QUINTANA: SÓ MESMO UM CHORINHO PARA CANTAR A “AVOZINHA GAROA”!

(O intimismo simbolista na poesia é muito associado à música, muita música!)

Como antecipado por Nietzsche, em “AURORA”, somos “dividuum”

A constatação de que nossos 2 Hemisférios têm funções diferentes—ESQUERDO: lógico, analítico…enquanto o DIREITO é mais intuitivo, globalizante, emocional…—deveria obrigar a Psicanálise a rever certos conceitos, especialmente o excessivamente esquemático “APARELHO PSÍQUICO”. Afinal, como disse Nietzsche na mesma obra (debochando de Descartes): “O EU (EGO) isolado é uma ficção”, amplamente confirmado pelos “Neurônios espelho”. Interessante é distinção, feita por Freud, dos processos do pensamento em Primário (mais ligado aos desejos) X Secundário (mais racional)Que ele tenha associado o PRIMÁRIO a frustrações e infelicidade, é de lamentar! Quintana trabalha e transita entre eles como ninguém! O que seria de uma (eventual e pouco provável) poesia “muito racional”? João Cabral até o tentou, chegando a condenar o LIRISMO como algo a evitar. O que fez de melhor é tão lírico! 

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Rua dos Cataventos, SONETO VII

Avozinha Garoa vai contando 

Suas lindas histórias, à lareira. 

“Era uma vez… Um dia… Eis senão quando…” 

Até parece que a cidade inteira 

….

Sob a garoa adormeceu sonhando… 

Nisto, um rumor de rodas em carreira… 

Clarins, ao longe… (É o Rei que anda buscando 

O pezinho da Gata Borralheira!) 

……….

Cerro os olhos, a tarde cai, macia… 

Aberto em meio, o livro inda não lido

 Inutilmente sobre os joelhos pousa… 

…….

E a chuva um’outra história principia, 

Para embalar meu coração dorido 

Que está pensando, sempre, em outra cousa…

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Avozinha Garoa: expressão que, olhada (e ouvida) do ponto de vista da razão fria, parece não ter sentido. E, no entanto, como nos atinge! Desde então, não penso mais em garoa sem sua associação à avozinha! Fica, então, a pergunta: seria possível uma aproximação da compreensão do processo pelo qual esses efeitos se dão? Antes de tudo, é bom não descambar para a preguiça intelectual de atribuir essas associações ao acaso. Fosse assim, o efeito poético seria nulo. Os maiores efeitos poéticos sempre se dão para além da razão, mas não têm nada de absurdo! O próprio Quintana dá a fórmula ao falar do seu: “…coração dorido/Que está pensando sempre em outra coisa.” Como assim!? O coração pensando!? Não, apenas o símbolo dos SENTIMENTOS; a rigor, da atividade mental bem antes da formulação das IDEIAS propriamente ditas! Foi o que Dostoiévski antecipou em “O ADOLESCENTE”ideia é um sentimento que, por vezes, demora muito a se configurar”. 

Pois bem: nosso poeta, como nenhum outro, desceu e transitou “para além…ou aquém” das IDEIAS fazendo conquistas que vão muito além da mera sondagem psicológica. O resultado só poderia ser a maior poesia possível! Quer dizer…”menor”, no sentido do intimismo, sem o efeito bombástico das epopeias de tantos poetas. Foi, aliás, o que M. Bandeira (grande amigo de Quintana) expressou: “Sou poeta menor, perdoai!”. 

Mas a descida sistemática a esses confins profundos se iniciou com o anunciador da PSICOLOGIA, G. W. LEIBNIZ (1646-1716, o pensador mais injustiçado da história) com seu conceito de APERCEPÇÃO (“Novos Ensaios”-Prefácio): auto investigação dos processos mentais INCONSCIENTES que determinam nossas expressões; quase sempre seguidas da ilusão de controle pela pobre RAZÃO. Em sua discussão com os empiristas ingleses (apostavam na passividade: “mentes tábulas rasas nas quais a experiência escreve”), Leibniz não economizou linguagem clara e crua. Segundo ele, haveria muito a ser “desenterrado de dentro de nós mesmos”. Assim, seríamos capazes de “fornecer…algo de pensamento, desde que estejamos dispostos a neles escavar”. Ninguém o fez como Quintana. Seu instrumento, a poesia.

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E O EFEITO DA EXPRESSÃO “AVOZINHA GAROA”?

Sem a pretensão de esgotar compreensões, tentemos estimular a reflexão. Se há algo amplamente reconhecido nos meios científicos, é o papel determinante da presença perene da água na origem e preservação dos primeiros assentamentos humanos*. Sendo assim, podemos dizer que a chuva seria uma espécie de “mãe” desses assentamentos. A garoa, então, por sua suavidade, fragilidade e cuidado nos movimentos, poderia ser considerada sua “avó”. A “cidade inteira”, não deixa de ser um assentamento que “Sob a garoa adormeceu sonhando”. Perdoem-me se exagero, mas tudo na civilização teria se dado sob o cuidado e proteção da “avozinha garoa”. A oscilação da clareza da consciência, levando ao afrouxamento do poder da Razão—por dissociação ou na entrada/saída do sono—talvez seja o estado mais criativo de Quintana. Esse papel não é exclusivo sequer das artes**, mas o poeta o explorou como ninguém. 

No soneto VII, tudo se dá na transição vigília/sono, nos dois sentidos, como se ele brincasse com seus processos mentais e com as palavras. É quando o mais conhecido dos contos de fada começa (“A Gata Borralheira”), mas não a partir do “Era uma vez…Um dia…Eis senão quando…”! NÃO! As coisas estão acontecendo naquele momento! Curiosamente, o Cerro os olhos…” surge depois de iniciado o processoTeria a imaginação alcançado tal magnitude antes mesmo da entrada no sono?

E o livro…tão material…tão fora de contexto!? Por que a inutilidade a ele atribuída? Para que dele precisaria o poeta, se está como que vivendo o próprio conto? Diria mais, o livro poderia até atrapalhar; no momento, é claro. No último terceto é esboçado um conflito e tensão: a chuva, talvez representando a “realidade”, tenta resgatá-lo para alguma outra história, mas o poeta resiste“…sempre pensando em outra cousa”. É como as crianças resistem àqueles que as tentam enquadrar. Muitos poderão dizer ter sido tudo apenas “um jogo de palavras”. Mas parece ser o espírito da arte, inspirado em Dionísio, se manifestando pelo escape das tentativas de controle pela razão: “Ninguém me agarra…Ninguém me agarra!” (“As águas vão rolar”, Zé da Zilda e/ou Zilda do Zé). Dionísio, deus do vinho, ganhou voz no nosso CARNAVAL e teria pensado/cantado algo assim enquanto se livrava das correntes com que o muito racional PENTEU o prendeu (“As Bacantes”).

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*Uma seca de 2 séculos, no final da Era do Bronze (em torno de 1200 AC), provocou o colapso das civilizações à volta do Mediterrâneo, levando a uma migração épica para as cercanias do Nilo.

​**Mendelejev chegou à sua tabela periódica durante um cochilo (depois de muito estudo, é claro), assim como o químico A. Kekulé resolveu o problema da fórmula espacial do benzeno sonhando com várias cobras mordendo caudas em um círculo. 

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