QUINTANA: ACALANTO À RUAZINHA ESCURA!

(Seguido de luminoso despertar: uma brilhante e bem humorada MARCHA RANCHO)

Márcio Amaral

SONETO II do CICLO: “A RUA DOS CATAVENTOS”!

Dorme, ruazinha… É tudo escuro… 
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los? 
Dorme o teu sono sossegado e puro, 
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos… 

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro… 
Nem guardas para acaso persegui-los… 
Na noite alta, como sobre um muro, 
As estrelinhas cantam como grilos… 

O vento está dormindo na calçada, 
O vento enovelou-se como um cão… 
Dorme, ruazinha… Não há nada… 

Só os meus passos… Mas tão leves são 
Que até parecem, pela madrugada, 
Os da minha futura assombração…

Um ACALANTO para uma rua!? Só Quintana mesmo. Ninguém deu tanta vida ao mundo dito da matéria! Sim, a tal “res extensa” (e morta) de Descartes é rematada tolice, Leibniz foi o primeiro a demonstrá-lo! A vida pulula em tudo à nossa volta! Eu mesmo só me dei conta de estar diante de um acalanto enquanto repetia diversas vezes a canção: “Mas isso é um acalanto!”, pensei com surpresa. Sim, é um acalanto! Tê-lo feito, sem disso me dar conta, gerou a confiança de estar sintonizado com o poema! Costumo dizer que, ao tentar fazer brotar a musicalidade de um poema, são exigidos apenas: respeito à nossa própria inspiração e sintonia com o poema (avaliada a posteriori). Com relação a “estar à altura”, “no nível de qualidade e/ ou grandeza”, melhor deixar o julgamento ao tempo e às pessoas mais simples. 
Eis um poema transcendental (para além do tempo e do espaço), por definição! Afinal, os passos do poeta parecem: “….Os da minha futura assombração”Mesmo assim não precisa de interpretações tal a clareza que ilumina a escuridão aqui pintada. Poucas vezes me senti tão transportado à atmosfera* de um poema. Quem já andou sozinho por ruazinhas tranquilas nas madrugadas (possibilidade cada vez mais rara) sabe do que falo. 
Até aqui, minhas observações têm se limitado à temática dos poemas! Mas, como já disse M. Bandeira, a poesia é a palavra, uma espécie de magia sonora dos versos  que nos transporta à metafísica do intangível à razão. Exemplifico com um verso do Soneto IV, no qual uma troca de palavras (ou mesmo de sua ordem) não mudaria nada na temática: “Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!”. Já o poema, desabaria inexoravelmente ou perderia muito do seu interesse. É um bom exercício para a comprovação da tese. No Soneto aqui apresentado, assinalo um dos versos que levam esse efeito a paragens que só podemos sentir: “O vento enovelou-se como um cão…“. Foram versos como esse que me fizeram reconhecer que o caminho da poesia me era inacessível. Tendo lido e apreciado a obra de M. de Andrade, cheguei a acalentar a ideia de escrever poesia. Quando, porém, mergulhei no universo de M. Bandeira e depois no de Quintana…desisti…quando muito, uma letra de música! Por fim, costumamos pensar no vento como movimento, rebeldia e ação, associando-o aos telhados. Mas, para conforto da ruazinha, Quintana o deitou no chão e o domesticou como a um cão. QUANTO PODER A POESIA TEM!

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SONETO III de “A Rua dos Cataventos” (Marcha Rancho)

Quando os meus olhos de manhã se abriram, 
Fecharam-se de novo, deslumbrados: 
Uns peixes, em reflexos doirados, 
Voavam na luz: dentro da luz sumiram*…


Rua em rua, acenderam-se os telhados. 
Num claro riso as tabuletas riram. 
E até no canto onde os deixei guardados 
Os meus sapatos velhos refloriram. 

Quase que eu saio voando céu em fora! 
Evitemos, Senhor, esse prodígio… 
As famílias, que haviam de dizer? 

Nenhum milagre é permitido agora… 
E lá se iria o resto de prestígio 
Que no meu bairro eu inda possa ter!…

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Quanta luminosidade, cor e vida! Confesso que fiquei feliz ao perceber o contraste entre dois sonetos publicados em seguida (II e III). Teria eu conseguido expressar esse contraste nas canções? Há que observar: nos 3 sonetos que me inspiraram uma M. RANCHO, o verbo ABRIR aparece logo no primeiro verso (XV: “O dia abriu seu pára-sol dourado…”)! Pensando em “Ô abre alas que eu quero passar.” (Rancho que abriu o caminho para as marchinhas) tive a impressão de haver nisso algo para além de coincidências. Sim: Carnaval implica CORTEJOS! As M. Rancho estão em sintonia com os 3 sonetos. Na evolução de nossa CULTURA, vieram abrir novos espaços, catapultar expressões coletivas a um novo patamar. Também por isso, há que reverenciar CHIQUINHA GONZAGA
Teriam se acendido os telhados? A atmosfera* criada é de liberdade sem limites. Estaria a RUAZINHA entre as iluminadas? Como o pintor M. Chagall, Quintana quer voar por sobre casas. E quanto humor nesse “resto de prestígio”! Falei da humanização que Quintana consegue dar aos objetos e isso atinge o auge em relação aos seus sapatos: “Os meus sapatos velhos refloriram…”. No soneto XV diz o poeta: “Pus meus sapatos na janela alta…céu é que lhes falta…”. Mas isso certamente não é válido para qualquer sapato! Os “de MARCA”, muito estéreis, nunca haveriam de reflorir! Seu possível efeito “de marca” se perde rapidinho com a primeira marca da vida! Já Quintana, como bom andarilho, havia de louvar seus bons companheiros. A imagem veio de confins tão profundos que ele nomeou um dos seus livros: “SAPATO FLORIDO”.

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*Em 3 edições podemos ler “sumiram-se”. Não se pode falar em licença poética pela rima. Teria sido um erro de impressão na primeira edição que ninguém teve coragem de corrigir?

**Nastroenie, palavra russa que entrou no vocabulário dos artistas. Afinal, ninguém foi capaz de criar atmosferas como N. Gogól e F. Dostoiévski.

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