QUINTANA: UM BOLERO EM CONTRAPONTO COM “LA BARCA” E “EL RELOJ”?

(Um dos seus mais afirmativos sonetos…Tantas ALVORADAS na vida do poeta…!)

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SONETO-XX DE “A RUA DOS CATAVENTOS” 

Estou sentado sobre a minha mala 

No velho bergantim desmantelado… 

Quanto tempo, meu Deus, malbaratado 

Em tanta inútil, misteriosa escala! 

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Joguei a minha bússola quebrada 

Às águas fundas… E afinal sem norte, 

Como o velho Sindbad de alma cansada 

Eu nada mais desejo, nem a morte… 

……

Delícia de ficar deitado ao fundo 

Do barco, a vos olhar, velas paradas! 

Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo 

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Pra que partir? Sempre se chega, enfim… 

Pra que seguir empós das alvoradas 

Se, por si mesmas, elas vêm a mim?

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O início do SONETO faz pensar em final dos tempos, desalento e destruição: “Bergantim desmantelado…sentado sobre a mala…bússola quebrada…velas paradas”! E, no entanto, tudo evolui para uma das maiores afirmações da vida e da POTÊNCIA individual que conheço: “Prá que seguir empós as alvoradas/Se por si mesmas, elas vêm a mim?…” O poeta não perderá mais tempo à procura de alguma “inútil e misteriosa escala”. Afinal, seu próprio universo interior é tão mais rico!

O bergantim (associado ao “La Barca”) e a interrupção das viagens foi, provavelmente, a inspiração para um bolero. O resultado, porém, é um curioso contraponto com 2 boleros clássicos (que muito me impressionaram na adolescência): “La Barca” “El Reloj”  (do mexicano Roberto Cantoral). Ocorre que, enquanto os boleros clamam por uma paralisia (tentando fazer com que uma mulher não se vá): 1- em “La Barca”, “Cuida que no naufrague en tu vivir”) ; 2- em “El Reloj”, implorando que ele não mais marque as horas, tornando aquela “noite perpétua”. Já no SONETO de Quintana, se dá exatamente o oposto: ele está completamente solitário e vai empreender uma viagem à procura de si mesmo. 

O resultado dessa associação foi um reencontro com minha própria história. Como cantei boleros na infância/adolescência! Depois, associados que foram à decadência e ao melodrama, caí no deboche cáustico, tão típico dos brasileiros que se julgam intelectuais. Tendo feito agora sua associação com o poema, voltei a ouvir os grandes boleros e me emocionei. E qual não foi minha surpresa! Conhecia-os muito bem e…profundamente! De uma coisa eu havia já me dado conta: minha voz era muito mais adequada ao bolero do que ao samba, por ex. Os boleros estão muito entranhados em nossa cultura. Aldyr Blanc e J. Bosco, em “Dois prá lá, dois prá cá”, compuseram talvez o mais lírico e bem humorado de todos os boleros, conseguindo, em alguns versos, reviver toda uma época: “Torturante ‘bandaid’ no calcanhar”; “Brincos iguais ao colar”; “E hoje me embriagando/de uísque com guaraná…”. A embriaguez era também de outro tipo: a embriaguez da poesia de que falou Baudelaire*; no caso, de um lirismo ingênuo que continuará a arrastar a quantos têm poesia dentro de si. 

E a decadência associada aos boleros? Há ali, sim, um quê de decadência e isso me obrigou à tentativa de sua definição. Penso ter chegado a uma fórmula bem objetiva e restritiva: Decadência implica tentar fazer parar algum processo INEVITÁVEL! Por consequência, quem o tentar vai DECAIR inexoravelmente. A grande dificuldade, a partir disso, passa a ser sua apercepção antes da queda. Para os boleros não há dificuldade alguma. Em nenhum deles isso é tão claro quanto em “El Reloj”: “… Reloj, detén tu camino/Porque mi vida se apaga/Ella es la estrella que alumbra mi ser/Yo sin su amor no soy nada”.

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E é aqui que o gênio de QUINTANA atinge paragens mais elevadas. Enquanto os outros se sentem esvaziar, ele se torna o centro do seu próprio mundo e de todas as alvoradas; seu NORTE, como uma espécie de Estrela Polar em torno da qual o mundo parece girar. Alguns poderiam pensar ter ele desistido de agir sobre o mundo; sua vida teria se tornado mera existência vazia. Também cheguei a pensar nesse risco: a queda do poema na apologia da mera existência vazia. Basta, porém, se lembrar das ALVORADAS para perceber exatamente o oposto: o poeta está abandonando falsos valores que nos são (quase) impostos pelos que nos amam. Isso já estava anunciado, aliás, no início do poema: “Tanto tempo, meu Deus, malbaratado/Em tanta inútil misteriosa escala”. O ponto máximo desse processo de tomada de posse de sua própria vida está em “Delícia de ficar deitado ao fundo/Do barco a vos olhar, velas paradas”Poucas vezes vi uma figura tão expressiva do processo de se encontrar consigo mesmo: “Torna-te o que és” (Nietzsche)! Não posso deixar de fazer um paralelo com seu amigo M. Bandeira:“…O vento varria tudo/E a minha vida ficava/Cada vez mais cheia de tudo!”. Por fim, a melodia que se definiu em minha mente o foi em TOM MAIOR. Não me são muito frequentes! Àqueles que acharem nela semelhanças para com as canções citadas, digo ser um elogio: foi sim essa a inspiração! Mas o espírito quer me parecer ser bem diferente…Quem sabe mais próximo de Quintana?!

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*”Para não sentirem o fardo horrível do Tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se”. POEMA EM PROSA.

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