QUINTANA: SERESTA PARA UM MENININHO DOENTE!
(E um CHORINHO/SAMBA de reencontro consigo mesmo: “Sou o meu próprio Frankenstein”)

“…Eis-me aqui, recomposto, sem um ai.
Sou o meu próprio Frankenstein — olhai!
O belo monstro ingênuo e sem memória…”
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SONETO VI DO CICLO “A RUA DOS CATAVENTOS”
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
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Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…
………….
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
………….
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
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Trata-se de um dos mais conhecidos sonetos de Quintana, citado por ele mesmo em entrevistas ao se referir à sua própria história. É um dos mais diretos dos poemas desse ciclo. Não pede interpretações e considerações metafísicas, apesar da “alminha boa”. Se há nele uma questão filosófica, é: repararam que é nas nossas “partes frágeis” que crescemos e nos desenvolvemos; da “moleira” dos bebês e nas epífises cartilaginosas dos ossos longos? Toda a nossa possível força parece derivar da consciência da nossa própria fragilidade. Pois bem, há ali um verdadeiro culto à fragilidade e à capacidade de colher a riqueza poética que só sua aceitação pode produzir. Enquanto isso, a tolice moderna fica apregoando a força; que sejamos guerreiros, etc. Quando associamos essas verdadeiras campanhas—de alienação através da adulação—aos “vencedores CONTRA os vencidos” (é bom não esquecer) entendemos que o objetivo é lançar-nos uns contra os outros; fórmula para os exploradores seguirem explorando. Se a minha possível força não se dirigir ao que considero os interesses da sociedade, sua aplicação terá sido perversa.
Tudo (e todos no poema) ali é Quintana (como ele mesmo diz em outro poema não pertencente ao ciclo): o operário triste, mas também o menininho doente (Quintana foi mesmo um deles), em um contraste extremo com os homens que “batem sola” ou que “canções napolitanas engrolam”. Mas esses também, um dia, haverão de se reencontrar—nascemos tão frágeis!—com sua própria fragilidade e talvez não tenham a mesma capacidade de com ela lidar. Mas também para com esses, há uma enorme valorização e admiração no poeta, pois são eles que, com sua afirmação da vida, fazem com que o sofrimento de todos se evole. M. Bandeira—grande amigo de Quintana, que também conheceu a fragilidade e dela soube tirar sua própria força e poesia—em uma noite de quase desespero, escreveu com o mesmo espírito sobre um ferreiro vizinho seu: “Sei que amanhã ouvirei o ferreiro bater o seu martelo de certezas”.
NOTA: : Tornou-se comum, em nossa música popular, acrescentar, omitir ou modificar palavras durante execuções. Diante de poemas consagrados isso é totalmente contra indicado. Eu mesmo o fiz, inadvertidamente, no poema abaixo: disse “um carpinteiro…” quando o original é “o carpinteiro…”. Nada ali é indiferente. Diante de poemas muito longos é aceitável (e muitos compositores o fizeram) a omissão de quadras e versos inteiros.
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XXVI “Deve haver tanta coisa desabada…” (SAMBA! Inspiração inicial: Chorinho)
À primeira vista, o soneto de Quintana é terrível: “sopra um ar de morte”, “sala em que me assassinaram” , “Manchas de sangue inda por lá ficaram”, “medonha história”! E, no entanto, o que resulta é a maior de todas as AFIRMAÇÕES: “Eis-me aqui, recomposto, sem um ai/Sou meu próprio Frankenstein”. Eis aqui…QUINTANA e a maior (ouso dizer) representação em versos de seu processo pessoal que haveria de se prolongar até a morte…quiçá depois…pelo menos sua ação sobre o mundo! Tudo parece se passar em um bar e começa por uma APERCEPÇÃO (conceito de LEIBNIZ que marca a inspiração para a PSICOLOGIA*) terrível sobre o que se está passando “Lá dentro…”. Esse “Lá dentro” implica um distanciamento perigoso. Já a “Alma Penada” deve ser entendida nos versos que se seguem: “Não quero ouvir essa interior balada/Saudade… amor… cantigas de ninar”. Ou seja: a “Alma Penada” seria aquela que fica tentando mitigar, através do autoengano, as dores pelas quais alguém precisa passar em seu processo de AFIRMAÇÃO. Notar que, na “lista” seguinte há um caminho de volta, até a primeira infância: “Saudade… amor… cantigas de ninar” o que pode ser traduzido para: “Chega de infantilizações! Preciso passar por todas as dores inevitáveis …‘sem um ai’“. E então, eis que “…sopra um ar/De morte… Não, não sei! não sei mais nada…” (parecendo estar à beira de um abismo). Até uma cena de crime ele indica, certamente pelas muitas tentativas das pessoas em fazer dele algo “diferente” do que seria seu próprio caminho para o “TORNA-TE O QUE ÉS!”: “manchas de sangue inda por lá ficaram”**. Por fim, o poeta se recompôs em: “O belo monstro ingênuo e sem memória…”, entendido por mim assim: sem qualquer ressentimento para com quem quer que seja.
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SONETO XXVI
Deve haver tanta coisa desabada
Lá dentro… Mas não sei… É bom ficar
Aqui, bebendo um chope no meu bar…
E tu, deixa-me em paz, Alma Penada!
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Não quero ouvir essa interior balada…
Saudade… amor… cantigas de ninar…
Sei que lá dentro apenas sopra um ar
De morte… Não, não sei! não sei mais nada!…
………….
Manchas de sangue inda por lá ficaram,
Em cada sala em que me assassinaram…
Pra que lembrar essa medonha história?
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Eis-me aqui, recomposto, sem um ai.
Sou o meu próprio Frankenstein — olhai!
O belo monstro ingênuo e sem memória…
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Uma CONFISSÃO: a inspiração me veio de um dos mais belos chorinhos: “CORAÇÃO OPRIMIDO” (P. da Viola). E que introdução na flauta! Eu nem o conhecia bem, até ser por ele “atingido” em um carro. Finda a escuta, disparou-se uma melodia em mim, mas era parecida demais com a original. Felizmente, não conhecia bem o chorinho, pois tive mais liberdade para “improvisar” enquanto dirigia. A associação com o verso: “Aqui, bebendo um chope no meu bar…” de um dos SONETOS foi imediata. Depois das atividades, retornei para rever: o soneto e a canção, da qual me esforcei em repetir apenas a INTRODUÇÃO na flauta. Queria evitar um PLÁGIO. Meu consolo? Não riam, por favor: JS BACH, antes de compor, tocava obras de outros compositores. ATENÇÃO: somos todos HUMANOS…! Embora alguns pareçam ter vivido um pouco além***.
“CORAÇÃO OPRIMIDO”! Uma maravilha sob todos os ângulos: melodia, letra, arranjo, execução… Mas não posso deixar de assinalar o mais belo uso da CUÍCA já ouvido! No fundo, por todo o tempo, discreta, sofrendo com o poeta até, bem no final, soar como os últimos gemidos de um pássaro moribundo! Quem é esse artista cuja mão precisa se esconder para soar? Um dia alguém ainda vai estudar o papel desse instrumento—que parece exclusivamente brasileiro—na nossa música e história! Mas há também um contraponto temático a assinalar: o poeta, aqui, permanece com o coração oprimido e cultiva “Saudade… amor…” com eles fazendo a mais bela arte! QUINTANA, porém, e como ZARATUSTRA, precisou descer ao mais profundo dos abismos para lá dançar!
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*“…podemos fornecer, de dentro de nós mesmos e para nós mesmos, qualquer objeto de pensamento, desde que queiramos nele escavar!” “NOVOS ENSAIOS…”, derrubando conceitos dos empiristas ingleses. Ver em: http://temasedebatesemsaudemental.com.br/2022/03/15/bebes-lousas-vazias-ou-plenos-de-temperamento-talentos-inclinacoes/
**Em entrevista, Quintana fala das preocupações do seu pai com seus possíveis “descaminhos”. Chegava a usar pessoas conhecidas para se informar sobre o filho; mais um paralelo com Kafka, apontado em outra publicação.
***Em sua autobiografia, diz Anna Magdalena Bach: “Se, ao chegar ao céu, eu não ouvir a música de meu marido, ali não será o céu”. Não conheço maior e mais profunda declaração de amor!