇÕES SOBRE SONETOS DE “A RUA DOS CATAVENTOS”!
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NOTA: só há um antídoto contra a formação de um olhar enviesado e estereotipado sobre a obra de um grande artista: ampliar a divulgação e a discussão da sua produção menos conhecida. Foi com grande surpresa que recebi, da parte de muitos apreciadores da obra de Quintana, um retorno da sua surpresa quanto à grandeza dos poemas apresentados nessa série. Não os conheciam bem. Eu mesmo considero que demorei demais a descobrir o Quintana que brota desse ciclo. Nosso poeta é um caso raro (senão único) de artista que atingiu, já nas suas primeiras produções, um auge de difícil superação, embora ainda não suficientemente reconhecido! É o que tentarei demonstrar. Por isso mesmo, penso que toda a sua obra precisa ser olhada a partir de “A RUA DOS CATAVENTOS”. Se, de alguma forma, as considerações e discussões que apresentarei ajudarem na compreensão e apreciação dos SONETOS correspondentes, meu esforço terá sido recompensado.
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INTRODUÇÃO!

Quando Quintana publicou seu primeiro livro (35 sonetos, 1940), o MODERNISMO dominava o cenário das artes. Não chegou a ser um escândalo, pois não teve grande repercussão, mas sua condenação entre os intelectuais foi generalizada. Afinal, o SONETO é uma das formas mais tradicionais em poesia e havia quem quisesse eliminar TODAS as formas na arte. Os candidatos a “liderança de movimentos” chegaram a ver ali um adversário a ser combatido como um “anti-modernista”. Ao meu olhar, porém, Quintana fez “apenas” uma declaração (tácita) de INDEPENDÊNCIA e de afirmação da sua arte, como a dizer: “meu único compromisso é com a minha própria inspiração”, a partir, é claro, da sua formação pessoal e intelectual até ali, especialmente da influência do português Antônio Nobre: “Contigo fiz, ainda em menininho,/Todo o meu curso d’Alma…E desde cedo…” (Soneto XI- para A. Nobre)! A expressão “curso d’Alma” impressiona de todas as formas, especialmente para um reconhecimento do bem que uma obra de arte pode fazer a alguém: “…Anto querido, esse teu livro ‘Só’/Encheu de luar a minha infância triste/E ninguém mais há de ficar tão só:…”! É bom assinalar que, entre seus críticos, havia uma aversão a A. Nobre e o livro de Quintana acabou por se transformar em uma espécie de “armadilha” não intencional na qual caíram muitos julgadores apressados, inclusive críticos consagrados, como Álvaro Lins (citado por Fausto Cunha*): “Não sei quais tenham sido as relações do Sr M. Quintana com o Modernismo, mas os seus versos mostram-no como um indiferente ao que se passou…de 1922 para cá”. No seguimento diz ele ser aquela poesia: “simples, limitada, repetida”, completando com qualificativos que pretendiam ser pejorativos, mas que eu leio como elogios: “tudo é delicadeza, é simplicidade, é humildade”. Mais tarde, conhecendo melhor o poeta, o crítico se deu conta de que Quintana estava muito para além do compromisso com “escolas”; sempre à procura dele mesmo e não sacrificando sua inspiração a FORMAS (muito menos a “fôrmas”): “O que há de mais triste nesses poetas de equipe é que eles naufragam todos ao mesmo tempo.”(Quintana, Caderno H). Enfim, posso imaginar a indiferença com que Quintana recebeu aquelas críticas, como seria esperado de quem um dia escreveu: “…Eles passarão…Eu…passarinho!”. Que Quintana continue a voar sobre e dentro de nossas cabeças! Aquele que for por ele atingido nunca mais se sentirá só! Toda a dimensão humana estará ali ao seu alcance.
DA RELAÇÃO FORMA X CONTEÚDO! “EXTEMPORANEIDADE” DOS SONETOS?
Ainda hoje há quem tente opor FORMA X CONTEÚDO em arte, quase sempre julgando “priorizar” o último. Esquecem-se de que até na linguagem popular dizemos: “tomou forma” para algo que, depois de algum esforço, conseguimos realizar. Esse sério erro deriva da confusão que se faz entre FORMA e “FÔRMA” (rígida, por definição); essa sim, potencialmente limitadora da expressão. É bom lembrar, ainda, do paralelismo entre o SONETO e a forma SONATA em música, aplicada a muitas das maiores composições já realizadas. Bandeira chegou a iniciar um poema em “forma de SONATA” que abandonou. A canção de Mendelssohn (sobre poema de H. Heine) “Nas Asas da Canção” talvez sirva como um bom exemplo de como uma certa “FÓRMA” é inevitável na arte. Em uma alegoria, diria que as canções tendem a como que decolar, subir (a favor ou contra o vento e nas bolhas de ar quente), voar de forma mais ou menos ampla, planar, preparar a descida e, finalmente, aterrissar. Os esforços para ir além dessa forma podem gerar novas formas, ainda que de maneira não intencional.
Aos que consideraram, à época, extemporânea a empreitada “QUINTÂNICA”—com seu “retorno” aos SONETOS, nunca de todo abandonados—respondo haver ali um LEGADO ATEMPORAL. Foi Nietzsche quem afirmou serem os períodos de decadência os mais propícios à criação de obras de arte, especialmente aquela com um certo matiz “crepuscular”? Pois bem, o maior amante dos crepúsculos teria dado ao SONETO o seu mais belo “crepúsculo”: em alto estilo; sem qualquer grandiloquência e apontando múltiplas AURORAS. Afirmo, sem medo de errar, estar ali reunido o que havia de mais elevado em toda a poesia mundial, que Quintana conhecia muito bem. “A Rua dos Cataventos” é já uma expressão que nos atinge profundamente, bem para além da compreensão racional. Mas podemos tentar decifrar alguns dos processos que se passam na mente do poeta, sempre bem para além da razão: os inúmeros “ventos” da inspiração poética—de todos os tempos e de todo mundo (como acontece com os grandes poetas)—se reuniram na sua “RUA”, “catados” e sugados que foram em todos os confins. Em relação a essas minhas associações, tenho um critério: se acrescentam poesia, têm validade.
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DA RELAÇÃO POESIA-MÚSICA!
Musicar um poema implica, necessariamente, tentar desentranhar a musicalidade que teria dado origem à própria obra. O mesmo sugere Fausto Cunha na sua avaliação do ciclo, pois haveria ali: “…um tratamento rítmico e melódico muito consciente, não raro magistral” (citado por Tânia Franco Carvalhal*). A maior dificuldade para quem abraça essa empreitada está em não se deixar inibir demais pela grandeza da obra de um poeta. Assim, muito mais do que se exigir “níveis” de qualidade daqueles que se arriscam no caminho (especialmente em relação a um poeta consagrado) é esperado que o resultado mantenha: 1- uma relação profunda com a obra inspiradora; 2- um respeito à própria inspiração, evitando artifícios. Com relação aos tais “níveis”, somente o tempo haverá de estabelecer.
A relação entre música e poesia é quase absoluta. Os Trovadores (aqueles que procuram e acham palavras para as canções) Provençais, porém, falavam de uma subalternidade da poesia em relação à música: “poema sem música é como um moinho sem água”. De minha parte, se escrevi alguns versos, foi em função da música. Grandes poetas, porém, demonstraram o quanto de música conseguiam expressar através dos seus versos: seu ritmo, harmonia, contraponto… Mas há algo que só a poesia tem: a magia indefinível da beleza de um verso. Use um sinônimo, modifique a sintaxe e…adeus poesia! Quintana não precisa de música, além da que já imprimiu em seus versos, mas imagino que se interessaria quanto a ter inspirado tentativas de gênero. M. Bandeira (seu grande amigo) dizia que um dos seus maiores prazeres era ser musicado. E como o foi! Alguns dos poemas de Quintana teriam sido já musicados, mas o resultado não é muito conhecido, o que não diminui seu valor. Quanto ao meu trabalho, tenho certeza apenas de que algumas pessoas me agradecerão pela sua própria introdução a um aspecto da obra de Quintana que foi um tanto eclipsado pelos livros que se seguiram. E se, de todo, esse meu esforço não interessar a mais ninguém, foi muito valioso para mim mesmo. Poucas vezes me senti tão capturado pela atmosfera (“nastroenie” em russo) de um artista. Não por acaso esse termo se consagrou na literatura (segundo R. Fonseca) a partir do russo. De Gogól a Dostoiévski, os russos foram inigualáveis na criação de uma atmosfera para além das palavras. Quintana não lhes deixou nada a dever! Algumas de suas atmosferas de mistério são insuperáveis, como nos SONETOS 12 e 31 “b” (excluído e substituído pelo próprio Quintana da segunda edição da obra).
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*M. QUINTANA: OBRAS COMPLETAS (volume único 2005-Ed. Nova Aguilar). Dois dos seus sonetos, lidos há muito tempo em uma Antologia, inspiraram-me música de imediato (os de números VI e XXX) e têm me acompanhado como a exigir alguma apresentação: direito (quase dever) de quem pensa ter produzido alguma arte. Os demais foram surgindo nos últimos anos, na medida em que mergulhava no universo do poeta a partir da rica publicação de sua obra completa.
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