QUINTANA: MARCHINHA E M. RANCHO! DUAS FACES DO CARNAVAL!

(Uma certeza: CARNAVAL pede e deriva de CORTEJOS, como na Grécia)

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 A imagem do adolescente é associada ao GAVROCHE, personagem de V. Hugo em “OS MISERÁVEIS” escrito anos depois. Pintado a partir de uma revolta em Paris pela LIBERDADE DE IMPRENSA.

“Eu vou sair pro carnaval dos ruídos…” (SONETO IV de “A Rua dos Cataventos”- QUINTANA)

Bem antes de reparar na palavra “carnaval” do quarto verso do SONETO veio a inspiração pela marchinha. Tudo ali soa a carnaval, observação reforçada pelo verbo “sair”, como se costuma dizer no carnaval, especialmente em relação às fantasias: “V. vai sair de quê!?”. É verdade que a cena se dá em uma feira…mas essas são tão aparentadas ao carnaval! Seu verso final como que pede carnaval e acho que, sem falsa modéstia, sua melodia e ritmo quase obrigam ao carnaval…e com uma ponta de deboche para com o Anjo da Guarda: “…É…simplesmente…a Vida!…”. Por que deboche? Imagino alguém rebolando diante do anjo enquanto repete aquilo quo ele nunca conhecerá…por não viver…na carne!!!

Em seu “A Origem do Teatro a partir do Espírito da Música”, Nietzsche já dissera serem os Cortejos de Dionísio o momento no qual abandonamos nosso personagem social—como proposto ao anjo da guarda—quase sempre com a ajuda do álcool: “…Quero me perder de mão em mão!/Quero ser ninguém na multidão!”. A sintonia de nossos poetas com o carnaval é impressionante! É quase certo que aqueles cortejos se dessem no período da colheita das uvas. Uma coisa é certa: nunca no período mais frio do ano! “Agendá-lo” para 40 dias antes da Páscoa (quando a natureza começa sua “ressurreição primaveril” depois de longo inverno) foi mais um esforço para “matar a carne” (“carnevale”). Façam as contas e verão que, através de outra manipulação de datas, roubaram a LUA (com seu simbolismo feminino) do carnaval: “Meu bem…me dê a mão vamos pro meio do salão/A lua lá no céu é artificial/Porque é carnaval…”. Os sisudos, invejosos da alegria e da sensualidade, só não contavam com a “descoberta” (para os europeus) do Brasil! E então…o moribundo carnaval dos europeus teve uma ressurreição em alto estilo. Um dos meus programas de encerramento do carnaval é ir ao Arpoador, na tardinha da “Terça-Feira Gorda”, para apreciar uma nesguinha de Lua, quase se pondo perto da Pedra da Gávea e o Dois Irmãos. Sempre penso parecer estar ela (como as mulheres muito reprimidas) perguntando ao abrir cuidadosamente uma porta: “Posso voltar?”

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SONETO IV 

Minha rua está cheia de pregões.

Parece que estou vendo com os ouvidos:

“Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!”

Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,

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Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões

Horrorizado as mãos em teus ouvidos? 

Anda: escutemos esses palavrões 

Que trocam dois gavroches atrevidos! 

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Pra que viver assim num outro plano? 

Entremos no bulício quotidiano… 

O ritmo da rua nos convida. 

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Vem! Vamos cair na multidão! 

Não é poesia socialista… Não,

Meu pobre Anjo… É… simplesmente… a Vida!…

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Se no SONETO XXX Quintana fala da libertação de formalidades, aqui o passo se dá na conquista das ruas e a aproximação da gente simples do povo. E quanta admiração tinha o poeta por essa gente simples que haveria de se tornar fonte de grande inspiração! Como acontece várias vezes na obra do nosso poeta, há ali um diálogo entre a razão e os instintos, aqui chamados A VIDA! No SONETO XVIII, o poeta cede à repressão, mas não deixa de ouvir por toda a noite: “…A inquieta voz dos ventos que me chama”. Dessa vez, porém, a ironia e o deboche vencem. O que dizer dos “gavroches atrevidos” (personagem de “Os Miseráveis” V. Hugo e do quadro de Delacroix)? Diz Quintana em “Casa Grande”:“…Não pude ser um menino da rua…”, (pois teria nascido) “…em um solar de leões./ (…escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso…)”. Só para registrar, o meu próprio caminho foi oposto. Fui um desses “gavroches atrevidos”! Tive que conquistar a vida intelectual duramente e em completa solidão.

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MARCHA RANCHO…PARA UM SONETO QUE QUINTANA EXCLUIU!

Na segunda edição de “A Rua dos Cataventos”, Quintana substituiu 2 sonetos e não sabemos seus motivos. Por isso o que segue é o “SONETO XXX-b”; talvez um dos mais líricos, de um lirismo quase infantil ou pré-adolescente. Fala de experiências de que me lembro nesses períodos da vida: o “bem me quer…mal me quer” e os pedidos às estrelinhas cadentes. E que associação entre os dois: o céu como um campo de margaridas! “Estrelas altas! Que se importam elas?…” também conheço a veneração um tanto erótica por “estrelas altas”, uma certa vedete dos anos 1950. E vem a decepção… “que se importam elas?”. 

Muito interessante é a veneração de Madureira pela sua mais alta ESTRELA, Zaquia Jorge*, cuja morte aos 33 anos inspirou o “Madureira Chorou” e o samba “Estrela de Madureira” (Acyr Pimentel e Cardoso, em 1975 na disputa para o samba enredo do IMPÉRIO SERRANO). Anos depois foi rebatizado para “Trem de Luxo”“…mesmo com o palco apagado, a apoteose é o infinito, continua a estrela brilhando no céu”. Curiosamente, uma dessas “estrelas altas” se aproximou de Quintana no final de sua vida!

A assinalar: os 3 poemas que me inspiraram MARCHAS RANCHO trazem o verbo “ABRIR” já no primeiro verso: “Quando os meus olhos na manhã se abriram…” (Soneto III); O dia abriu seu pára-sol bordado…” (Soneto XV), além do aqui apresentado. É coincidência demais para ser apenas… coincidência. Sim, foram as M. Rancho que abriram espaço para o próprio CARNAVAL. Suas marchinhas mais apressadas vieram depois. Tudo isso pela voz, pelas mãos, os ombros e até os cotovelos de Chiquinha Gonzaga: “Ô Abre Alas que eu quero passar….”

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MARCHA RANCHO: SONETO XXX-b 

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas… 

De margaridas lindo campo em flor! 

Tão alto o céu!… Pudesse eu ir colhê-las… 

Diria alguma si me tens amor… 

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Estrelas altas! Que me importam elas? 

Tão longe estão!… Tão longe deste mundo… 

Trêmulo bando de distantes velas 

Ancoradas no azul do céu profundo… 

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Porém meu coração quase parou, 

Lá foram voando as esperanças minhas 

Quando uma, dentre aquelas estrelinhas, 

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Deus a guie! Do céu se despencou… 

Com certeza era o amor que tu me tinhas 

Que repentinamente se acabou!… 

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*Essa “estrela alta”, vedete de Madureira se importava muito com o seu povo. É hora de resgatar seu legado!

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