QUINTANA: UMA SERESTA PARA O ALÉM TÚMULO!
(Reafirmando a VIDA…ludibriando a morte)
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SONETO XXXV: último de “A RUA DOS CATAVENTOS”
Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!
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Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!…
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Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…
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E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…
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Quando Quintana publicou seu primeiro livro—Rua dos Cataventos, 1940, com seus 35 SONETOS)—o MODERNISMO já dominava o cenário das artes. Não foi um escândalo, pois não teve grande repercussão, mas sua condenação entre os intelectuais foi generalizada. Afinal, o SONETO é uma das formas mais tradicionais em poesia e havia quem quisesse eliminar TODAS as formas na arte. Os candidatos a “liderança de movimentos” chegaram a ver ali um adversário a ser combatido como um “anti-modernista”. Ao meu olhar, porém, Quintana fez “apenas” uma declaração (tácita) de INDEPENDÊNCIA e de afirmação: “meu único compromisso é com a minha própria inspiração”, a partir, é claro, da sua formação pessoal e intelectual até ali! Posso até imaginar a indiferença com que Quintana recebeu esses ataques, como seria esperado de quem um dia escreveu: “…Eles passarão…Eu…passarinho”.
Ainda hoje há quem tente opor FORMA X CONTEÚDO em arte, quase sempre julgando “priorizar” o último. Esquecem-se de que até na linguagem popular dizemos: “TOMOU FORMA” para algo que, depois de algum esforço, conseguimos realizar. Essa rematada tolice, deriva da confusão que se faz entre FORMA e “FÔRMA”, rígida (por definição) e potencialmente limitadora da expressão. É bom lembrar, ainda, do paralelismo entre o SONETO e a forma SONATA em música, aplicada a muitas das maiores composições. Bandeira chegou a tentar escrever um poema em “forma de SONATA” que abandonou. O SONETO aqui apresentado é um exemplo de como uma “estrutura” pode ajudar a organizar a EXPRESSÃO poética e musical. A canção que inspirou tenta ser fiel àquela estrutura, com variações expressivas para os quartetos e tercetos:
1-ABERTURA: antecipação da morte; esforço de ruptura ativa com o passado e tentativa de DELIMITAÇÃO do novo “espaço”, suportando a solidão inicial. A morte sequer esfria o corpo, como uma morte qualquer; antes, dá a ela um “frescor de lua”!
2- AFIRMAÇÃO e ocupação do “novo” ESPAÇO: expressão de desejos; expectativa de reencontros e resgate de REDE DE RELAÇÕES! Ver também a libertação das amarras do IDEAL: “Quero é ficar com alguns poemas tortos…!”
3- CLÍMAX: uma ponte através da qual o poeta leva seus maiores valores; transição, além da total OCUPAÇÃO do novo “ESPAÇO”. Tudo se inicia pelo que há de mais grandioso nas expressões da natureza e termina com a mais íntima das experiências de um jovem: “…o rir das primeiras namoradas”.
4- CONCLUSÃO: o “novo mundo” vai ficando tão rico que Quintana termina por reafirmar a vida de forma explícita. Parece até uma “pegadinha” com a morte, a ela restando apenas “fitar com espanto”! O próprio verbo URDIR confessa uma trama! Qual a SOLUÇÃO para o aparente paradoxo? “Fronteiras porosas” entre a vida e a morte, tema constante na sua poesia: “Os fios de vida que eu urdi cantando/Na orla negra de seu negro manto…”.
Se há uma expressão marcante de ESTILO, é fazer com que a “cobra morda o próprio rabo”: terminar enfeixando aquilo que foi anunciado de início. Não faltou uma pequena dose de “veneno” de deboche da própria morte. O que dizer, ainda, da beleza intangível de cada verso? A morte pode recobrir quase todo o UNIVERSO com seu manto, mas não escapou de ter “fios de vida…” urdidos à sua volta enquanto o poeta canta! Por fim, nunca soou tão forte o dito bíblico em poesia: “Morte! Onde está sua vitória?!”