TOLSTÓI: “MEMÓRIAS DE UM LOUCO”! T. DE PÂNICO NA LITERATURA!
(Muita riqueza na clínica e um drama moral bem para além da clínica)
LEÃO TOLSTÓI (1828-1910)

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1- INTRODUÇÃO
Trata-se de leitura antiga, reativada por discussão em S. Clínica no IPUB. Durante a discussão de um caso, no qual a eclosão de um episódio de agitação psicomotora e distúrbios graves da capacidade de bem JULGAR (ideias delirantes), alguém na plateia fez a consideração: “certamente teria ocorrido algo importante no período que não foi assinalado”; algo “negativo”, com certeza. Era uma afirmação temerária que logo se desdobrou para: “Ela deve ter tido episódios anteriores”, tese abraçada por alguns membros da mesa o que muito me preocupou. Perguntar por acontecimentos especiais da vida (mortes de pessoas próximas, aposentadoria, separações em relação amorosa e outras), temporalmente associadas à condição desenvolvida, faz parte da ENTREVISTA PSIQUIÁTRICA (mas não somente). Na imensa maioria das vezes, porém, nosso esforço há de ser relativizar (salvo situações especiais, como no TEPT, embora a personalidade prévia tenha peso significativo) o papel causal do possível acontecimento. As “MEMÓRIAS” (com forte conteúdo autobiográfico) aqui estudadas são uma demonstração de que, com alguma frequência, a tendência POSITIVISTA da associar diretamente graves crises a acontecimentos considerados “ruins” atrapalha a compreensão mais profunda das situações, especialmente em se tratando de dramas morais (crises de VALORES) subjacentes.
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2- CENA INFANTIL e FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE
Um menino muito sensível, que não conseguia dormir sozinho, agarra-se à mão de sua ama e consegue se sentir melhor ao pensar: “Quero bem à niania e a niania me quer bem; a mim e a Mitienka (seu irmão)...quero bem a ele que quer bem à niania…que quer bem a Tarás (e continua nomeando pessoas)...e a niania quer bem à mamãe, a mim e ao papai—reparar que a NIANIA está no centro de tudo—Todos querem bem, e todos estão contentes…”. Eis que entra a governanta da família encolerizada reclamando de alguma coisa; a niania rebate agressivamente e estoura um conflito entre as duas. A reação do menino: “Experimento uma sensação de dor, medo e atordoamento…Um horror…um gélido horror me invade e meto a cabeça sob a coberta”. Mentes POSITIVISTAS tenderão a olhar para o CONFLITO como sendo problema na situação. Já quem tem uma perspectiva DIALÉTICA, para a vida e para o mundo, dará mais peso ao DESPREPARO de muitas mentes para lidar com conflitos. Afinal, como foi dito há cerca de 2600 anos: “O conflito é o pai e a mãe de todas as coisas” (Heráclito de Abdera). Os mais sensíveis (quem sabe despreparados para os conflitos!) podem substituir a palavra por COMPETIÇÃO, devendo observar que a primeira delas, nas nossas vidas, dá-se entre ESPERMATOZÓIDES, não é mesmo? E então já encontramos algo que pode nos nortear: o esforço da SUBLIMAÇÃO dos conflitos transformando-os em boas competições. É o princípio da EMULAÇÃO: uma competição na qual todos tendem a crescer, contrariamente ao que acontece com a INVEJA, quando a tentativa é de destruição de um valor que alguém sente como inalcançável. Seguem-se outras situações provocadoras do mesmo horror no menino, agora mais crescido, especialmente a “punição” de um rapazinho pobre por ele presenciada, culminando ao escutar um relato da PAIXÃO de CRISTO e suas torturas. Em todas as situações avulta no jovem uma empatia extrema para com o sofrimento (nada) alheio. Só para que não passe em branco, é essa empatia que gera esperança (minha, pelo menos) no futuro da humanidade.
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3- SUCESSO…”VÍCIOS”…MATRIMÔNIO…RIQUEZA E…ATAQUES DE PÂNICO!
Vida que segue, o jovem se forma em Direto, depois de passar por todos aqueles, assim chamados por Tolstói: “vícios da juventude”; casa-se, tem filhos e chega ao cargo de JUÍZ DE PAZ! Tendo amealhado recursos, sai a campo para comprar uma propriedade no campo: “Mantinha-me ao corrente de todas as propriedades à venda e lia seus anúncios com a intenção de adquirir uma em condições tais que sua renda, ou uma mata a vender, cobrisse as despesas…Andava à procura de um imbecil que não compreendesse patavina da coisa…e encontrei um nessas condições”. É bom não esquecer de sua disposição profunda à EMPATIA, aqui posta de lado!
É quando, durante a viagem para a compra, vem seu primeiro ataque de pânico propriamente dito: “…poderia morrer lá, longe de minha casa. E sobreveio um calafrio…Por que viera até ali? Aonde estava levando a mim mesmo?…Tratei de me deitar. Mal o fizera, porém, saltei bruscamente do divã e me veio uma angústia idêntica àquela que precede o vômito…”. A assinalar a admiração que ele sentia, nesse momento, pela segurança e bem estar de seu empregado: “Tudo para ele era belo e agradável, enquanto que para mim…” E veio uma forma de DESPERSONALIZAÇÃO: “Torturantemente, a alma se destacara do corpo…e, de repente, a morte, o aniquilamento de tudo”. No seguimento, aproximou-se mais da igreja e das práticas religiosas, deixando de lado preocupações mundanas. Com isso, conseguiu algum equilíbrio.
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4- CRISE MORAL E “SUPERAÇÃO”
Tendo conseguido estabilidade, embora com prejuízos no desempenho social (segundo suas próprias palavras), volta a acalentar o sonho da compra de uma propriedade. Encontra uma, não muito distante e, durante a visita, percebe que são camponeses que “não tinham outra terra senão as hortas…deviam, gratuitamente e em troca do pasto, trabalhar nas lavouras do patrão”. Essa era a “excelência do negócio”, assim avaliado “à força dos meus velhos hábitos”. Em casa, enquanto relatava à esposa as vantagens da propriedade: “…sobreveio-me vergonha de mim mesmo. Pareceu-me tudo abominável…lucro baseado na miséria de outros…iluminou-me dum jato a verdade do que dissera…Minha mulher foi tomada pela raiva e me censurou”. Tendo ido à igreja, distribuiu o que tinha nos bolsos e “…Fui-me embora a pé, conversando com a gente do povo…”. Essa era a LOUCURA assinalada.
A crise moral do personagem é óbvia e disso podemos tirar algumas referências para nossas intervenções. Considerando que, na vida, somos movidos (ou paralisados) a partir de VALORES, investigar possíveis choques da vida do dia a dia com esses VALORES pode abrir caminhos. Já tratei 2 situações de homens ligados ao mercado financeiro (com ataques de pânico) que viviam em permanente (e não consciente) conflito de valores: tentavam incorporar práticas contrárias às suas inclinações profundas. De um deles guardei 2 “ditados”, CÍNICOS e correntes entre seus colegas: 1- “Quando, em reunião de negócios, você não identifica o ‘PATO’, pode estar certo: O PATO É VOCÊ”, uma espécie de confissão dos “valores” que ali imperam; 2-“Na vida, se é MARTELO ou BIGORNA”. Tradução: quem não bate, apanha. Não são poucos os que tentam transformar em VALORES suas PRÓPRIAS PERVERSÕES. Esquecem-se de que para cada BIGORNA que permanece firme, vão-se centenas de MARTELOS quebrados.
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5- CONCLUSÃO
Se há uma condição para a qual há tratamentos muito efetivos, é o Transt. do PÂNICO: condição terrível de sofrer, mas boa de tratar. Não devemos nos satisfazer, porém, com a cessação dos sintomas. Avançar na compreensão de possíveis conflitos subjacentes há de enriquecer a expressão de uma personalidade. O abalo das defesas, até ali aplicadas, propicia uma revisão da vida em outras bases. O maior desafio, na vida em geral, é que cada vez mais nos aproximemos de nossas disposições mais profundas. Por isso aprecio tanto o “Torna-te o que és!” (Nietzsche, a partir do poeta PLÍNIO?)…e nunca se envergonhe de você mesmo. A tola sentença dos empiristas ingleses (inspirada em Aristóteles): “Somos uma ‘Tábula rasa’ na qual a experiência como que escreve”—fonte de muitos absurdos, especialmente na “EDUCAÇÃO”—foi superada há muito tempo. Pois se nem para fazer uma escultura, qualquer pedra serve; quanto mais para moldar um ser humano! (inspirado em GW LEIBNIZ). Diria mais, esse desrespeito às nossas inclinações e disposições profundas é fonte das maiores PERVERSÕES humanas. O maior desafio de um EDUCADOR está em identificar e respeitar essas disposições/inclinações, ajudando-as a se firmarem. E se elas apontam para o que costumam chamar “DESVIOS”—palavra já perversa na origem, pois aponta para um caminho único—eles provavelmente se devem a desrespeitos já sofridos. Aos mais céticos, repito com NIETZSCHE: “O que importa em um juízo não é se ele é verdadeiro ou não, mas se é EDIFICANTE!” (“Sobre a VERDADE e a MENTIRA no Sentido EXTRAMORAL”). Afinal, todas as CULTURAS foram edificadas sobre MITOS. É bom também lembrar: à exceção da descoberta dos astros no cosmo e dos elementos da natureza, todas as demais “verdades descobertas” foram como que construídas a partir da ação humana. Sendo assim, é certo que uma BOA E PACIENTE DISPOSIÇÃO para com nossos semelhantes tem uma chance muito maior de construir algo de bom à nossa volta do que o ranço espalhado por gente AMARGA e RESSENTIDA.